quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A principal sabedoria é o Temor ao Senhor



[Culto 26 de janeiro de 2012 no Ponto Missionário em Jd. Califórnia, Salmo 111.10.]

É certo que existem muitas pessoas que seguem o evangelho não por amor a Cristo, amor a causa evangélica, mas por causa do medo das consequências em não seguir o evangelho.
Grande parte das pessoas estabelecem uma relação com Deus a partir do prisma de que: ao passo que se serve Jesus na Igreja, 'paga' (péssimo termo) o dízimo, faz as coisas que precisam serem feitas, estarão ilesas de problemas, de investidas do inimigo, que nunca serão surpreendidas pelo tão famoso e temido dia mal, etc.
Logo, as pessoas pautam sua conduta de vida no medo das consequências. Além disso, muitas coisas são interpretadas como castigo de Deus por desacato à autoridade divina, ao mandamento de Deus.
Porém isso nada mais é do que uma forma de tirar de si a responsabilidade das ações e consequências, e dar a Deus uma identidade de pai carrasco, que maltrata, que pisa e suga ao máximo pessoas que o desobedeceram.
A Bíblia diz que o temor (o que entendemos como medo) é o princípio de sabedoria. Como pode haver conjugação entre dois termos tão distintos?
Certa vez um jovem discípulo foi até o seu mestre sábio e perguntou: Mestre, quando sei que me tornei um sábio. De modo calmo o sábio responde: a partir do momento que você tem condições de tomar boas decisões. Mas Mestre – retruca o discípulo – como posso tomar boas decisões. O sábio olha, e, calmamente, responde: tomando más escolhas.
Parece um pouco contrastante a imagem de um Deus que é pai de amor que prefere estabelecer uma relação de medo com o seu povo. Talvez o temor descrito não tenha o sentido de punição mas, acima disso, uma relação de intimidade.
A Bíblia é repleta de personagens bíblicos que temeram ao Senhor e que, nesse processo, foram bem aventurados. Receberam destaque. Atingiram uma vida de prosperidade. As atividades que foram dadas a essas pessoas chegaram para além dos objetivos pré vistos, como se nota em:



  • Êxodo 1.15 – Parteiras Sifrá e Puá;
    Neemias 7.2 – Hananias;
    Jó 1.1. - A história de Jó;
    Atos 10.2 – Cornélio;
    Atos 16.14 – Lídia;
    Atos 18.7 – Tício;
    Hebreus 11.7 – Noé.
Entre outros homens e mulheres que por temerem a Deus fizeram aquilo que desagradava o senso comum, mas sua atenção estava em agradar o coração de Deus.
Percebemos na história dessas pessoas que o temor não tinha relação com a punição do que poderia acontecer com suas vidas, porém, sua atenção estava no fato de agradar o coração de Deus, sendo que estavam dispostas a irem até o fim por uma causa que foi dada pelo próprio Deus.
Em suma, o medo não é um problema. O medo pode ser classificado como um sentimento de alerta:



  • Quando estamos numa rua perigosa;
    Quando ficamos sozinhos em lugares estranhos;
    Quando somos surpreendidos por algum desafio.

Enfim, o medo ajuda as pessoas a terem mais cautela em suas ações. Muitas pessoas têm suas vidas abreviadas por se acharem fortes o suficiente para enfrentar qualquer coisa e, por causa disso, são privados da existência.
Se o prisma para entender o temor é como aquele sentimento de cautela que auxilia na precisão da vida, logo é possível estabelecer uma ponte entre este sentimento com a sabedoria bíblica. A sabedoria é uma lente esclarecida da vida.
Sabedoria na linguagem bíblica não está relacionada com o conhecimento adquirido em uma faculdade, num curso, numa pós graduação, etc. A sabedoria bíblica é um processo empírico o qual se o eixo central é a experiência pessoal.
Sabedoria é aquela capacidade de discernimento. De tomar a decisão certa, na hora certa. A perspicácia em separar o maligno do benigno, e a sensatez de avaliar os resultados sem justificativas desprovidas de razão mas encharcadas de emocionalismo e sentimentalismo.
É certo dizer que sabedoria não é apenas racional, porém, ela não se deixa domar ou tomar pelas vontades oriundas dos desejos e anseios pessoais.
Possivelmente a verdadeira sabedoria consiga equacionar bem o sentimento com os limites racionais. Pois bem, algumas perguntas podem ajudar nesse processo de discernimento:
Qual é a relação de temor na linguagem bíblica?
Qual é a relação entre temor e sabedoria?


Por que o temor gera ou é o começo da sabedoria?


A palavra temor aparece pelo menos 200 vezes na Bíblia, seguida da sabedoria que aparece mais de 500 vezes. São termos que separados ou juntos representam muito para a teologia cristã. Finalmente, o que representa essa conjugação: Temor é igual à Sabedoria?
Uma tradução literal do texto ficaria: Principal sabedoria temor de Yahweh. É engraçado como o autor bíblico deixa claro que a maior riqueza que podemos adquirir é descobrir a sabedoria por meio do temor. Lembra muito a história de Salomão quando foi surpreendido por Deus em pedir qualquer coisa, pediu sabedoria. Somos desafiados a isso.
Agora, o que o temor do Senhor provoca nas pessoas que aderem isso como estilo de vida?
I - Relacionamento sem máscaras com Deus.
A partir do momento que nosso relacionamento com Deus é pautado no temor do Senhor, não damos mais desculpas, não procuramos alibes para nos esconder. Não insistimos em justificativas injustificáveis, para amenizar a nossa culpa e irresponsabilidade diante da vida.

II - mudança na forma como se enxerga.
Quando somos tomados pelo temor do Senhor, encaramos de frente os demônios que vivem alojados em nós e assumimos as rédeas em querer exorcizá-los. Somos o que somos, mas queremos a identidade de filho de Deus, e para isso acontecer efetivamente, assumimos o auto compromisso de mudança.


III - transformação no caráter.
Ao passo que encaremos e exorcizamos, é quase que um impulso natural de mudança exterior. Para se conseguir isso alteramos drasticamente o nosso caráter. Percebemos que uma pessoa que passa a termo a Deus assume um novo perfil. Deus é aquele que ajuda o ser humano a por em prática sua fé. Motiva o ser humano a um processo contínuo de busca por ser melhor cada dia um 'pouquinho'.
Quando o texto diz 'revelam prudência todos os que o praticam.' afirma que as pessoas percebem que nossa prática de vida tem relação como nosso discurso.
Talvez esteja na hora de vivermos o que pregamos, para poder pregar sobre o que vivemos!


IV - nova perspectiva em encarar o mundo.
O temor do Senhor gera sabedoria porque os projetos e sonhos são alicerçados na ideia de nunca querer decepcionar um pai amoroso e é por isso que O seu louvor permanece para sempre. A vida flui naturalmente.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Igreja pra que?

Nessas férias um amigo me disse que deteu um pouco de sua atenção em uma pergunta que constantemente vinha em sua minha mente: Igreja pra que? Será que a dedicação de uma vida à uma instituição eclesiástica tem alguma relevância na vida das pessoas? A vida em 'comunidade' agrega ou desagrega valores? É possível que uma pessoa ou família consiga ter uma boa vida sem fazer parte do Rol eclesiástico?

Antes de descrever algumas considerações deste amigo, ele menciona que teve um tempo muito propício com uma família que não frequenta uma comunidade eclesiástica, que não tem cargos ou funções ministeriais. Essa família apenas professa uma fé 'universal', pratica uma vida de piedade bastante sincera e assídua, sempre que possível demonstra atos de misericórdia, mas não expõe uma bandeira institucional. Confesso que essa situação me colocou em “xeque”, pois no lugar em que esse meu amigo ficou existiam problemas financeiros, relacionais, emocionais e espirituais, tão comuns em contextos religiosos, mas, mesmo assim, essa família vivia com um ar de tranquilidade e leveza.
Meu amigo ficou pensando: será que essa família precisa de Igreja? Igreja pra que?
A primeira consideração que este amigo fez foi: Não, eles não precisam de Igreja. Chocante, não é mesmo? Todavia, a verdade, em sua essência, choca!
Essa família não precisa de uma Igreja que vive a mediocridade espiritual, sem a busca gradativa de um avivamento genuíno.
Não precisa de uma Igreja voltada para guerras internas de 'quem tem mais poder', 'quem pode mais', 'quem manda mais'.
Não precisa de uma Igreja briguenta, que consegue fazer com que a participação dos atos religiosos sejam pior do que se não tivesse participado dessas liturgias.
Não precisa de uma Igreja enferrujada para missão. Emburrada quanto ao evangelho. Empobrecida de sonhos. Enferma nos relacionamentos. Enfezada...
Essa família não precisa de uma Igreja que tem uma retórica bem estruturada em sua argumentação sobre o amor, porém desconhece o pragmatismo de amar.

Nesse recorte, sem sombra de dúvidas, se essa família fizer parte de uma Igreja assim, ficarão piores do que já estão, e, o pior, possivelmente se tornaram pessoas azedas, amargas, etc..
Mas este amigo não esgotou as possibilidade, ele teve outra consideração a declarar: Sim, essa família precisa fazer parte de uma Igreja!
A antítese de Igreja apresentada em linhas anteriores, infelizmente, não existe. Contudo existem comunidades de fé que reconhecem a sua pequenez diante de Deus, e que conseguem não apontar um dedo, mas oferecer um abraço. Essa família precisa de uma Igreja que conseguiu decodificar a essência do Evangelho, isto é: o Amor.
Quando o amor é latente, a busca por um avivamento espiritual genuíno é o que impulsiona a trajetória da comunidade cristã.
Se existe amor as diferenças são contornadas. As vontades particulares mesquinhas cedem lugar para o respeito, e a convivência não é abortada por motivos ideológicos.
Os atos religiosos são momentos de ouvir Deus falar; silenciar pra Deus falar; sentir Deus falar e, ao mesmo tempo, ser impactado pela sensação de igualdade e respeito entre as pessoas que cultuam ao mesmo Deus, mesmo com expressões distintas, e, sobretudo, são irmãos e irmãs, filhas/os de um mesmo Pai, embaixadores/as da mesma causa. Em ambientes assim as celebrações são prazerosas! Não sente vontade de ir embora.
Essa família precisa Sim de uma Igreja que entende:
  • o compromisso missiológico,
  • a graça do Evangelho,
  • o valor dos sonhos [como aquele mecanismo que impulsiona a Igreja],
  • a necessidade de relacionamentos sadios (e não sádicos);
  • entendem o que é ser uma Igreja Entusiasmada...
Finalmente, dois apontamentos se fazem necessários:
Em primeiro lugar, a Igreja pode ser um local de referência ou de indiferença; em segundo lugar, todas as pessoas que assumem a identidade cristã precisam enfrentar seus impulsos personalistas e se comprometerem em fazer da Igreja que se faz parte – que não é perfeita, mas caminha – um lugar bom e agradável de se estar. Aonde as pessoas sentem alegria e privilégio de estarem. Um ambiente que agrega valores e desagrega as perniciosidades da carne.
Sou feliz por fazer parte de uma Igreja. Sou feliz em poder (com)partilhar um pouco do que sou e tenho. Mas preciso me comprometer mais em fazer da comunidade que participo um local aonde as pessoas, inclusive eu, possam se encontrar com Deus, consigo mesmas e com as 'gentes'.

Para encerrar seu testemunho, esse amigo me dirigiu numa oração mais ou menos assim:
Querido Deus, faça de mim uma pessoa convertida ao seu amor, convergida em sua vontade e constrangida por sua graça, porque, assim, levarei a leveza de te seguir e estar contigo, e não o peso de uma religião falida. Oro, em nome de Jesus. Amém.