sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal é sempre Igual?



Texto: Lucas 2.1-20

1 Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se.
2 Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria.
3 Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.
4 José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi,
5 a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
6 Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias,
7 e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
8 Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite.
9 E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor.
10 O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo:
11 é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.
12 E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura.
13 E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo:
14 Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem.
15 E, ausentando-se deles os anjos para o céu, diziam os pastores uns aos outros: Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer.
16 Foram apressadamente e acharam Maria e José e a criança deitada na manjedoura.
17 E, vendo-o, divulgaram o que lhes tinha sido dito a respeito deste menino.
18 Todos os que ouviram se admiraram das coisas referidas pelos pastores.
19 Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração.
20 Voltaram, então, os pastores glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado.


Será que todo natal é igual? Aquela correria no Brás para conseguir comprar mais com menos; as idas ao super mercado mais que lotado, sem carrinho para todas as pessoas que querem comprar seu Chester, Peru, Pernil, frutas, panetone, etc; o trânsito caótico e intenso; a expectativa das crianças; o cansaço das pessoas que preparam e se preparam para essas festividades; enfim, será que todo natal é igual, com a mesma rotina insaciável e previsível ao mesmo tempo?
Para algumas pessoas este período do ano é irrelevante. A vida continua a mesma. As mesmas fissuras. Como se não servisse para nada, ou, no máximo, um tempo ocioso que não gerará lucros.
Não podemos esquecer do esforço de alguns religiosos em pregar contra árvore de natal, papai noel, presentes, comemoração, afinal de contas, para eles, Natal é algo extremamente demoníaco. Parece que se eles pudessem estabeleceriam mais uma inquisição para expulsar os demônios que assolam a imaginação das crianças em sua alegria de esperar pelo presente. Colocariam os shoppings ao chão, haja vista que promovem a perdição humana. Queimariam tudo e todos que se assemelha, lembra ou apenas se parece com algum enfeite natalino.
São tantas variáveis que envolvem o Natal. Algumas positivas, outras negativas. Na verdade, tudo depende da forma como a percebe e enxerga. Se as lentes que percebem o natal estiverem embaçadas, possivelmente o natal será interpretado como algo extremamente obscuro, mal definido. Se as lentes estiverem limpas, as chances de separar o que é mercadológico, do que é místico e simbólico torna-se mais fácil. Afinal de contas, nem tanto o céu, nem tanto a terra.
Muitas coisas no natal não tem nada de divino. Se não tomar cuidado o espírito capitalista toma conta das pessoas de tal forma que ficam alienadas, dominadas e extremamente consumistas. As crianças ficam insuportáveis, os adultos incontroláveis, a vida sem sentido. Porém se o natal for visto com simplicidade, humildade, generosidade, fartura e doação, ele encarna o seu real sentido: a vinda do Deus que amou incondicionalmente a humanidade.
Ao passo que o natal é visto como a tangência da espiritualidade no cotidiano humano tudo se torna simples, somos impactados pela humildade, haja vista que reconhecemos que somos, nada mais, nada a menos, descobrimos a generosidade como viés do seguimento de Jesus; promovemos a fartura por meio cumplicidade e a doação como uma ação sem expectativas próprias.
Portanto: para uma coisa mudar, a forma de olhar para determinada 'coisa' tem que mudar. A vida não pode ser encarada com mesmice. Os ciclos precisam perder densidades de esvaziamento e adquirir densidade de valores e princípios. Podemos encontrar isso na comemoração do Natal.
O que está em jogo não é se Jesus nasceu ou não no dia 25 de dezembro. Ou que povos pagãos celebravam o aniversário de seus deuses (solfistes). Não está em vigência se o natal é uma festa pagã que passou pelo processo de aculturação e, posteriormente de sincretismo religioso.
Na verdade, o que vale mesmo, é a sensação de que temos um Deus que não mediu esforços para que a humanidade descobrisse e vivesse o amor.

César Augusto estava preocupado com a expectativa de um novo rei, o messias que tomaria o seu lugar, por isso ele tenta impedir que os planos de Deus se concretizem. Elabora um plano maquiavélico para aniquilar o novo messias. Não mede as consequências, ou quem iria sofrer com tudo isso.
O texto aponta exatamente o tempo em que Jesus veio, quer demonstrar que a vinda de Jesus não foi algo ilusório, fictício, mas vivo e relevante. O tempo vivencial deste povo não era nada fácil, pelo contrário, estava muito conturbado. Por causa das tensões políticas o povo sofria assustadoramente, além do silêncio de Deus que durou pouco mais de 400 anos.
Para o plano de César Augusto dar certo toda à população tinha que entrar no recenseamento, ele não queria deixar ninguém passar, queria eliminar o problema de uma vez. Dar um basta no messias! Não se pode negar sua visão empreendedora.
José foi até o lugar que lhe era devido, isso demonstra sua linhagem, que ele era realmente da casa de Davi. Uma pergunta fica no ar: de tantas tidas 'boas' cidades, por que Deus escolheu essa cidade para ser o berço do messias? José vai junto com sua esposa, Maria, que estava grávida, para o recenseamento.
Possivelmente Maria já estivesse um um 'baita' barrigão. No momento menos apropriado os dias da gravidez se completam! É certo que já aconteceu com todas as pessoas em fazer planos, prever alguns acontecimentos, só que, na hora 'H' ou no pior momento, tudo o que foi calculado vem por água a baixo. Maria grita que o neném teria que vir naquela mesma hora, o que fazer? Por que Deus permitiu esse problema? Essa confusão toda nessa hora indevida?
Ela teve o neném. Pelo que o texto mostra de uma forma precária. Não deve ter sido nada fácil. Por que Deus deixaria que seu filho nascesse de um jeito tão doloroso? Tão complicado? Por que Deus não facilitou a situação? Por que tanta precariedade? Por que tanto problema acumulado? Aquele que é o mais importante, o primogênito, nasce de um jeito tão esquisito, tão forçado.
O texto mostra que as primeiras pessoas que são chamadas para verem Jesus não eram as melhores. Eram apenas pastores que guardavam ovelhas na vigília da noite. Pessoas que tinham que trabalhar de 'segunda à segunda', sem descanso, porém era um ofício de zelo, cuidado, vigilância. Nem todas as pessoas davam conta de fazer o que eles faziam, ficar de sentinela não é nada fácil.
O anjo do Senhor se revelou a eles. Talvez numa hora inesperada, em que eles estavam contando estrelas, olhando para as ovelhas descansarem. O primeiro sentimento que bate quando a glória do Senhor se revela é o temor, porque as nossas máscaras caem, relembramos que realmente somos. Parece que Deus se revela muito assim, em horas inesperadas, mas extremamente propícias, a fim de dar basta em algumas situações e gerar novas projeções.
A palavra do anjo é de paz. Lembra um pouco a fala dos profetas quando chegavam em algumas cidades e eram questionados sobre sua ida, a resposta deles era que sua missão era de paz (fato que aconteceu com o profeta Samuel quando foi ungir Davi como rei). A alegria chega, em primeiro lugar, para os pastores, e posteriormente para todo o povo. Por que essa ordem?
As boas novas do anjo é: O nascimento de Jesus, o salvador tão esperado! O sinal que o anjo aponta é mais inesperado ainda: uma criança envolvida em faixas numa manjedoura. Será que era assim que se esperava o rei? Quais são os sinais que procuramos? Será que o sinal já não foi dado e estamos procurando as coisas erradas? Parece que a metodologia de Deus é a do 'contra'.
Uma milícia de anjos celebrando o que nenhum homem celebraria. O que parecia loucura era o caminho de alegria. A expressão dos anjos é: glória a Deus nas alturas e paz a terra aos homens que ele quer bem? O que representa isso?
Os pastores se colocam a caminho para ver aquilo que o Senhor havia revelado para eles. Estes pastores deixam tudo o que estava fazendo para irem atrás das palavras que foram lançadas por Deus.
A palavra que aparece é apressadamente, estavam com pressa, foram bem rápidos e acharam o que tanto procuravam. Talvez depois do susto de mais uma coisa inesperada, revelaram ou descobriram Maria e José, um casal rodeado por animais, num lugar desapropriado para o nascimento do sagrado, mas que foi envolvido pelo que existe de mais divino: o nascimento!
Ao encontrar com o casal, os pastores anunciam o tempo de advento que o anjo havia trago para as suas vidas. Uma parusia clara e sincera com Gabriel.
Todas as pessoas ficaram espantadas, talvez porque tudo o que estava acontecendo era muito inevitável de ser de Deus. Muitos problemas, muitas dificuldades. Por que Deus fez com que os pastores fossem as primeiras pessoas a receberem a revelação por parte de um anjo e irem confirmar toda a história?
Talvez porque se fosse alguém muito importante, cheio de status, a notícia iria ganhar muito resplendor, mas pouca importância. Muitas vezes as pessoas ficam interessadas no evento em si, mas não no que aquilo representa. Então, escolher pastores que guardariam o sigilo necessário, não levaria os holofostes mundanos mas seria portadores na notícia que daria a paz para o casal e apontaria que as coisas que estava acontecendo tinha o cuidado de Deus.
É interessante o verso: Maria ouvia tudo, guardava as palavras no coração, meditando no coração. É um verso de beleza e intensidade ímpar. Talvez se houvesse alguma dúvida, algum questionamento, naquela hora Maria estava deixando de lado e guardando em seu coração as palavras de bênção e de promessas!
Ao mesmo passo que os pastores chegam, partem. Glorificavam a Deus pelo que haviam ouvido e visto. Qual é a distinção entre glorificar e louvar? Qual é a sensação de perceber que algo da parte de Deus esta se cumprindo?

Dentro dessa história tão conhecida, podemos perceber pelo menos três instancias particulares que cortam o texto e que, de modo significativo, podem agregar muito em nossa espiritualidade e na forma de vivenciarmos o natal.

I – A ida para o recenseamento: hora de enfrentar o que não se pode enfrentar.
Imagino que José não sabia o risco que corria em ir com sua esposa para o recenseamento. Que era um plano para exterminar o Filho de Deus. Contudo era a hora de José junto com sua esposa enfrentarem aquilo que com suas próprias forças não teriam condições de superarem.
Por vezes entramos em algumas situações que nem imaginamos. Alguns riscos que mergulhamos são 'sem querer', mas outros riscos procuramos, caçamos até chegar no limite pensando que podemos impedir na hora “H” sem deixar ninguém ver ou descobrir, sem ter que assumir consequências das ações.
É fundamental pensar em três palavras: QUERO, DEVO e POSSO. São três ações que determinam quem somos e quais são as nossas reais e verdadeira motivações para fazer algumas coisas. Vejamos
Eu QUERO - Algumas situações são motivadas por vontades e desejos;
Eu DEVO - Algumas situações são movidas por nossa responsabilidade;
Eu POSSO - Algumas situações são movidas pela capacidade em fazer;
Porém...
nem sempre que eu quero eu devo ou posso.
nem sempre que eu devo eu posso ou quero
nem sempre que eu posso eu quero ou devo


É interessante perceber que não havia lugar para Jesus nascer. Tanto em Israel como no coração das pessoas, além do que Israel já tinha um rei. O tão esperado (Messias) é descartado e/ou rejeitado. O padrão da religião judaica era diferente do padrão de Jesus ou do próprio Deus. Não queriam que Jesus nascesse porque esse nascimento exigiria mudanças que muitas pessoas, inclusive os mais poderoso, não estão dispostos a fazerem.

II – O nascimento da criança – a solução indefesa.
Já teve a sensação de tudo dar errado na hora que não poderia dar errado? Certa vez, ainda seminarista em Osasco, íamos fazer o culto da alvorada as 6h da manhã. Estava em São Bernardo do Campo. Levantei as 4h30 da manhã, tomei um banho bem caprichado para acordar de verdade, coloquei o terno, a gravata e as 5h10 sai na garagem. Olho para o carro, o pneu furado. A chave de roda que eu tinha não entrava, e o tempo passando, até que apareceu um vizinho tirando o carro, pedi a chave de roda dele e consegui trocar. 5H45 estava correndo, todo suado, sujo para a igreja no culto da alvorada. A melhor parte que consegui fazer o trajeto São Bernardo Osasco em 15 minutos.
Na hora que menos poderia dar uma coisa errada, deu. Parece que foi isso o que aconteceu com José. Além dos perigos da viagem, Maria talvez não tenha contado os dias errados. A contração bate, a bolsa estoura, o que fazer? Correr atrás de alguma maternidade? Talvez a mesma que os animais de um celeiro usam. Sem nada esterilizado, adequado para o parto do filho de Deus. Algumas adaptações precisam ser feitas, a fim de que o Emanuel esteja conosco.
Quem foi a parteira? Qual foi o berço? Quem foi o ginecologista responsável pelo parto? Não sabemos de nada disso, sabemos apenas que por mais improvável que pareça o impossível tornou-se possível.
Jesus era a solução, mas ele estava indefeso diante dos obstáculos da vida. Quantos riscos? Quanta coisa errada poderia acontecer?
Nossos parâmetros de comparação, de tranquilidade ou de segurança estão baseadas em nossas forças. Não acreditamos que a simplicidade, o ingênuo, o pequeno podem fazer diferença. Só que estamos errados. Precisamos de:

Simplicidade – na forma de encarar a vida;
Ingenuidade – para se livrar do que é o mal e aparenta ser mal;
Pequeno – para não ser dominado pela ganância.

A história demonstra que o pequeno, simples ou, até mesmo, miserável começo desenvolvido por Jesus em seu nascimento foi o divisor de águas. Portanto, valorizar os pequenos começos nos dá forças para caminhar firmemente na vida.

III – O desdobramento da história – aparentemente as coisas estão sem nexo, mas aos poucos se complementam de uma forma especial...
Qual é o nexo, isto é, a relação que os pastores têm com essa situação? São parentes? Não. São profetas? Não. O que são? Simples pastores, que numa leitura rápida podemos dizer: pessoas erradas no lugar certo. Mas não era bem isso.
Eles receberam o anúncio por parte do anjo e viram a felicidade dos anjos porque era pessoas que estavam ocupadas em suas funções, mas estavam disponíveis para cumprir o que lhe fora proposto, então, note:

Estar OCUPADO não é desculpa para não estar DISPONÍVEL.

Eles levam a boa notícia! Quando César vencia alguma batalha, fazia com que seus empregados levassem as boas novas para todos os povos, com o projeto de avisar o povo que algumas coisas seriam mudadas. Neste viés, algumas perguntas se colocam adiante de nós carecendo de algumas respostas:
Quais são os anúncios que o Natal traz?
Qual é a mensagem (kerigma) natalino?
Qual é a boa notícia (se tem uma?)?
Qual é a resposta que essas mensagens esperam do povo de Deus?
Quando Jesus nasce qual é a ação que se espera?
Para onde a mensagem nos leva?
Para o natal não ser sempre igual essas perguntas precisam serem respondidas honestamente, para que se descubra as arestas que precisam ser sanadas. Ao passo que respondemos bem as perguntas propostas, descobrimos qual é o foco de nossa vida? Qual é o nosso sonho? Aonde vamos chegar por essas trilhas?
As vezes por causa da preguiça, do ser tomado por inteiro pelo espírito da mediocridade não temos mais claro qual é o nosso foco. Achamos que o que é prático é o certo, mas nem sempre isso é verdade.
Deus não perdeu o seu foco de salvar o mundo. Deus não perdeu o foco em salvar a sua vida. E, por causa disso, não mediu esforços para que todas as pessoas descobrisse o amor incondicional de um Deus que ama incondicionalmente!
Procuramos métodos e mais métodos para sanar alguns problemas. Achamos que é o tipo de oração, livros de auto ajuda, etc. Lembro um pouco a história de uma empresa de pastas de dentes:
Havia um problema nesta empresa em enviar para o mercado caixinhas de pasta de dentes fazias. Para sanar isso ela contratou dois engenheiros que durante três meses, ao custo de 8 milhões de reais, elaborou uma máquina que conseguia evitar que caixas vazias fossem ao mercado. Colocavam todas as caixinhas numa esteira, que pesava caixa por caixa, a que estivesse vazia, travava todo o equipamento, vinha uma mão mecânica e tirava a caixa que estava vazia. Pronto, resolvido os problemas. A máquina foi implantada na empresa.
Depois de mais de três meses, os donos da empresa estavam satisfeito com o alto índice de aprovação, e foram ver a máquina, o espanto foi tremendo ao ver que a máquina estava desligada. Ficaram irritados com os trabalhadores. Foi convocado uma reunião extraordinária para resolver esse problema. Quando os funcionários foram questionados, a resposta foi simples:
Essa máquina só atrasava o trabalho. Toda vez que uma caixa vazia aparecia parava toda a produção. Então, nós fizemos uma vaquinha entre nós mesmo e compramos um ventilador, toda vez que uma caixinha vazia aparecia, o vento soprava pra longe a caixinha.

Algumas soluções são simples, mas tem que ser pensada em coletivo com os pés fixos na realidade. Encontrar algumas soluções em alguns momentos soam como grandes desafios, mas pensadas juntas podem alcançar boas resoluções.

O fim do texto é lindo. Ele diz que Maria ouvia tudo o que era dito. Seus olhos contemplavam um milagre fabuloso, e tudo isso isso ela ouvia e guardava em seu coração. Ela deixava reservado aquilo que era muito valioso.
O ser humano tem a tendência de esquecer aquilo que foi dito por Deus, mas, em contra partida, guardar no coração palavras de morte, destruição, verdadeiras pragas emocionais, psicológicas e espirituais.
Ao contrário disso, temos que guardar em nosso coração as palavras que foram lançadas por Deus, pois isso gerará vida, e vida em abundância. Natal é uma boa ocasião para lembrar e relembrar as palavras ditas por Deus, de nos chamar de filhos/as amadas por Ele.
Não importa o que fomos, ou o que fizemos, importa o que faremos daqui pra frente ao lado de Jesus. Permitir que o Natal mude nossas vidas, nossa maneira de encarar a vida. Para que o natal não seja sempre igual, nós precisamos mudar. Com a nossa mudança a vida muda, o natal muda, ou, na verdade, volta a ser o que era.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Faça e não faça...

[Sermão do culto de ação de graças da irmã Maria].

O que representa completar mais um aniversário? Alegria? Prejuízo? Felicidade? A festa de aniversário é a comemoração de alguma data muito importante! Só lembramos o aniversário de alguém que é relevante em nossas vidas. Ligamos para pessoas que transformaram, transformam ou transformarão nossas vidas. Que participam efetivamente de nossas vidas.
No aniversário queremos presentear o aniversariante. Comprar um presente não é nada fácil, haja vista que queremos surpreender a pessoa amada, tirar um sorriso, marcar a vida de um modo especial. Quando não temos dinheiro, utilizamos de palavras para expressar o que sentimos, descrever nosso amor e tudo o que esperamos e queremos que se concretize na vida dessa pessoa.
Se por um lado o aniversário envolve pessoas além do próprio aniversariante, por outro lado, o aniversariante vive dias, e de modo especial, o dia da celebração, um tempo diferenciado. Quando se é criança se vive apenas o lado bom, isto é, um tempo muito intenso de alegria, surpresa e expectativa misturada. Porém, quando se é adulto, não existe presente que substitua sensações mescladas como a: reflexão, a preocupação e a crise.
Reflexão porque se pensa aonde se está? Como chegou nesse lugar? Se é uma pessoa frustrada? Alguém triste? É a hora que se pensa no que se ganhou, no que se perdeu. A equação se forma, e quando os resultados são avaliados negativamente, a sensação de frustração toma grandes proporções dentro da gente.
Preocupação porque talvez não se viverá a mesma quantia do que já se viveu. Quando uma pessoa tem 10 anos, espera-se, naturalmente, que ela viva pelo menos 8 vezes mais do que já se viveu. Uma pessoa de 40 anos, espera-se, pelo menos, que viva o dobro do que já viveu. Porém, quanto mais os anos se alongam, maior é a sensação de que não dará para viver o mesmo tanto do que já se viveu. Aí o sentimento de perda de tempo, de medo pelo inesperado, incertezas tenebrosas, etc.
CRISE é aquele sentimento que coloca em cheque a alegria. Isso porque a crise é constituída por, no mínimo, duas variáveis. De perigo (tensão, problema, dificuldade) e da oportunidade (aquele momento que mudará de modo significativo nossas vidas). O perigo pode intimidar e consequentemente nos imobilizar. Porém, ao passo que se faz da crise uma oportunidade de crescimento e amadurecimento, muitas coisas são mudadas e/ou transformadas.
É nessa direção que completar mais um aniversário pode ser algo muito positivo. É a hora de por o ponto final em algumas situações, e escolher assumir novos rumos. O texto de Filipenses afirma esse princípio e caminha nessa mesma direção.

A carta aos Filipenses é bastante complexa. Se por um lado fica claro o amor que Paulo tinha por essa comunidade, sua ênfase em viver, seguir e morrer alegremente com Jesus, por outro lado, Filipenses foi uma Igreja que causou muita tristeza na vida de Paulo. Ele poderia, ao invés de escrever uma carta pautada na alegria, escrever uma carta dura com a palavra chave rancor.
Paulo quer terminar sua trajetória pois sente que foi cativado por Jesus e não quer deixar que a atitude de amor de Cristo seja em vão, pelo contrário, que ele produza frutos.
Todas as pessoas que vivem no proposito de santificação contínua tem em si esse sentimento de constante aperfeiçoamento, de uma busca constante para alcançar o alvo que lhe foi proposto.
Só que existem aquelas pessoas que acham que estão bem, que não precisam alterar nada em suas vidas, consideram-se perfeitas, que são boas o suficiente, etc. O texto afirma que não será o Espírito Santo que ministrará sobre essa pessoa. Não é por força nem por poder, mas pelo Espírito do Senhor (Zacarias 4.6).
A proposta de Paulo é andar conforme o que já se alcançou. Nada menos e nada além. Isto é a essência da humildade. Ser humilde não é ser tomado pela auto imagem 'coitado', porém não é perder as ambições dos sonhos. Nada menos, nada a mais do que se é.
Paulo se coloca como modelo. Padrão de vida cristã; Fala para as demais pessoas observarem os que optaram em caminhar com Jesus. São pessoas que podem ser cobradas e exigidas.
Já no tempo de Paulo existiam àquelas pessoas que estavam na Igreja, faziam parte da comunidade, diziam-se pessoas convertidas, mas, ao contrário, eram pessoas consideradas inimigas da cruz de Cristo. Paulo ao afirmar isso não fala com alegria, mas chorando, com muita tristeza. Talvez por ter em mente que a conversão verdadeira desse tipo de pessoa seja algo muito complicado, isso por elas se considerarem auto-suficientes.
Paulo deixa claro que o destino dessas pessoas, aquilo que esta reservado para elas é a perdição, (por serem filhos do filho da perdição). Deve ser terrível a sensação de estar perdido, principalmente quando se faz parte de uma comunidade. Ter preocupação miserável, com aquilo que tem fim.
Nessa mesma direção, Paulo chama às pessoas que tem uma experiência com Jesus para lançarem seus olhos para a pátria que as aguardam. Muitas pessoas estavam se corrompendo para terem a cidadania romana. Essas pessoas achavam que a pátria humana é muito melhor do que a pátria que os aguardam no céu. Deixar de ser escravo, conseguir aceitação da sociedade era a prioridade de algumas pessoas. Sendo assim, Paulo exorta para que as pessoas tenham em vista aquilo que realmente importa.
Deus tem o poder de subordinar a si todas as coisas, logo até o corpo humilhado e mutilado de muitas pessoas que estavam na glória, seriam transformados, renovados, refeitos. A palavra de ânimo de Paulo para essa comunidade era para não deixar se corromper, não se colocar à venda para as influências mundanas, para não terem ou viverem um falso evangelho.
A palavra de Paulo é para que além de firmes a Igreja precisa da alegria como característica nata. Por mais que as coisas não estejam conforme se queira, com um certo aspecto de desarrumado, mesmo assim, a vida tem que caminhar nos trilhos do amor sob a influência da alegria, tendo em vista a honra (coroa) que se conquistará.

Comemorar aniversário é uma dádiva. Podemos aproveitar desse tempo para repensarmos algumas situações da vida, e como temos nos comportado diante dos embates da lida. Nessa direção o texto tem muito a acrescentar.

I – Não pense além ou aquém do que você é.
Paulo propõe para a Igreja uma postura de humildade. Ele desafia as pessoas a valorizarem o patamar que já chegaram. As conquistas, as vitórias, não com cabeça baixa, pelo contrário, com honra e alegria de chegar aonde chegou.

II – Não seja refém do passado.
O passado serve como aprendizado. Na Bíblia a ideia de esquecer tem um sentido diferente. Não é possível deletar o que foi.
Todas as dores, toda a humilhação que Paulo vivenciou naquela comunidade poderiam ocupar muito espaço na vida em sua vida. Paulo escolhe não olhar para as coisas do passado, ele sabe que não dá para formatar a CPU, mas é possível decidir que os olhos sejam lançados para frente.
O termo 'evpilanqano,menoj' (esquecendo) um verbo no gerundio, isto é, uma ação contínua, sem um fim determinado, que está acontecendo. Tentar esquecer o que não se muda um dia por vez. Por outro lado, a cada dia é a tentativa de alcançar o que se pretende, chegar aonde se almeja, continuar caminhando.

III – Nunca é tarde para Querer!
Paulo tem um alvo, um objetivo. Sabe aonde quer chegar. Por ter bem esclarecido seus objetivos, Paulo sabe que se apegar ao passado não irá agregar nada em sua vida, só vai subtrair. Assim, olhar para os novos alvos alimenta a vontade de persistir, querer.
São as coisas que estão adiante que ele procura alcançar. É uma ação contínua porque ele tem clareza que não tem como mudar o que se foi, mas pode mudar o que será! A cada dia é um dia de superação, a cada dia é a chance de esquecer e superar o passado! Quais são as suas metas pessoais e ministeriais?

IV – Cuide para não ser inimigo/a da Cruz de Cristo.
Com lágrimas nos olhos Paulo afirma que existe na Igreja pessoas que são inimigas da Cruz de Cristo. Pessoas que desconhecem a experiência com o Espírito Santo. Ele traz à tona quando foi a última vez que ouvimos e sentimos o toque de Deus.

V – Permaneça perseverando apesar das circunstâncias
A ênfase é persevere e permaneça perseverando, mas isso tudo com alegria. Por vezes a vontade é de jogar tudo para cima, abrir mão, porém Paulo nos alerta para não deixar a peteca cair. Permanecer é uma postura de fincar os pés e não deixar ser abalado pelos problemas. A ideia sugerida por Paulo é: Fique os seus pés na perseverança em caminhar ao lado de Jesus. Por mais que soe loucura, ou que as perdas são muito maiores que o lucro, firmar um propósito em ficar com Cristo é a melhor decisão que se pode fazer diante das circunstâncias.

Tempo de aniversário é assim, nos faz refletir que muitas coisas ficaram para trás, algumas que gostaríamos de esquecer, outras que sustentam nossa experiência. A Bíblia nos adverte a não pensar além nem aquém do que somos, não ficar apegado ao passado, a sonhar e gostar de querer e desejar o crescimento, cuidar para não ser inimigo da cruz de Cristo e, por fim, permanecer perseverando, tendo em vista que o Senhor fará maravilhas por nós e em nós.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Advento: A Boa Expectativa



[Sermão pregado na Igreja Metodista do Leblon/ Susano.]
Texto: Salmo 1261 Cântico de romagem Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha. 2 Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes coisas o SENHOR tem feito por eles. 3 Com efeito, grandes coisas fez o SENHOR por nós; por isso, estamos alegres. 4 Restaura, SENHOR, a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe. 5 Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão. 6 Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.

O tempo do advento traz a possibilidade de ser surpreendido pela esperança, amor e cuidado de Deus. Uma chance de viver algo bom. O nascimento de alguém que mudou e mudará a realidade da vida. As circunstâncias não são tão terríveis assim, pois podemos crer que temos um Deus que fará maravilhas em nosso meio.
Nesses dias de advento, minha família tem vivido algo nesse sentido. Depois de quase sete anos esperando a aposentadoria saiu a resposta de aposentadoria de mamãe. Essa resposta trouxe muita gratidão aos nossos corações. Quando ela pegou o papel e ouviu que estava aposentada, parecia que ela estava escutando algo muito desejado mas que nunca seria alcançado, afinal de contas, foram sete anos de espera.
Normalmente, quando somos surpreendidos pelo tempo de espera e que as coisas não andam conforme o que queríamos ou como havíamos planejado, temos a tendência de lançar nossos sonhos no mundo das utopias.
Contudo, quando se concretiza algo muito esperado o salmo se encarna. Ficamos com àquela cara de: não acredito que isso ta acontecendo! Essa é uma sensação muito frequente nos casais que engravidam; na pessoa amada que ouve o pedido de casamento; na hora da formatura de um curso; em tempos apontados pela Bíblia como Kairóticos, isto é, momentos pontuais que mudam de modo significativo nossa existência.
É interessante quando um sonho se realiza. A alegria, o entusiamo e o êxtase pregnam na vida. Parece que se está em um sonho! A alegria anestesia as reações. Parece que não é possível que esse sonho esteja sendo realizado, mas está!

O Salmo 126 expressa bem o sentimento do povo que desfrutava do tempo de recomeço gerado por Deus. É um Salmo de romagem, semelhante ao salmo 121, o qual o povo cantava quando se deslocava até o lugar determinado para o culto e sabia que estaria numa situação de risco, porém o povo poderia olhar para o monte e saber que o seu socorro vinha do Senhor. O salmo 133 que relata como é bom e agradável os irmãos viverem unidos, pois é aí que o Senhor derrama da sua bênção preciosa e maravilhosa.
Enfim, nos 15 Salmo de romagem, a sensação expressa do povo é: Temos um Deus independentemente das situações que venha nos surpreender, sejam boas ou ruins, temos um Deus!
Neste Salmo encontramos a ação de graça pela restauração que está acontecendo: Deus tirou do cativeiro e numa ação contínua proporciona da sua restauração. Em tempo de advento, de espera e expectativa é importante classificar quais são os cativeiros que nos assolam:
Traumas;
Estigmas;
Culpa;
Mágoas e Rancor;
Pecados (quais?).

Nota-se nesse Salmo a oração para que a restauração de Deus se complete na vida do povo. Era perceptível que Deus tinha feito maravilhas, que algo maravilhoso aconteceu, porém existiam outras fendas que precisavam ser sanadas.
O Salmista afirma que ao passo que Deus “mudou a sorte” pode estar se referindo à volta do desterro da Babilônia. O salmo expressa a alegria pela volta do desterro, da prisão.
Nós temos algumas expectativas que parecem que nunca se realizaram, mas que podem ser iluminadas a partir deste salmo, vejamos alguns aspectos.

I – A Ação de Deus nos surpreendeTão grande é a alegria que parece que é um sonho. É pessimismo? O salmo confessa nas entrelinhas que os sonhadores tinham razão!
As pessoas tidas como 'sonhadoras' são mal vistas nos dias atuais, isso porque são pessoas que não se apegam ao que se vê, mas pelo que se espera. Vivem a partir de uma promessa feita por Deus. São pessoas que recebem palavras como: 'Hey! Acorda!' ou 'Você viaja muito' ou 'um dia ele acorda'. Contudo, são essas pessoas que estão sensíveis e aptas para serem surpreendidas por Deus. A ação divina vai para além das expectativas, surpreende, é transcendente!

II – A alegria e o Louvor são ações de graçasCanto em ritmo de alegria, como diria o outro: Ritmo, Ritmo de festa! Manisfesta confiança coletiva do povo repatriado, que exulta com o fim do exílio mas, ao mesmo tempo, sofre duras provações e anseia pela restauração política e econômica da nação, como nos tempos passados. As coisas ainda não estão perfeitas, mas é possível viver muito melhor, Deus agiu!
Alegria e o louvor são expressões que precisam acompanhar pessoas que vivem com Jesus e são dependentes d'Ele.

III – É perceptível o que Deus fezAté mesmo pessoas que não confessam a fé reconhecem o milagre que aconteceu na vida das pessoas. O texto deixa claro que pessoas tidas como 'pagãs' reconhecem o que Deus realizou na vida do povo que tinha tudo para ter uma vida de fracasso sucedido de fracasso. Fica gritante que Deus operou!
Nossas vidas são testemunhos do que Deus operou. A Bíblia relata vária pessoas que erraram mas que a partir da conversão apresentaram outro estilo de vida.

IV – Reconhecemos o que Deus fez.Re-conhecer é: conhecer duas vezes, conhecer efetivamente. Não basta apenas outras pessoas perceberem que nossas vidas são exemplo da transformação renovadora do Espírito Santo, nós precisamos conhecer e declarar tal reconhecimento do que éramos, de quem poderíamos ter nos tornado mas que, pela graça de Deus, somos pessoas diferentes!

V – A restauração é contínua Total.Deus ao iniciar o processo de restauração já desperta em nossos corações da importância de restaurar outras áreas específicas. Semelhante as Torrentes do Neguebe que estavam quase sempre secas (Cf. Jó 6.15), de repente elas se enchem bruscamente no inverno e fertilizam a terra. Uma ação inesperada, mas que é contínua e total.
A restauração é pontual. Tem um aspecto dicotômico. Na restauração desfrutamos de chuvas revitalizadoras.

VI – As lágrimas fazem parte da semeaduraSeguir o Senhor Jesus não é um amuleto que nos livrará de coisas ruins, de problemas, doenças, etc.; seguir Jesus é ter força, coragem e esperança para que diante das lágrimas consigamos semear algo que produzirá vida.
No filme: em Busca da felicidade apresenta bem o que é semear com lágrimas e colher com alegria. Todo o investimento e doação não foram em vão.

VII – Não existe esforço que seja desprezado.Havia anos que os lavradores tinham de tirar o pão da própria boca para reservar semente. Semear, além da fadiga do trabalho, era passar fome; mas não era estéril: foi semeadura custosa para uma colheira prazerosa.

O nascimento de Cristo é essa mudança da sorte, é essa alegria que não se fundamenta nas evidências, mas naquilo que nos move incondicionalmente.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

2º Domingo do Advento.



[Sermão no culto vespertino do segundo domingo do advento, texto Marcos 1.1-8].

1 Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. 2 Conforme está escrito na profecia de Isaías: Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho; 3 voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas; 4 apareceu João Batista no deserto, pregando batismo de arrependimento para remissão de pecados. 5 Saíam a ter com ele toda a província da Judéia e todos os habitantes de Jerusalém; e, confessando os seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. 6 As vestes de João eram feitas de pêlos de camelo; ele trazia um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.
7 E pregava, dizendo: Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de, curvando-me, desatar-lhe as correias das sandálias. 8 Eu vos tenho batizado com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo

Estamos em tempo de advento, mas o que isso interfere, de fato, no cotidiano de nossas vidas? O advento em si não muda nada a nossa rotina, com exceção da obrigatoriedade de comprar presentes para todas as pessoas amadas, ter uma vida muito mais corrida no dia-a-dia para atender as demandas do consumo, etc.
Nessa direção percebemos que muito pouco o advento interfere em nossas vidas. Afinal de contas, o que significa a palavra advento?
É um termo carregado de expectativas
Traz a ideia da vinda do Salvador;
A chegada de Jesus
O aparecimento do Deus encarnado;
É a possibilidade de começo,
De uma nova vida;
Uma nova jornada.
Mas conforme os anos passam, as expectativas infantis são superadas pelas exigências e cobranças da vida adulta. Não se tem mais a ideia de surpresa, afinal de contas, o que menos se quer é ter surpresas. Tudo tem que estar sob controle.
Algumas pessoas pensam o por que do advento? Qual é a utilidade de um tempo de preparação para a recepção de Jesus? O advento é um bom caminho para nos aproximarmos mais do Deus que quis se fazer próximo da gente. Aquele que não mediu consequências para amar e se fazer presente.

O Evangelho de Marcos que relatar um pouco sobre isso. Nota-se em Marcos uma certa 'ansiedade' de anunciar que o Reino de Deus é algo que esta mais perto do que se imagina.
O evangelista anuncia o princípio de tudo, Jesus, o verbo encarnado. O verdadeiro Filho de Deus. Essa afirmação é categoria diante de um tempo que muitos evangelhos eram anunciados, muitos filhos de deus que se auto intitulavam apareciam, desta maneira, o Evangelho de Marcos anuncia que o início de tudo está em Jesus, que o único filho de Deus é o 'único caminho, verdade e vida'.
É interessante que a vinda de Jesus não é algo isolado da história, mas testifica a profecia feita por Isaías (40). Jesus se importa com as condições da vida e propõe interferir na vida em sua plenitude, mudar as situações, transformar vidas.
Percebe-se, também, que Jesus não faz nada isolado, sozinho, pelo contrário, monta uma equipe para ajudá-lo nessa tarefa. Tem um amigo que prepara o caminho para o salvador. É aquela pessoa que faz o que precisa ser feito, sem pestanejar.
É interessante como o Evangelho de Jesus tem a capacidade de mudar as pessoas, impactando vidas de lugares mais diferentes. Deus se interessa por pessoas que não chamam a atenção de ninguém. Nossos erros, pecados e vacilos não são impecílios para a aproximação de Jesus.
Advento é isso, é a possibilidade de vinho novo em odres novos. É a grande chance de experimentar mais de Deus, mais da sua presença, mais da sua companhia.


Quais são as implicações do Advento para nós hoje?
I – O princípio de tudo é Jesus

Não existe outro caminho, não existe outro meio, não existe outro fundamento que não seja Jesus. O Evangelho deixa isso claro. É Jesus o princípio de tudo. É ele que fundamenta nossas vidas e muda a nossa concepção de ver e entender a vida. Jesus é tudo o que precisamos.
Ter Jesus como o princípio de tudo em nossas vidas é buscar uma vida que ande de modo digno do Evangelho. É basear nossas ações, decisões e opiniões na direção de Jesus.

II – Somos responsáveis para preparar.
Quando vamos receber alguém em casa para uma refeição, dedicamos um tempo preparando a alimentação. Preparando a casa para as visitas. Quando temos algum encontro amoroso, passamos um tempo preparando nossos corações para o encontro com a pessoa amada. Preparar é o ato de dedicar tempo e cuidado com a finalidade de que algo seja bem apresentado e seja motivo de honra.
Quando o texto afirma que João Batista ficou incumbido de preparar o caminho para o Salvador, assim, nós, temos a tarefa de preparar:
Nossos corações
Corações de outras pessoas.

III – O Arrependimento é algo constante na vida.
Muitas pessoas tendem a confundir arrependimento com remorso. A primeira vista até são coisas similares, porém, o arrependimento é aquilo que nos leva à uma profunda vergonha e vontade de nunca mais cometer os mesmos erros e vacilos. Assumir o arrependimento como uma constante na vida é ter em vista a conversão constante e atualizada.

IV – O Evangelho é excêntrico.
Uma pessoa excêntrica é aquela bastante diferente na forma de se vestir. Traduzimos pessoas assim como bregas ou, no mínimo, palhaços. O termo ex-cêntrico é a junção de dois termos, isso é, fora do centro.
João Batista se vestia de um modo bem a quem da moda de seu tempo. Ele tinha uma vida que não combinava com as demais pessoas. Logo, a proposta de vida que o Evangelho, em tempo de advento, nos propõe é uma vida que destoe do jeito 'normal' de se viver. Que saia do centro demoníaco e descubra um modo que agrade o coração de Deus.

V – É importante ser batizado no Espírito Santo.
Muitas pessoas discutem a respeito do que é ser batizado no Espírito Santo. Será que é apenas o falar em línguas? O que de fato caracteriza uma vida batizada no Espírito Santo?
Ser cheio do Espírito Santo dá a ideia de transbordar da presença irradiante de Jesus. É contagiar positivamente as pessoas com algo que não se explica, apenas se desfruta de modo bastante intenso. Ser batizado no Espírito é falar na língua dos anjos e dos homens, e conseguir ter uma vida espiritual viva diante de Deus.
Quando João diz que ele não era ninguém diante de Jesus e que o batismo de arrependimento não se comparava ao batismo do Espírito Santo, isso aponta que a ação do Espírito muda o ser humano em sua aplidão.

Que neste tempo de advento possamos lembrar e relembrar de ações concretas de nossas vidas, a fim de que nossas vidas sejam como um aroma suave e agradável diante de Deus.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Amor: o Grande Fundamento



[Sermão Casamento Thiago e Mariana - grande amigo]

Provérbio 10.12
O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões.
1 Pedro 4.8
Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados.

O número de divórcio no Brasil é o maior desde 1984, diz IBG. A média de duração de casamentos é de 16 anos, sendo que pouco mais de 40% dos casamentos duram até 10 anos . Aumentou o divórcio de casais sem filhos. Cresce a porcentagem da guarda compartilhada. Nota-se que o casamento é visto como uma instituição falida.
Parece meio estranho começar a prédica de um casamento falando sobre índice de divórcio. Mas esses índices mostram o quanto investimentos, projetos, esperanças e sonhos caíram por água a baixo com o término da relação.
Deve ser uma sensação terrível ter que passar pelo período de separação. Vidas que outrora declararam amor eterno, agora não passam de inimigos ou 'apenas bons amigos'.
Nessa direção vale dizer que o pastor não esta aqui para fazer o casamento de ninguém. No máximo, o pastor esta aqui para, junto com os noivos, celebrar o casamento, festejar juntos.
Talvez seja a hora certa para dizer que o matrimônio é mais do que uma instituição falida. Para alguns o casamento é algo desnecessário, ou, no máximo, um status quo que proporciona uma melhor aceitação e respeitabilidade diante da sociedade. Mas se nossa fonte de inspiração for a Bíblia, podemos encontrar outros sentidos.

Na concepção bíblica o casamento carrega outros valores e sentidos. A teologia interpreta o casamento como a possibilidade de duas pessoas se tornarem uma só. É no casamento que duas pessoas descobrem maneiras de fazer a outra feliz e, assim, ser feliz. O casamento se torna sagrado não pelo rito religioso em si, mas porque o casal assume para si a sacralidade da vida do seu conjugue e se dispõe, diante de Deus e da comunidade, a viver em amor e fazer de cada dia um único dia.
O casamento pode ou não dar certo. Não depende apenas da crença religiosa, da formação acadêmica, da tranquilidade econômica, da interferência dos familiares, dos fatores externos e internos, etc.
Para um casamento dar, ou não, certo, depende muito da forma como se age e reagi com o conjugue na lida do dia-a-dia.

Então qual é o segredo para que este casamento não seja mais um número para agregar no índice de divórcio no cenário brasileiro? Será que é uma simpatia? O que tem que ser feito? O que não pode ser feito?
O texto lido aponta os efeitos colaterais de dois sentimentos dentro do relacionamento. O que o ódio ou a indiferença pode causar, seus estragos, suas consequências, suas cicatrizes, os traumas. É possível classificar o ódio, o rancor, o egoísmo como um grande câncer maligno que paulatinamente fere e destrói relacionamentos que tinham tudo para dar certo.
Outro viés que a Bíblia propõe como a essência das ações e reações é o amor. Quando o amor é o eixo do matrimônio se interpreta a vida de um modo diferente. Não se pensa a partir de mim, mas a partir de nós, a partir do eu-tu.

Duas antíteses são apresentadas, sendo que, se observadas, podem apontar o segredo para um matrimônio harmonioso e que por mais que passem por situações tensas e densas, podem ser superadas ou cair em uma profunda depressão e esvaziamento de sentido. Vejamos, então, tais consequências em pelo menos três instâncias do matrimônio.

I – A Relação...
Fundamentada no ódio.
A princípio pensar num casamento que começa fincado no ódio parece destoante, porém, a dica para o casal é que a lua de mel pode ter tempo limitado ou pode ser algo constante na relação. Ter o ódio como essência é querer sempre sair vencedor nas discussões, que as vontades mesquinhas pessoais sejam sempre alcançadas. É interessante que ações assim ocorrem de modo muito sorrateiro, são pequenos começos que não são considerados e que, quando se abre os olhos é tarde de mais. Por isso que precisamos basear a essência do matrimônio em outro pilar.

Fundamentado no Amor.
Quando a relação é baseada no amor o outro não é visto apenas como uma prioridade, é visto como parte de mim mesmo. Quando a relação é fundamento no amor, aquilo que sustenta a relação, as palavras são ponderadas, isto é, são pensadas, a fim de que tenham graça e verdade. Quando o amor é a essência da relação sua proposição é a felicidade alheia que alcança a mim mesmo.

II – As motivações...
Fundamentadas no ódio
A motivação é aquilo que move, o que te lança para o desconhecido. No casamento não se age isoladamente. Não é deixar de existir, mas ser com um fim maior. Quando as motivações são movidas pelo ódio, a falência é algo inevitável, isso porque todas as palavras, ações, etc., são alicerçados naquilo que não tem poder agregador.

Fundamentadas no amor.
Quando as motivações são fundamentadas no amor a relação ganha novas cores e novos sabores. São nos detalhes que se diferencia o falso do original. Portanto, descobrir ações juntas que podem dar mais alegria e abastecer as motivações é algo imprescindível no casamento harmonioso.

III – O propósito...
Fundamentado no ódio
O propósito é o local aonde se quer chegar. Se o propósito tiver seu pilar no ódio, nos desejos pessoais desenfreados e compulsivos, na ânsia de estar sempre bem saciado mas sem atender os desejos alheio, a falência virá compulsoriamente e com estragos devastadores. Mas se...

Fundamentado no amor...
As coisas acontecem naturalmente, mesmo com crises, dificuldades, quando o amor é o alicerce dos propósitos o matrimônio não sai do caminho, não entorta o eixo.

Pensar na harmonia, melodia e ritmo dessa canção que será composta juntos não é fácil. Se for uma música alicerçada no amor, superando as tentações do ódio, será uma música que perdurará por toda vida.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Vasos de Barro

Texto: 2 Cor 4.7-18

7 Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.
8 Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados;
9 perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos;
10 levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo.
11 Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal.
12 De modo que, em nós, opera a morte, mas, em vós, a vida.
13 Tendo, porém, o mesmo espírito da fé, como está escrito: Eu cri; por isso, é que falei. Também nós cremos; por isso, também falamos,
14 sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará convosco.
15 Porque todas as coisas existem por amor de vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de muitos, para glória de Deus.
16 Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia.
17 Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação,
18 não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.


O termo vaso e seus sinônimos são muito utilizados na Bíblia. O vaso de barro é uma boa representação da simplicidade da vida, sua condição indefesa e a capacidade de ser refeito se for necessário. Vaso, na concepção bíblica, é um instrumento não como uma finalidade em si mesmo, mas, sim, com intenção de carregar algum outro bem.
No AT existe um texto muito conhecido em Jeremias ao dizer que Deus é o oleiro, aquele que cria e dá uma finalidade ao vaso, e o povo de Israel é um vaso, sendo que pode passar pelo processo de restauração de for necessário. Essa metáfora é muito bonita, porém traz consigo um grande desafio, haja vista que passar pelo processo de ser quebrado por Deus não é fácil.
Muitos já ouviram testemunhos de pessoas que afirmam a transformação genuína de Deus. Alguns passaram pelo vale da sombra da morte, outros tiveram experiências semelhantes a de Jô, uma perca total em poucos dias. Outros, por sua vez, passam pelo processo de Zaqueu, não perdem nada, mas escolhem perder por livre vontade. Passar pelo processo de restauração divina não é fácil, mas é sempre essencial.
Algumas pessoas gostam de dizer que nunca mudaram, são as mesmas pessoas a 20, 30, 40 anos. Isso é um dado preocupante, pois o ser humano precisa passar por constantes mudanças. Ser aprimorado, moldado por Deus, e, se necessário, quebrado e refeito.

Na segunda carta aos Coríntios, nota-se um apóstolo Paulo bem diferente da primeira carta. Isso porque ele havia passado por tempos bastante constrangedores por causa da própria Igreja e, talvez, o desejo de desanimo tenha batido em sua porta. Ele havia sido questionado se, de fato, ele era um homem de Deus mesmo, questionaram o seu caráter, o seu testemunho, questionavam a liderança constituída por ele, enfim, parte da Igreja que ele havia investido tempo, empenho havia esquecido os bons tempos e queriam vê-lo fora da Igreja.
Paulo investe bastante tempo nesta carta demonstrando que não existe nada que poderá tirar dele o que foi dado por Deus. Ele entende que tudo o que aconteceu é para a glória de Deus e que Deus tem um propósito até mesmo nas diversidades. Paulo não quer desmascarar as pessoas que estavam acusando, possivelmente ele imaginava que isso o próprio tempo iria fazer, todavia queria lembrar a comunidade a se lembrar das promessas que foram escritas em seus corações.
Nessa carta fica claro o que é negar a si mesmo, carregar a sua cruz e seguir. Paulo deixa a sua alegria para testemunhar para a Igreja a importância que é servir Jesus. Ele não tem a pretensão de ensinar mais uma religião, mais preceitos e estatutos, percebe-se que Paulo quer ensinar a Igreja a viver em liberdade, a desenvolver o amor que é o vinculo da perfeição. A esperança não é num rito religioso, em um tradicionalismo sem vida e esperança, é, acima disso, uma vida voltada à Deus.
Lutar contra o 'deus dessa geração', é vencer as correntes ideológicas que estão fora e dentro da igreja. Paulo já nota que o mundo está mais presente na Igreja do que a Igreja no mundo. Logo, a preocupação de Paulo é lembrar que o Evangelho é da graça de Deus e que tudo o que é feito é por intermédio de Deus. Surge aí a temática do VASO.
Por que vaso? Talvez por sua precaridade. Por não ser algo de valor. Por não ter proteção própria ao que pode acontecer. Vaso por ser algo tratável, haja vista que se for necessário o oleiro pode refazê-lo novamente. Paulo diz que existe um tesouro em nós, diante da nossa pequenez, da ausência de força e capacidade, Deus derrama neste vaso um tesouro incalculável.
A Bíblia está repleta de citações de escolhas que Deus faz a respeito de pessoas que, segundo os critérios humanos, valiam muito pouco. O próprio Jesus passou por uma situação assim, quando Natanael pergunta se de Nazaré (João 1.46) poderia vir alguma coisa boa? A cidade de Jesus era mal vista. Por que Deus iria escolher logo Paulo (Atos 7.58)? Um exterminador de cristãos? Não tinha alguém mais bem preparado ou com uma reputação menos pior? Por que Jesus escolheu um homem tão duro como Pedro (Mc 8.31)? Ou pessoas que queria poder como João e Tiago (Mc 10.37)

Deus escolhe as coisas loucas desse mundo para confundir as sábias (1 Cor 1.27), portanto Deus escolhe vasos simples, para demonstrar a sua glória. O que podemos reter como princípios deste texto para a nossa trajetória cristã?

1 – Toda a glória é de Deus.
No verso 6 encontramos “para que a excelência do poder, seja de Deus e não nossa”, isto é, tudo o que se consegue e conquista vem de Deus. O termo 'u`perbolh.' é usado para expressões de inalcançáveis, surpreendentes (por exemplo Hiper mercado, Hiper etc..), refere-se para aquilo que não se calcula ou se pensa. Para aquilo que transcende os nossos limites. Esse HIPER será visto no PODER, 'duna,mewj', o termo poder em grego é o que origina a palavra DINAMITE e DINÂMICA. Se por um lado tem a capacidade de explosão, por outro lado, aparece a ideia de energia e vida. Tudo o que Deus faz excede os nossos limites. Isso porque tem um aspecto explosivo, mas, ao mesmo tempo, enérgico e com vida.
Como povo de Deus precisamos lembrar dessa variante constante: Toda a glória pertence a Deus. Lembrar que somos apenas um simples vaso de barro nas mãos de Deus, coloca-nos sempre em nossos lugares de servos. Se não lutarmos contra o nosso ego constantemente, somos seduzidos pelas artimanhas luciferianas, isto é, somos dominados pelo poder. Vale lembrar que “Ninguém conquista poder, o poder é que conquista alguém.”.
Na caminhada de fé, todo o dia é dia para rever. Não queremos pra si a glória de Deus. Quando ia iniciar no seminário, uma senhora da Igreja do Jabaquara pediu para conversar comigo. A grande preocupação dela era de que eu não me esquecesse de onde eu estava saindo. Não esquecer da origem, não esquecer que sou um vaso de barro de pouco valor e que recebo um presente incontável, imensurável. Tudo é de Deus. Tudo pertence a Deus.
Como Igreja somos desafiados à uma vida de constante vigilância, pois, não poucas vezes, os atalhos da Igreja são diferentes dos caminhos de Deus. Normalizamos os rótulos, títulos e status e perdemos a dimensão do Temor-do-Senhor.

2 – As Evidências não podem superar a expectativa da Providência.
Paulo aponta pelo menos 5 circunstâncias evidentes da vida que, sem sombra de dúvidas, são motivos suficientes para postergar, desistir da fé. Vemos um pouco de humor e irônia:
a) atribulados (afligidos), mas não angustiados (imobilizados);
O coração aflito gera uma sensação interminável de dor. O salmista já dizia que “Porque estou aflito e necessitado e, dentro de mim, sinto ferido o coração.” (Sl 109.22), essa sensação tem a tendência de gerar uma angustia interminável. Ou trazer mais abismos, lembrando 'um abismo chama outro abismo' (Sl 42.7). Mas, mesmo em situações assim, Paulo lembra que ele não está imobilizado. Não está parado. Não desistiu da vida, pois a primeira coisa que tendemos a fazer é desistir (desistir e sempre mais fácil). A tribulação apareceu, a aflição apertou o coração, só que elas não podem cessar ou parar a trajetória de fé da comunidade. Mesmo com tudo ao avesso não somos chamados para ficarmos parados, pelo contrário, Deus nos chama para um movimento.
b) Perplexos, mas não desanimados (desesperados);
Para muitas coisas que acontecem não temos explicações. Não entendemos porque gente fina morre cedo, e gente ruim vive muito. Não entendemos porque existem crianças sofrendo, não entendemos o porque de muitas coisas, ficamos atônitos, indecisos sem saber o que fazer. Oramos a Deus e parece que Ele não responde a nossa oração “Atende-me e responde-me; sinto-me perplexo em minha queixa e ando perturbado” (Sl 55.2). Mesmo assim, não podemos perder o ânimo ou cair em desespero. Diante das mais tensas dúvidas, nossos olhos precisam estar fitos no Senhor (2 Crô 20.12). O desespero e desanimo são bons caminhos para o fracasso existencial.

c) Perseguidos, mas não desamparados (abandonados);
Jesus já nos lembra que “Bem aventurado os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus.” (Mt 5.10). A sensação de ser perseguido não é boa. Gera uma sensação de abandono (Salmo 22.1), há também a ideia de que talvez esteja seguindo o propósito errado, que tudo está conspirando contra, etc. Paulo alerta que diante das maiores perseguições nunca estaremos abandonados. Deus é aquele que cuida, uma metáfora utilizada pela Bíblia é da Galinha que protege seus pintinhos debaixo da asa (Mt 23.37). Deus não permite que os seus filhos mendigue o pão (Sl 37.25). Nunca seremos abandonados por Deus.

d) Abatidos (derrubados), mas não destruídos;
Na roça temos o costume de dizer que quando vai matar o boi, diz que ele foi abatido. Temos a tendência de perguntar a Deus “por que está abatida, ó minha alma” (Sl 42.5), por que temos a sensação de derrota e fracasso? Sentimos que diante de tanto esforço não saímos do lugar, pelo contrário, decaímos e andamos pra trás. Nessa direção Paulo lembra que não somos destruídos. Temos que ter em mente que maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo (1 Jo 4.4), se sentimos que estamos embaixo, Deus nos levantará.

e) Levando a morte de Jesus, para viver a vida de Jesus.
O texto afirma que Paulo leva a morte de Jesus. Hoje o que se mais ouve são aquelas pessoas que levam a vitória, a restauração, a restituição, mas poucos querem levar a morte de Jesus. Domesticamos o EVANGELHO ao igualá-lo à uma mensagem de auto ajuda. A mensagem que a Igreja não pode esquecer de anunciar é a morte de Jesus. Não só a morte, mas o que precede: a Ressurreição:
Levar a morte envolve andar na contra mão do mundo.
Levar a morte é dizer não à padrões tão rotineiros do dia a dia.
Levar a morte é afirmar que houve um justo que padeceu por toda a humanidade para dar vida, e vida em abundância para todas as pessoas que assumirem caminhar com ele. Essa mensagem é a única que gera VIDA! Essa é a mensagem central da Bíblia!
Portanto, as evidências de tribulação, perplexidade, perseguição, derrota são definidas por Paulo como 'leve e momentânea tribulação', logo é passageira. E por ser passageira não podemos trocar o eterno por aquele que está fadado ao fim. Lembrar do amor incomensurável de Jesus dia após dia que é visto e vivido em sua graça que se multiplica. Essa convicção de que o mesmo Deus que agiu no passado e surpreendeu as nossas expectativas, será o Deus que derramará sobre nós o seu poder e seremos prova viva do Deus invisível!

A vida é passageira e transitória. A vida começa e termina rápido, e por isso vale a pena não desistir do Evangelho. A tribulação no pensamento paulino é aquilo que gera experiência (Rm 5.3), é aquilo que alimenta a nossa certeza da vida com Cristo. É na tribulação que é provada nossa perseverança, essa, pra mim, mãe de toda virtude.
Os momentos tenebrosos refletem o nosso caráter mas moldam o nosso caráter.
Ao passo que nos apegamos as coisas que se vêem, deixamos escapar por entre os dedos as coisas que não se vêem. Essas são eternas. As provações, medos, inseguranças, temores e tantas coisas mais são sinais perceptíveis de que alguma coisa Deus fará em favor daqueles que ele ama.

Por fim, notamos que somos falíveis, simples como vasos de barro, e que diante da nossa pequenez não podemos nos intimidar com as provações que sempre apareceram! As evidências não podem superar nossa esperança na providência que Deus trará! Somos vasos nas mãos do oleiro, pessoas sensíveis para o tratamento divino. Nessa direção acreditamos na ação de Deus que não desiste do seu povo.

domingo, 10 de julho de 2011

Cuidados na semeadura espiritual



Texto Mateus 13.1-9
1 Naquele mesmo dia, saindo Jesus de casa, assentou-se à beira-mar;
2 e grandes multidões se reuniram perto dele, de modo que entrou num barco e se assentou; e toda a multidão estava em pé na praia.
3 E de muitas coisas lhes falou por parábolas e dizia: Eis que o semeador saiu a semear.
4 E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e, vindo as aves, a comeram.
5 Outra parte caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra.
6 Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se.
7 Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram.
8 Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto: a cem, a sessenta e a trinta por um.
9 Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.


É perceptível que nos dias atuais o cultivo da espiritualidade está em baixa. Nota-se que existe muita religião mais pouca fé. A dimensão espiritual não é vista como prioridade pelas igrejas e consequentemente pelos membros. Afinal de contas, para que o indivíduo precisa cuidar de sua vida devocional? Em geral, as pessoas se preocupam mais com os problemas do cotidiano, em cuidar do corpo físico (academia, etc.), em ter momentos de diversão, voltar suas atenções para o trabalho e as demandas emergentes, do que se atentar para o que realmente é importante e tem valor.
A partir daí, algumas expressões de espiritualidade são desenvolvidas:
Espiritualidade superficial: uma espiritualidade na qual a pessoa se contenta com os encontros formais aos domingos. Não desenvolve cultos familiares, momentos de devocional, descarta a ideia de uma vida de oração e jejum, fragmenta a sua fé aos encontros públicos;
Espiritualidade descompromissada: é aquela que as pessoas não querem responder por algum projeto da comunidade, está envolvida em muitas coisas mas nunca se dá por inteiro;
Espiritualidade obrigatória: é aquela sensação de peso e imposição. Não existe leveza na relação com Deus pois tudo esta restrito ao que tem que fazer;
Espiritualidade comercial: é aquela que as pessoas acreditam que pagando bem tem direitos. Deus se torna um grande empreiteiro que ao passo que é bem remunerado, realiza todos os desejos;
Espiritualidade convencional: é aquela espiritualidade que não transcende o senso comum. As pessoas não exigem nada de si. Contentam-se em uma vida coerente com a grande maioria;
Espiritualidade contagiante: é aquela que a pessoa sabe que da mesma proporção que a alimentação e a água é fundamental para o a vida, a vida espiritual é fundamental para a essência da vida. Reconhece que a oração, o jejum, os atos de misericórdia são sinais visíveis. Busca incansavelmente a santidade bíblica, e sente parte daquelas pessoas que foram enviadas por Jesus, como responsável pelo Reino de Deus ser visto, vivido e esperado.
Uma espiritualidade contagiante é aquela cultivada, tratada e cuidada. A ilustração vegetal representa isso muito bem, pois apresenta o impacto do cuidado ou do descuido.

Sem sombra de dúvidas, Jesus foi um grande pedagogo. Ele utilizava de temas corriqueiros das pessoas e, de modo muito simples, apresentava ideias a respeito do Reino de Deus. Todas as parábolas de Jesus continha algo 'anormal', isto é, alguma coisa que normalmente não acontecia.
Lembro-me em uma das minhas visitas pastorais, uma pessoa muito amada que tinha uma casa na roça me convidou para plantar abóbora. Ele escolheu bem a parte do terreno que iria plantar. Não poderia ser em qualquer lugar. A terra tinha que ser boa, bem preparada, afim de que as abóboras pudessem crescer bem, sem atrapalhar as outras plantações. Minha mãe, em sua prática de cuidar do jardim, sempre tomava os devidos cuidados para plantar as rosas, orquídeas, margaridas, etc. Ela tomava todos os cuidados.
Nessa parábola, o 'semeador' saí para semear. Não prepara a terra, não cultiva, simplesmente lança sementes. Desleixo do semeador? Despreparo? Pouco caso? Ou um alerta da parte de Jesus que a semente pode ser lançada, mas se a terra não for adequada, terá uma vitória aparente, só que com o tempo tudo vai à ruína? Diferente da vida real que existe uma distinção entre terra boa e terra má, o semeador da parábola lança suas sementes para todas as terras, independente das aparências ou das qualificações, a função do semeador é semear, lançar sementes.
Fica evidente que essa é uma das anormalidades da parábola. Jesus questiona a multidão e os discípulos a pensarem a respeito da terra que eles são. Deus não faz distinção de pessoas, todavia as pessoas tem a função de fazer de si mesmas terra boa e saudável para o cultivo da semente. Talvez uma das preocupações de Jesus era o motivo pelo qual aquelas pessoas estavam seguindo.
Umas poderiam seguir pelos sinais que o Evangelho de Mateus apresentam, outras pelos ensinamentos, outras porque acreditavam que ele era o Cristo bélico, outras por acreditar que ele era o Filho de Deus, enfim, quantas motivações poderiam ser consideradas. Possivelmente uma das preocupações de Jesus era que a multidão pensasse a respeito de sua espiritualidade.
É interessante que Jesus acaba de sair de um momento de tensão, isso porque no capítulo 12 apresenta uma certa tensão entre ele e seus familiares. O texto apresentam que ele vai para o mar e se senta. É tão bonito a humanidade de Jesus, parece que Jesus tenta ter um tempo consigo mesmo, de auto conhecimento. Descobrir um pouco mais de si. Nesse ínterim a multidão se aproxima, e por ser muito grande, ele sobe num barco, senta-se diante da multidão que fica em pé e passa a ensinar.


Algumas situações de nossas vidas esperam respostas imediatas. Mesmo que isso seja o mais óbvio a se fazer, é, também, o mais insensato. Dizem que para cada pergunta complexa existe uma resposta simples, objetiva e errada. A preocupação de Jesus era de cultivar nas pessoas uma espiritualidade contagiante, para isso alguns cuidados vêem a tona, vejamos alguns deles.


I – Cuidado se sua espiritualidade esta baseada em sensações e emoções.
O texto afirma que a semente caiu à beira do caminho, numa terra vulnerável a qualquer provação e cilada, sendo que até mesmo os raios de Sol e as aves do céu tem a capacidade de por um fim nessas sementes. Uma terra desapropriada.
Pois bem, isso acontece muito com pessoas que baseiam sua espiritualidade apenas com a emoção e com as sensações. Pessoas que vivem em busca de constantes revelações, profetizações atualizadas, orações fortes, etc. Uma espiritualidade que não se abre para o ato de pensar, apenas sentem. Rapidamente estão bem, em pé, mas por não conseguirem sistematizar sua fé e assim entender que a caminhada com Deus envolve, também, altos e baixos, quedas e erguidas, abrem mão da sua fé, rapidamente são consumidos pelas artimanhas do inimigo.
Assim, somos chamados para pensar se nossa espiritualidade não superficial e esta tão fragilidade que em qualquer investida do maligno somos destruídos. Entendemos a palavra que ouvimos? Se não, o que podemos fazer para entender e deixar de ser uma terra desapropriada?

II – Cuidado se sua espiritualidade não te deixa uma pessoa 'pé do chão'
A parábola de Jesus afirma que as sementes que caíram em solo rochoso lembra aquelas pessoas que recebem alegremente a palavra, que aparentemente entenderam o sentido do Evangelho e suas exigências diante da vida. Todavia, quando a vida passa a ser vida, essas mesmas pessoas que em outro tempo receberam bem o Evangelho, descartam pois não tinham raízes profundas.
Uma planta só cresce quando sua rais está bem firmada e bem cuidada. Logo, muitas pessoas não conseguem desenvolver uma espiritualidade madura porque não tem rais, são pessoas que estão por um fio diante da queda. Sua espiritualidade não tem força, talvez por não ser alimentada da maneira que devia, e ficar numa superficialidade na dimensão espiritual, isso devido a uma adequação ao modo inexpressivo e irrelevante da espiritualidade.
Diante de obstáculos, que teria tudo para proporcionar o crescimento, gera destruição. Nota-se isso pois o Sol tem a intenção não de destruir, mas de gerar maturidade e crescimento. É certo que o processo de amadurecimento acontece, por diversas vezes, por intermédio da dor e sofrimento, mas se a pessoa não tem uma fé consistente e aprofundada em Deus, a provação que poderia gerar bênção, gera maldição e desgraça.
Logo, Deus desafia o seu povo para uma caminhada existencial que transcenda as circunstâncias. Uma espiritualidade madura nos leva, automaticamente, para uma postura firme, na qual adquirimos condições para decifrar os reais sentidos das provações. A Bíblia esta repleta de pessoas que devido a uma espiritualidade madura e profunda conseguiram perceber e entender o cuidado e amor de Deus. Abrir os olhos antes que seja tarde demais.

III – Cuidado se sua espiritualidade está baseada apenas na racionalidade.
Jesus afirma que as sementes que caem entre os espinhos, até crescem, mas chega numa fase que são sufocadas e morrem. Jesus alerta as pessoas que para ser seduzido pelas evidências do mundo é muito fácil. Dinheiro, comodidade, profissionalismo, etc., são artimanhas presentes e de extrema sedução. São suficientes para apagar a fé e destruir a vida de devoção.
Em nossos dias muitas pessoas fundamentam sua espiritualidade nos bens materiais. O trabalho torna-se o mais importante em sua. Para outras pessoas a família é o mais importante. Outras consideram os estudos. Há também aqueles que supervalorizam a vida eclesiástica. É certo que todas essas áreas são importantes, só que existe algo de extremo valor.
A intenção de Jesus não era que todas as pessoas vivessem integralmente para uma instituição religiosa, é, acima disso, um chamado a uma vida simples de oração e dependente não das riquezas, haja vista que elas tem um poder admirável em destruir e derrubar as pessoas na fé. Jesus quer que as pessoas tenham uma fé edificada e dependente do cuidado de Deus.
Isso tudo acontece porque a razão toma conta do ser. Os sentidos, as emoções, o inexplicável, o inespremível são ridicularizados e minimizados ao que se pode entender. A razão tem que ser equacionada com a fé, pois sozinha é apenas um mecanismo de confusão. Lembre-se que as certezas geram ídolos, as incertezas são libertadoras. A racionalização pode dar consistência à fé, como, também, pode arruinar a fé. Por isso é preciso a síntese entre os dois.

IV – Cuidado se sua espiritualidade não frutifica.
A última semente apontada por Jesus é aquela que caí em terra boa, e compensa todas as sementes que caíram em terras infrutíferas. A distinção básica feita por Jesus não é a respeito do crescimento, da estética, enfim, a distinção entre terra boa e terra ruim são os frutos. A terra tornou-se frutífera, apropriada, bela.
Se temos uma espiritualidade fundamentada numa terra boa, consequentemente damos frutos dignos de arrependimento. O cuidado que essa terra nos alerta é que por muitas vezes achamos que tudo o que devia ser feito já foi, que não existem mais forças para dar continuidade. Todavia, uma boa árvore dá frutos, não engana. Podemos lembrar o trecho que Jesus se irritou com a figueira que aparentemente estava em tempo de frutificar, mas que não dava frutos.
Somos terras boas? Aonde estão os nossos frutos? Quando estivermos diante de Deus o que apresentaremos para Ele como resposta de nossa mordomia cristã? Temos frutificado ou enganado com uma beleza aparente, mas inconsistente e incompetente de alimentar?
Finalmente, somos desafiados para pensar qual tipo de terra somos, além do nosso desafio de continuar o cultivo. Lembro-me da historia que certo homem que toda manhã pegava um ônibus até o trabalho. Certa manhã ele notou que havia uma senhora, com mais de 60 anos, sentada logo no primeiro banco do ônibus, com a janela aberta, lançava sementes ao ar, aonde o ônibus passava. Esse jovem observava e não entendia o que acontecia. Ele pensava: o que essa 'louca' está fazendo? Que perca de tempo. Extremamente desnecessário. Essa cena se repetia durante dias, semanas, meses, até que então, esse jovem rapaz, irritado com a ação da semeadora, pergunta o que ela estava fazendo. De modo muito brando ela responde: estou criando um jardim público. O jovem, mais irritado pela ignorância da resposta da senhora responde: mas a senhora está perdendo o seu tempo. Nenhuma semente vai dar certo. Além do que, quem vai reparar nesse seu jardim? Existem coisas importantes para as pessoas pensarem, olharem e fazerem. Por que a senhora não faz alguma outra coisa? A senhora, com um olhar muito singelo responde. Impaciência juvenil, sempre muito imediatista. Estou bem aqui, semeando minhas sementes. Sei que um dia esse canteiro será um lindo jardim que dará alegria, além de deixar o ambiente muito mais bonito. O jovem foi embora, indignado, sem compreender aquela senhora. Esse jovem conseguiu um emprego em outra cidade, construiu sua vida nos moldes de bem sucedidos de uma sociedade sem escrúpulos. Depois de muitos anos ele volta para trabalhar em sua cidade natal. Sente saudade do tempo em que estava começando sua vida, pega o mesmo ônibus de sua juventude. Senta bem na frente e, quase que instantaneamente, lembra-se da senhora que jogava semente, e vai até a janela aonde ela ficava. O espanto é a primeira coisa perceptível em seus olhos. Havia um jardim lindo naquele canteiro. Uma diversidade no que se refere aos tipos de flores. Como num suspiro ele diz: “Nossa”. O motorista ao perceber o alto suspiro diz: lindo não é? Pois bem, foi um investimento de mais de 10 anos de uma senhora que lançava sementes pela janela do ônibus pelas manhãs. Graças a ela temos um lindo jardim nesse itinerário. O homem bem sucedido que outrora havia repreendido aquela senhora, sente uma vergonha intensa dentro de si, senta no mesmo banco que ela e vai a viagem toda pensativo. Noutro dia pela manhã, aquele homem bem sucedido se senta no primeiro banco do ônibus, com um saquinho de papel cheio de sementes, as quais ele lançava pela janela, seguindo o mesmo trajeto que aquela senhora anônima, mas que marcou a vida de muitas pessoas.
Essa é uma história muito simples, todavia nos desafia a uma espiritualidade que cultive bons frutos, além de questionar se de fato somos terra boa, que frutifica. Que Deus nos ajude tomar os devidos cuidados, afim de que possamos rever, constantemente, nossos conceitos de espiritualidade e vida com Deus. Que o Senhor nos ajude.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Psiu...



[texto sem pretensões teológicas, apenas um esforço pessoal de expressar o inexprimível d'alma.].

Hey, Psiu... Como o tempo passou rápido né? As coisas continuaram mesmo quando se pensou que tudo tinha acabado. Tudo se ajeitou. Ficou tudo acomodado em antigos moldes. A vida não foi interrompida mesmo diante de um súbito rompimento.

Hey, Psiu... é ingênuo ou burrice de nossa parte não ter pontuado as lacunas que se abriram diante do inusitado. Feridas quando não sao tratadas, infeccionam, doem muito mais. Dói muito mais quando essa ferida esta localizada em terras nunca pisadas por pessoa alguma - uma verdadeira utopia, lugar do não lugar. Não é tão difícil assim tratar, só que diante de uma ferida maligna, o que resta é esperar a morte se evidenciar - como aconteceu - Não é mesmo?

Hey, Psiu... A gente não perde o que não se tem. Duro pra entender isso? [acho que não]. O tempo, por sua vez, é muito sábio. O Tempo não só explica, ele cura. O processo terapêutico do tempo é mostrar que a imaginação tem que ser ponderada a partir da realização. Não dá para viver um mundo fictício, num conta de fadas. Nada é tão perfeito como nessas histórias. O príncipe é um sapo e a princesa nao é uma miss.

Hey, Psiu... não chore por leite derramado, afinal de contas, as lágrimas não vão limpar a sujeira. É preciso pegar a toalha e limpar. Isso não é extipar memórias, é, acima disso, superar lindamente o que poderia ter sido e não foi.

Hey, Psiu... Agora é hora de criar, isto é, trazer a existência o que nao existe. Lembre-se que muitas coisas já existem, só que precisam ser criadas. Não é porque existe que não careça de criação. Criar é dar vida, gerar esperança, fazer algo significativo e divertido. então.. crie na existência.

psiu... Divirta-se. Viva! Sorria! Sorria de tudo. Sorria pra tudo. Sorria com tudo. Dos carros, das cores, dos apelidos, das situações, da vida. Simplesmente Sorria.. Isso não é uma atitude de desesperado é, sim, saber que sorrir é a melhor alternativa para quem tenta nos fazer chorar.
Hey, Psiu... Aprenda isso, esqueça isso. viva isso...

domingo, 3 de julho de 2011

Descarrego




Mateus 11.28-30
28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.
29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.
30 Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Quem inventou essa coisa de 'fim de ano e começo de ano' foi uma pessoa muito sábia. É muito bom saber que todo período de começo gera no ser humano novas expectativas. Muitas pessoas, por exemplo, traçam um propósito de perder alguns quilos no começo do ano, de intensificar sua vida devocional, etc. Traçam uma porção de auto desafios que se dissolvem logo nos primeiros dias, ou, quando muito, nas primeiras semanas.
É interessante que as pessoas querem recomeçar quando sentem que as coisas já estão bastante pesadas, que o fardo da vida esta pesando de mais, que o jugo que se carrega traz muitas feridas para a alma, são nessas situações que as pessoas tendem a procurar uma tentativa de recomeço e de ressignificação da vida.
Diante de todo esse cenário de necessidade de transformação nos perguntamos: por onde começar a começar? Em muitos casos, a vida nos sobrecarrega, o stress do cotidiano, as pressões familiares, do trabalho, da igreja vão nos inibindo, oprimindo-nos a tal ponto que parece que o melhor a se fazer é deixar a vida nos levar, 'afinal de contas', pensamos, 'não tem como mudar.'.
Realmente, falar em mudanças é relativamente fácil. Entender que as mudanças são necessárias não é tão difícil, todavia abraçar a mudança como um paradigma de vida a ser vivenciado e incentivado é, sem sombra de dúvidas, extremamente complicado. As pessoas mudam, mas com muita dificuldade e muitas tentativas de erros e acertos, mas são atitudes pessoais que precisam partir do indivíduo que entende que o melhor a se fazer é mudar e transformar.
Nessas horas não dá para ficar em uma superficialidade em nossa caminhada espiritual, é preciso lançar-se ao mais profundo até nos deparar com o desconhecido de Deus, que aos poucos revela algo muito significativo, além de proporcionar uma ruptura com nossas concepções de vida e vida com Deus. Nessas horas é necessário questionar a importância de nossa espiritualidade em nossas vidas. Infelizmente a espiritualidade, para muitas pessoas, é algo bastante desnecessário, haja vista que cultivam apenas sua vida com Deus aos domingos ou em ambientes propositais religiosos. Continuam carregando os mesmo pesos, os mesmos fardos, contentando-se com o medíocre.
Definitivamente a proposta do Evangelho é gerar nas pessoas um descarrego tamanho que auxilie na tarefa de vencer a vida. Não um descarrego momentâneo e circunstancial, baseado na expulsão demoníaca. Um descarrego que abranja a totalidade e a existência do ser humano.

Tenho a leve impressão que é esse descarrego que Jesus quer provocar em todas as pessoas que estão dispostas a segui-lo. Algo que vai para além da situação, da circunstância, uma situação que abranja a totalidade do ser humano.
Infelizmente a mística que é desenvolvida nos dias atuais é aquela voltada para as necessidades superficiais das pessoas. Uma espiritualidade que trate os sintomas mas que não analisa e cura a essência daquilo que nos constrange e tira a nossa paz. Jesus neste trecho inaugura uma nova face do seu ministério.
Percebe-se que Jesus é rejeitado por muitos e acolhidos por alguns. Jesus já estava em sua missão de anunciar o Reino de Deus. A partir de curas, milagres, sinais e ações tangíveis Jesus aponta que o Reino esperado pode ser vivido. A missão é enfática no trabalho de Jesus, pois ele tem a intenção de alcançar muitas pessoas, afirmando, deste modo, o caráter universal do Evangelho de Mateus. Jesus realiza muitas obras, Mateus é enfático na abrangência do Reino de Deus, todavia, muitas pessoas persistem em continuar sobre o peso doentio da religiosidade impossível.
Vale dizer que a lei se tornara insuportável para a maioria das pessoas, porque não podiam adquirir a ciência complicada nos 248 mandamentos e das 365 proibições estabelecidas pelos doutores. A vida com Deus, ao invés de ser leve e suave, era extremamente pesada e machucava. A proposta de Jesus é trazer leveza, embora a santidade interior exija maior perfeição.
A proposta de Jesus é libertadora porque substitui o fardo e o jugo, isto é:
Fardo: Pacote, objeto ou conjunto de pacotes ou objetos volumosos e/ou pesados destinados a transporte algo que é penoso, difícil de fazer, carregar ou suportar: o fardo da velhice – por exemplo; é aquilo que exige cuidados e responsabilidade.
Jugo: Peça de madeira colocada sobre a cabeça dos bois e que os atrela a uma carroça, arado etc.; CANGA, Situação de submissão a alguém por meio de violência; OPRESSÃO; SUJEIÇÃO, Relação de subserviência e obediência.
É necessário que nós consigamos nos despir de fardos adquiridos por erros pessoais ou impostos, deixá-los e, assim, caminhar livres, leves. Porém, o fardo pesado deixa o cotidiano insustentável, as relações tornam-se complicadas, uma situação insuportável. Exige de nós responsabilidades para além do que podemos responder. Ficamos atrelados numa situação de violência, opressão, sujeição àquilo que tira de nós a vida e nos lança a condição de trevas e dor.


Jesus observa que as pessoas viviam oprimidas pelas demandas da vida, por suas expectativas estarem postas em condições inatingíveis, por desconhecerem que a vida é simples e pode ser vivida de modo simples. Assim, ele dá algumas sugestões para a nossa espiritualidade.


I – O 'descarrego' só acontece para quem reconhece que precisa de ajuda.
Jesus diz 'vinde a mim', isto é, ele espera que as pessoas tomem uma ação em direção a ele. Nessa ação de ir até ele as pessoas precisam reconhecer que não conseguem nada sozinhas. Que estão cansadas por causa das pressões da vida e sobrecarregadas com todas as demandas.
Reconhecer a necessidade de tratamento ou de cuidados especiais não é tarefa fácil. A cultura contemporânea despreza pessoas que reconhecem suas fraquezas, suas incapacidades de superação diante dos obstáculos da vida, afinal de contas um perdedor não serve para nada. Diante de uma sociedade que supervaloriza os 'supers' fictícios, quem é demasiadamente humano é descartável.
Esquecemos das orientações bíblicas que diz: “quando estou fraco é que estou forte” (2 Cor 12.2). A nossa fraqueza é o ponto inicial e crucial para caminharmos em direção ao cuidado de Deus. Nosso limite é a nossa maior potencialidade. Este é o momento ideal para entregarmos nosso fardo diante de Deus e, para isso, é preciso reconhecer que estamos:
Cansados de sofrer, cansados da solidão, cansados de uma vida vazia de sentidos e;
Sobrecarregados pois parece que estamos carregando algo para além de nossas forças.
Nessa situação, é fundamental se aproximar de Jesus com a expectativas que ele trará alívio e fortaleza à nossas vidas. Isso não significa que ele mudará as circunstancias, que teremos respostas imediatas, porém podemos ter a convicção de que Deus nos dará a capacidade para superar os desafios ao passo que reconhecemos que é nele e com ele que conseguiremos refrigério d'alma.

II – O 'descarrego' de Deus desperta para um novo paradigma de vida.
O texto afirma que é fundamental tomar o 'fardo' de Jesus, pois é leve e 'aprender' com ele que é manso e humilde de coração, isto é:
Manso de coração porque não se deixa contaminar com as tensões do cotidiano;
Humilde de coração pois não tem falsas pretensões a respeito de si mesmo.
Tanto a mansidão como a humildade são adjetivos que seguem o discurso de Jesus. As pessoas que almejam segui-lo assumem um novo paradigma de vida. Não está baseado no stress do dia a dia, no qual é preciso provar para conhecidos e desconhecidos o status que se tem, a glória que se consegue, os patamares intocáveis que se está, pelo contrário, a mansidão que Jesus propõe é uma espiritualidade bastante profunda, tendo ambições semelhantes a de Jesus: o esvaziamento.
Ser humilde não é assumir uma posição de coitado ou de vanglória. É ter bastante esclarecido os seus limites e potencialidades. É reconhecer que o amor de Deus se manifesta de modo muito significativo em nossas vidas, mas, ao mesmo tempo, é saber que somos pecadores e que nada do que façamos poderá recompensar o que Deus já fez e faz por nós. É nessa trajetória de aprendizado e desprendimento que se alcançará descanso, paz e o verdadeiro descarrego.

III – O descarrego traz um novo paradigma de vida.
O ato de descarregar, lançar em Jesus tudo o que tira a nossa paz, lançar sobre ele aquilo que nos desestrutura, é a melhor opção e escolha que podemos fazer. Ao passo que nos livramos de pressões, tensões e opressões que nos limitam, assumimos um novo paradigma de vida. Isto é, conceitos que se tinha, ideologias pessoais são reestruturados a partir da concepção de que Jesus é aquele que traz leveza, serenidade e sustentação para o nosso viver.
Quando Jesus afirma que seu jugo é suave, talvez esteja trazendo a tona um pouco da experiência de Elias que viu a ação de Deus não das formas mais estrondosas e miraculosas, mas de uma maneira bastante simples, mas com muito consistência. O ministério que podemos desenvolver juntos é assim: com suavidade, generosidade e muita dependência da ação divina. Se por um lado o jugo do mundo machuca o ser humano, gera feridas e muitas marcas doloridas, a proposta de Jesus é caminhar de modo simples e, ao mesmo tempo, bondoso.
Outra ambiguidade na proposta de Jesus é um fardo leve. Segundo o conceito humano, um fardo leve não serve para nada, afinal de contas, quanto mais pesado, significa que tem mais coisas, tem mais utilidade, etc. Um fardo leve representa algo vazio. Possivelmente o que dê peso e gere dificuldade para o ser humano é o antônimo do que Jesus espera das pessoas que se propõe a segui-lo. A proposição de Jesus é leve, isto é, não é um fardo, é algo possível e sustentável.
Podemos desenvolver um ministério sem o peso da religiosidade contemporânea que exige resultados imediatos, milagres constantes, moralismo preconceituoso e despreendimento do que é essencial ao evangelho. É possível ter uma espiritualidade que lance todos os pesos que geram alienação e assumir a leveza do discipulado de Jesus.


Torna-se evidente que a proposta de Jesus é um descarrego existencial, no qual o apego a coisas que oprimem a vida, que deixam as circunstâncias insustentáveis, inviáveis é repudiado pelo amor e Evangelho de Jesus. Reconhecer a necessidade desse descarrego é o primeiro passo para desfrutar do cuidado divino. Nesse processo de auto reconhecimento, descobrimos a importância de aprender com Jesus detalhes fundantes para um coração reestruturado. Não adiante ter novos paradigmas se a vida não é impactada pelo paradoxo da mudança.
As rupturas circunstanciais são essenciais para o despreendimento daquilo que ofusca o verdadeiro sentido de nossa existência. Portanto, aproveitar de tais ocasiões ajuda o ser humano a assumir paradigmas de leveza, suavidade mas de responsabilidade.
Se por um lado a proposta de Jesus é de trazer leveza ao ser humano, por outro lado, é um chamamento para uma vida de responsabilidade. Portanto, diante dos desafios que aparecerão, possamos ter este 'descarrego' como marca de nosso ministério.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Velório



“Conheço um homem em Cristo que”, alguns dias atrás, vivenciou o processo do luto e a ambiguidade do ambiente tomado pela morte e seus estigmas. É bastante complexo a tentativa de decifrar a pluralidade de sentimentos, sensações e emoções que, quase de forma apocalíptica, revelam-se aos olhos nesses períodos gelados. O processo empírico desencadeado pela extinção momentânea é, possivelmente, um dos melhores caminhos para vivenciar o que permeia no âmago humano que são despertados em momentos de sono profundo. Quero destacar, a partir dos relatos desse 'homem em Cristo que conheço', algumas impressões a respeito desse aparente fracasso existencial que se fez presente na morte.
Notei que as lágrimas que escorrem o rosto por uma pessoa amada que jaz no silêncio eterno podem trazer conforto e/ou desconforto.
As pessoas que se sentiam confortadas, isto é, que se acomodam positivamente com a situação, tornavam-se fortes diante desse momento de abatimento, deixavam-se tocar pelo consolo e alívio, são aquelas pessoas que encaram a morte como o último inimigo que já foi vencido e superado. O conforto vem para aquelas pessoas que entendem que a pessoa que 'foi' “combateu o bom combate, completou a carreira, guardou a fé.”. As Lágrimas que correm ao rosto são lágrimas de saudade e esperança.
Existem aquelas pessoas que ficam desconfortadas em tais momentos. São pessoas que não param em lugar nenhum. Não se encaixam em nada. Não tem palavras de vida. Estão fissuradas pela morte e pelo passado. Pessoas desconfortadas e que proporcionam o desconforto.
Esse 'homem que conheço em Cristo' disse algumas coisas a respeito da religião. Independente da tradição religiosa da família, o ato religioso nesse momento final é, sem sombra de dúvidas, um tempo muito importante para a família como alvo primário e secundário. Primário por receber palavras de sustentação num tempo dão doloroso, secundário porque para os familiares, independente de sua tradição religiosa, o ente querido que 'se foi' precisa ser religado em uma outra dimensão, o qual é oficializado pelo rito ortodoxo da espiritualidade. Essa positividade vista na religião é o que dá sentido e significado para as pessoas, ajudando-as a sintetizar a morte na vida.
Há o lado pavoroso da religião. Segundo esse 'homem em Cristo que conheço', um viés terrível. Muitas pessoas aproveitam para ocupar o lugar de Deus e, assim, definir se a pessoa foi ou não para o céu. Tais indivíduos aproveitam para condenar e julgar as atitudes e ações do ente querido que está tomado pela morte – sem condições para se defender – utilizando de palavras que nunca seriam ditas em olhos abertos e cheios de vida. Diante da sensibilidade dos familiares surpreendidos pela morte tão indesejada, agem monstruosamente e insensíveis ao clima de despedida, apelando por apelos religiosos fundamentalistas distanciados do Deus da vida, pois geram morte e mais dor.
E o pior é que tudo o que é feito é em nome de deus. Pode até ser em nome de deus mas não no nome de Deus. Um Deus que é amor, sensível, presente na angustia, solidário ao sofrimento, que não veio para julgar mas para dar vida e vidar em abundância, trazer consolo, paz diante das incertezas, esse Deus é o nosso Deus, não um deus que não existe e manipulável ao desejos vaidosos de seres encardidos.
Da mesma proporção que a religião pode trazer a existência o que não existe (aspecto particular em tal 'ciência'), pode destruir o pouco do que restou. Logo, a religião precisa ajudar aqueles que ficam no processo de reconstruir a vida a partir do que se sobrou dela, não ser o instrumento demoníaco para destruir o pouco que se tem.
Esse 'homem em Cristo que conheço', descobriu o paradoxo do velório. Ninguém gosta de ir em velórios, principalmente quando é de uma pessoa amada. Postergamos e execramos tais possibilidades de nossas mentes, haja vista que são momentos dolorosos (ficar ao lado de alguém que não está mais ali para retribuir a presença).
Porém, eu te convidaria velar pelas pessoas amadas em vida. O termo 'velar' representa, também, outros sentidos e significados, sendo eles: proteger, ficar acordado ao lado, manter-se aceso, manter-se em guarda, dar proteção, zelar, cobrir, preocupar-se, então:
Proteja a pessoa amada com a sua própria vida;
Fique acordado ao lado de quem ainda tem a chance de acordar;
Mantenha-se aceso diante das ameaças e provações;
Mantenha-se em guarda quando o mau te surpreender com alguma cilada;
Zele por aquelas pessoas que valem a pena;
Cubra pessoas amadas de beijos, amor e doçura;
Preocupe-se em ser hoje melhor do que você foi ontem e melhor amanha do que você foi hoje.
Não espere pelo epitáfio para velar por quem é digno de se amar. Que o Senhor nos ajude. Amém.