domingo, 3 de julho de 2011

Descarrego




Mateus 11.28-30
28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.
29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.
30 Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Quem inventou essa coisa de 'fim de ano e começo de ano' foi uma pessoa muito sábia. É muito bom saber que todo período de começo gera no ser humano novas expectativas. Muitas pessoas, por exemplo, traçam um propósito de perder alguns quilos no começo do ano, de intensificar sua vida devocional, etc. Traçam uma porção de auto desafios que se dissolvem logo nos primeiros dias, ou, quando muito, nas primeiras semanas.
É interessante que as pessoas querem recomeçar quando sentem que as coisas já estão bastante pesadas, que o fardo da vida esta pesando de mais, que o jugo que se carrega traz muitas feridas para a alma, são nessas situações que as pessoas tendem a procurar uma tentativa de recomeço e de ressignificação da vida.
Diante de todo esse cenário de necessidade de transformação nos perguntamos: por onde começar a começar? Em muitos casos, a vida nos sobrecarrega, o stress do cotidiano, as pressões familiares, do trabalho, da igreja vão nos inibindo, oprimindo-nos a tal ponto que parece que o melhor a se fazer é deixar a vida nos levar, 'afinal de contas', pensamos, 'não tem como mudar.'.
Realmente, falar em mudanças é relativamente fácil. Entender que as mudanças são necessárias não é tão difícil, todavia abraçar a mudança como um paradigma de vida a ser vivenciado e incentivado é, sem sombra de dúvidas, extremamente complicado. As pessoas mudam, mas com muita dificuldade e muitas tentativas de erros e acertos, mas são atitudes pessoais que precisam partir do indivíduo que entende que o melhor a se fazer é mudar e transformar.
Nessas horas não dá para ficar em uma superficialidade em nossa caminhada espiritual, é preciso lançar-se ao mais profundo até nos deparar com o desconhecido de Deus, que aos poucos revela algo muito significativo, além de proporcionar uma ruptura com nossas concepções de vida e vida com Deus. Nessas horas é necessário questionar a importância de nossa espiritualidade em nossas vidas. Infelizmente a espiritualidade, para muitas pessoas, é algo bastante desnecessário, haja vista que cultivam apenas sua vida com Deus aos domingos ou em ambientes propositais religiosos. Continuam carregando os mesmo pesos, os mesmos fardos, contentando-se com o medíocre.
Definitivamente a proposta do Evangelho é gerar nas pessoas um descarrego tamanho que auxilie na tarefa de vencer a vida. Não um descarrego momentâneo e circunstancial, baseado na expulsão demoníaca. Um descarrego que abranja a totalidade e a existência do ser humano.

Tenho a leve impressão que é esse descarrego que Jesus quer provocar em todas as pessoas que estão dispostas a segui-lo. Algo que vai para além da situação, da circunstância, uma situação que abranja a totalidade do ser humano.
Infelizmente a mística que é desenvolvida nos dias atuais é aquela voltada para as necessidades superficiais das pessoas. Uma espiritualidade que trate os sintomas mas que não analisa e cura a essência daquilo que nos constrange e tira a nossa paz. Jesus neste trecho inaugura uma nova face do seu ministério.
Percebe-se que Jesus é rejeitado por muitos e acolhidos por alguns. Jesus já estava em sua missão de anunciar o Reino de Deus. A partir de curas, milagres, sinais e ações tangíveis Jesus aponta que o Reino esperado pode ser vivido. A missão é enfática no trabalho de Jesus, pois ele tem a intenção de alcançar muitas pessoas, afirmando, deste modo, o caráter universal do Evangelho de Mateus. Jesus realiza muitas obras, Mateus é enfático na abrangência do Reino de Deus, todavia, muitas pessoas persistem em continuar sobre o peso doentio da religiosidade impossível.
Vale dizer que a lei se tornara insuportável para a maioria das pessoas, porque não podiam adquirir a ciência complicada nos 248 mandamentos e das 365 proibições estabelecidas pelos doutores. A vida com Deus, ao invés de ser leve e suave, era extremamente pesada e machucava. A proposta de Jesus é trazer leveza, embora a santidade interior exija maior perfeição.
A proposta de Jesus é libertadora porque substitui o fardo e o jugo, isto é:
Fardo: Pacote, objeto ou conjunto de pacotes ou objetos volumosos e/ou pesados destinados a transporte algo que é penoso, difícil de fazer, carregar ou suportar: o fardo da velhice – por exemplo; é aquilo que exige cuidados e responsabilidade.
Jugo: Peça de madeira colocada sobre a cabeça dos bois e que os atrela a uma carroça, arado etc.; CANGA, Situação de submissão a alguém por meio de violência; OPRESSÃO; SUJEIÇÃO, Relação de subserviência e obediência.
É necessário que nós consigamos nos despir de fardos adquiridos por erros pessoais ou impostos, deixá-los e, assim, caminhar livres, leves. Porém, o fardo pesado deixa o cotidiano insustentável, as relações tornam-se complicadas, uma situação insuportável. Exige de nós responsabilidades para além do que podemos responder. Ficamos atrelados numa situação de violência, opressão, sujeição àquilo que tira de nós a vida e nos lança a condição de trevas e dor.


Jesus observa que as pessoas viviam oprimidas pelas demandas da vida, por suas expectativas estarem postas em condições inatingíveis, por desconhecerem que a vida é simples e pode ser vivida de modo simples. Assim, ele dá algumas sugestões para a nossa espiritualidade.


I – O 'descarrego' só acontece para quem reconhece que precisa de ajuda.
Jesus diz 'vinde a mim', isto é, ele espera que as pessoas tomem uma ação em direção a ele. Nessa ação de ir até ele as pessoas precisam reconhecer que não conseguem nada sozinhas. Que estão cansadas por causa das pressões da vida e sobrecarregadas com todas as demandas.
Reconhecer a necessidade de tratamento ou de cuidados especiais não é tarefa fácil. A cultura contemporânea despreza pessoas que reconhecem suas fraquezas, suas incapacidades de superação diante dos obstáculos da vida, afinal de contas um perdedor não serve para nada. Diante de uma sociedade que supervaloriza os 'supers' fictícios, quem é demasiadamente humano é descartável.
Esquecemos das orientações bíblicas que diz: “quando estou fraco é que estou forte” (2 Cor 12.2). A nossa fraqueza é o ponto inicial e crucial para caminharmos em direção ao cuidado de Deus. Nosso limite é a nossa maior potencialidade. Este é o momento ideal para entregarmos nosso fardo diante de Deus e, para isso, é preciso reconhecer que estamos:
Cansados de sofrer, cansados da solidão, cansados de uma vida vazia de sentidos e;
Sobrecarregados pois parece que estamos carregando algo para além de nossas forças.
Nessa situação, é fundamental se aproximar de Jesus com a expectativas que ele trará alívio e fortaleza à nossas vidas. Isso não significa que ele mudará as circunstancias, que teremos respostas imediatas, porém podemos ter a convicção de que Deus nos dará a capacidade para superar os desafios ao passo que reconhecemos que é nele e com ele que conseguiremos refrigério d'alma.

II – O 'descarrego' de Deus desperta para um novo paradigma de vida.
O texto afirma que é fundamental tomar o 'fardo' de Jesus, pois é leve e 'aprender' com ele que é manso e humilde de coração, isto é:
Manso de coração porque não se deixa contaminar com as tensões do cotidiano;
Humilde de coração pois não tem falsas pretensões a respeito de si mesmo.
Tanto a mansidão como a humildade são adjetivos que seguem o discurso de Jesus. As pessoas que almejam segui-lo assumem um novo paradigma de vida. Não está baseado no stress do dia a dia, no qual é preciso provar para conhecidos e desconhecidos o status que se tem, a glória que se consegue, os patamares intocáveis que se está, pelo contrário, a mansidão que Jesus propõe é uma espiritualidade bastante profunda, tendo ambições semelhantes a de Jesus: o esvaziamento.
Ser humilde não é assumir uma posição de coitado ou de vanglória. É ter bastante esclarecido os seus limites e potencialidades. É reconhecer que o amor de Deus se manifesta de modo muito significativo em nossas vidas, mas, ao mesmo tempo, é saber que somos pecadores e que nada do que façamos poderá recompensar o que Deus já fez e faz por nós. É nessa trajetória de aprendizado e desprendimento que se alcançará descanso, paz e o verdadeiro descarrego.

III – O descarrego traz um novo paradigma de vida.
O ato de descarregar, lançar em Jesus tudo o que tira a nossa paz, lançar sobre ele aquilo que nos desestrutura, é a melhor opção e escolha que podemos fazer. Ao passo que nos livramos de pressões, tensões e opressões que nos limitam, assumimos um novo paradigma de vida. Isto é, conceitos que se tinha, ideologias pessoais são reestruturados a partir da concepção de que Jesus é aquele que traz leveza, serenidade e sustentação para o nosso viver.
Quando Jesus afirma que seu jugo é suave, talvez esteja trazendo a tona um pouco da experiência de Elias que viu a ação de Deus não das formas mais estrondosas e miraculosas, mas de uma maneira bastante simples, mas com muito consistência. O ministério que podemos desenvolver juntos é assim: com suavidade, generosidade e muita dependência da ação divina. Se por um lado o jugo do mundo machuca o ser humano, gera feridas e muitas marcas doloridas, a proposta de Jesus é caminhar de modo simples e, ao mesmo tempo, bondoso.
Outra ambiguidade na proposta de Jesus é um fardo leve. Segundo o conceito humano, um fardo leve não serve para nada, afinal de contas, quanto mais pesado, significa que tem mais coisas, tem mais utilidade, etc. Um fardo leve representa algo vazio. Possivelmente o que dê peso e gere dificuldade para o ser humano é o antônimo do que Jesus espera das pessoas que se propõe a segui-lo. A proposição de Jesus é leve, isto é, não é um fardo, é algo possível e sustentável.
Podemos desenvolver um ministério sem o peso da religiosidade contemporânea que exige resultados imediatos, milagres constantes, moralismo preconceituoso e despreendimento do que é essencial ao evangelho. É possível ter uma espiritualidade que lance todos os pesos que geram alienação e assumir a leveza do discipulado de Jesus.


Torna-se evidente que a proposta de Jesus é um descarrego existencial, no qual o apego a coisas que oprimem a vida, que deixam as circunstâncias insustentáveis, inviáveis é repudiado pelo amor e Evangelho de Jesus. Reconhecer a necessidade desse descarrego é o primeiro passo para desfrutar do cuidado divino. Nesse processo de auto reconhecimento, descobrimos a importância de aprender com Jesus detalhes fundantes para um coração reestruturado. Não adiante ter novos paradigmas se a vida não é impactada pelo paradoxo da mudança.
As rupturas circunstanciais são essenciais para o despreendimento daquilo que ofusca o verdadeiro sentido de nossa existência. Portanto, aproveitar de tais ocasiões ajuda o ser humano a assumir paradigmas de leveza, suavidade mas de responsabilidade.
Se por um lado a proposta de Jesus é de trazer leveza ao ser humano, por outro lado, é um chamamento para uma vida de responsabilidade. Portanto, diante dos desafios que aparecerão, possamos ter este 'descarrego' como marca de nosso ministério.

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