
“Conheço um homem em Cristo que”, alguns dias atrás, vivenciou o processo do luto e a ambiguidade do ambiente tomado pela morte e seus estigmas. É bastante complexo a tentativa de decifrar a pluralidade de sentimentos, sensações e emoções que, quase de forma apocalíptica, revelam-se aos olhos nesses períodos gelados. O processo empírico desencadeado pela extinção momentânea é, possivelmente, um dos melhores caminhos para vivenciar o que permeia no âmago humano que são despertados em momentos de sono profundo. Quero destacar, a partir dos relatos desse 'homem em Cristo que conheço', algumas impressões a respeito desse aparente fracasso existencial que se fez presente na morte.
Notei que as lágrimas que escorrem o rosto por uma pessoa amada que jaz no silêncio eterno podem trazer conforto e/ou desconforto.
As pessoas que se sentiam confortadas, isto é, que se acomodam positivamente com a situação, tornavam-se fortes diante desse momento de abatimento, deixavam-se tocar pelo consolo e alívio, são aquelas pessoas que encaram a morte como o último inimigo que já foi vencido e superado. O conforto vem para aquelas pessoas que entendem que a pessoa que 'foi' “combateu o bom combate, completou a carreira, guardou a fé.”. As Lágrimas que correm ao rosto são lágrimas de saudade e esperança.
Existem aquelas pessoas que ficam desconfortadas em tais momentos. São pessoas que não param em lugar nenhum. Não se encaixam em nada. Não tem palavras de vida. Estão fissuradas pela morte e pelo passado. Pessoas desconfortadas e que proporcionam o desconforto.
Esse 'homem que conheço em Cristo' disse algumas coisas a respeito da religião. Independente da tradição religiosa da família, o ato religioso nesse momento final é, sem sombra de dúvidas, um tempo muito importante para a família como alvo primário e secundário. Primário por receber palavras de sustentação num tempo dão doloroso, secundário porque para os familiares, independente de sua tradição religiosa, o ente querido que 'se foi' precisa ser religado em uma outra dimensão, o qual é oficializado pelo rito ortodoxo da espiritualidade. Essa positividade vista na religião é o que dá sentido e significado para as pessoas, ajudando-as a sintetizar a morte na vida.
Há o lado pavoroso da religião. Segundo esse 'homem em Cristo que conheço', um viés terrível. Muitas pessoas aproveitam para ocupar o lugar de Deus e, assim, definir se a pessoa foi ou não para o céu. Tais indivíduos aproveitam para condenar e julgar as atitudes e ações do ente querido que está tomado pela morte – sem condições para se defender – utilizando de palavras que nunca seriam ditas em olhos abertos e cheios de vida. Diante da sensibilidade dos familiares surpreendidos pela morte tão indesejada, agem monstruosamente e insensíveis ao clima de despedida, apelando por apelos religiosos fundamentalistas distanciados do Deus da vida, pois geram morte e mais dor.
E o pior é que tudo o que é feito é em nome de deus. Pode até ser em nome de deus mas não no nome de Deus. Um Deus que é amor, sensível, presente na angustia, solidário ao sofrimento, que não veio para julgar mas para dar vida e vidar em abundância, trazer consolo, paz diante das incertezas, esse Deus é o nosso Deus, não um deus que não existe e manipulável ao desejos vaidosos de seres encardidos.
Da mesma proporção que a religião pode trazer a existência o que não existe (aspecto particular em tal 'ciência'), pode destruir o pouco do que restou. Logo, a religião precisa ajudar aqueles que ficam no processo de reconstruir a vida a partir do que se sobrou dela, não ser o instrumento demoníaco para destruir o pouco que se tem.
Esse 'homem em Cristo que conheço', descobriu o paradoxo do velório. Ninguém gosta de ir em velórios, principalmente quando é de uma pessoa amada. Postergamos e execramos tais possibilidades de nossas mentes, haja vista que são momentos dolorosos (ficar ao lado de alguém que não está mais ali para retribuir a presença).
Porém, eu te convidaria velar pelas pessoas amadas em vida. O termo 'velar' representa, também, outros sentidos e significados, sendo eles: proteger, ficar acordado ao lado, manter-se aceso, manter-se em guarda, dar proteção, zelar, cobrir, preocupar-se, então:
Proteja a pessoa amada com a sua própria vida;
Fique acordado ao lado de quem ainda tem a chance de acordar;
Mantenha-se aceso diante das ameaças e provações;
Mantenha-se em guarda quando o mau te surpreender com alguma cilada;
Zele por aquelas pessoas que valem a pena;
Cubra pessoas amadas de beijos, amor e doçura;
Preocupe-se em ser hoje melhor do que você foi ontem e melhor amanha do que você foi hoje.
Não espere pelo epitáfio para velar por quem é digno de se amar. Que o Senhor nos ajude. Amém.
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