segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Vasos de Barro

Texto: 2 Cor 4.7-18

7 Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.
8 Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados;
9 perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos;
10 levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo.
11 Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal.
12 De modo que, em nós, opera a morte, mas, em vós, a vida.
13 Tendo, porém, o mesmo espírito da fé, como está escrito: Eu cri; por isso, é que falei. Também nós cremos; por isso, também falamos,
14 sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará convosco.
15 Porque todas as coisas existem por amor de vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de muitos, para glória de Deus.
16 Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia.
17 Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação,
18 não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.


O termo vaso e seus sinônimos são muito utilizados na Bíblia. O vaso de barro é uma boa representação da simplicidade da vida, sua condição indefesa e a capacidade de ser refeito se for necessário. Vaso, na concepção bíblica, é um instrumento não como uma finalidade em si mesmo, mas, sim, com intenção de carregar algum outro bem.
No AT existe um texto muito conhecido em Jeremias ao dizer que Deus é o oleiro, aquele que cria e dá uma finalidade ao vaso, e o povo de Israel é um vaso, sendo que pode passar pelo processo de restauração de for necessário. Essa metáfora é muito bonita, porém traz consigo um grande desafio, haja vista que passar pelo processo de ser quebrado por Deus não é fácil.
Muitos já ouviram testemunhos de pessoas que afirmam a transformação genuína de Deus. Alguns passaram pelo vale da sombra da morte, outros tiveram experiências semelhantes a de Jô, uma perca total em poucos dias. Outros, por sua vez, passam pelo processo de Zaqueu, não perdem nada, mas escolhem perder por livre vontade. Passar pelo processo de restauração divina não é fácil, mas é sempre essencial.
Algumas pessoas gostam de dizer que nunca mudaram, são as mesmas pessoas a 20, 30, 40 anos. Isso é um dado preocupante, pois o ser humano precisa passar por constantes mudanças. Ser aprimorado, moldado por Deus, e, se necessário, quebrado e refeito.

Na segunda carta aos Coríntios, nota-se um apóstolo Paulo bem diferente da primeira carta. Isso porque ele havia passado por tempos bastante constrangedores por causa da própria Igreja e, talvez, o desejo de desanimo tenha batido em sua porta. Ele havia sido questionado se, de fato, ele era um homem de Deus mesmo, questionaram o seu caráter, o seu testemunho, questionavam a liderança constituída por ele, enfim, parte da Igreja que ele havia investido tempo, empenho havia esquecido os bons tempos e queriam vê-lo fora da Igreja.
Paulo investe bastante tempo nesta carta demonstrando que não existe nada que poderá tirar dele o que foi dado por Deus. Ele entende que tudo o que aconteceu é para a glória de Deus e que Deus tem um propósito até mesmo nas diversidades. Paulo não quer desmascarar as pessoas que estavam acusando, possivelmente ele imaginava que isso o próprio tempo iria fazer, todavia queria lembrar a comunidade a se lembrar das promessas que foram escritas em seus corações.
Nessa carta fica claro o que é negar a si mesmo, carregar a sua cruz e seguir. Paulo deixa a sua alegria para testemunhar para a Igreja a importância que é servir Jesus. Ele não tem a pretensão de ensinar mais uma religião, mais preceitos e estatutos, percebe-se que Paulo quer ensinar a Igreja a viver em liberdade, a desenvolver o amor que é o vinculo da perfeição. A esperança não é num rito religioso, em um tradicionalismo sem vida e esperança, é, acima disso, uma vida voltada à Deus.
Lutar contra o 'deus dessa geração', é vencer as correntes ideológicas que estão fora e dentro da igreja. Paulo já nota que o mundo está mais presente na Igreja do que a Igreja no mundo. Logo, a preocupação de Paulo é lembrar que o Evangelho é da graça de Deus e que tudo o que é feito é por intermédio de Deus. Surge aí a temática do VASO.
Por que vaso? Talvez por sua precaridade. Por não ser algo de valor. Por não ter proteção própria ao que pode acontecer. Vaso por ser algo tratável, haja vista que se for necessário o oleiro pode refazê-lo novamente. Paulo diz que existe um tesouro em nós, diante da nossa pequenez, da ausência de força e capacidade, Deus derrama neste vaso um tesouro incalculável.
A Bíblia está repleta de citações de escolhas que Deus faz a respeito de pessoas que, segundo os critérios humanos, valiam muito pouco. O próprio Jesus passou por uma situação assim, quando Natanael pergunta se de Nazaré (João 1.46) poderia vir alguma coisa boa? A cidade de Jesus era mal vista. Por que Deus iria escolher logo Paulo (Atos 7.58)? Um exterminador de cristãos? Não tinha alguém mais bem preparado ou com uma reputação menos pior? Por que Jesus escolheu um homem tão duro como Pedro (Mc 8.31)? Ou pessoas que queria poder como João e Tiago (Mc 10.37)

Deus escolhe as coisas loucas desse mundo para confundir as sábias (1 Cor 1.27), portanto Deus escolhe vasos simples, para demonstrar a sua glória. O que podemos reter como princípios deste texto para a nossa trajetória cristã?

1 – Toda a glória é de Deus.
No verso 6 encontramos “para que a excelência do poder, seja de Deus e não nossa”, isto é, tudo o que se consegue e conquista vem de Deus. O termo 'u`perbolh.' é usado para expressões de inalcançáveis, surpreendentes (por exemplo Hiper mercado, Hiper etc..), refere-se para aquilo que não se calcula ou se pensa. Para aquilo que transcende os nossos limites. Esse HIPER será visto no PODER, 'duna,mewj', o termo poder em grego é o que origina a palavra DINAMITE e DINÂMICA. Se por um lado tem a capacidade de explosão, por outro lado, aparece a ideia de energia e vida. Tudo o que Deus faz excede os nossos limites. Isso porque tem um aspecto explosivo, mas, ao mesmo tempo, enérgico e com vida.
Como povo de Deus precisamos lembrar dessa variante constante: Toda a glória pertence a Deus. Lembrar que somos apenas um simples vaso de barro nas mãos de Deus, coloca-nos sempre em nossos lugares de servos. Se não lutarmos contra o nosso ego constantemente, somos seduzidos pelas artimanhas luciferianas, isto é, somos dominados pelo poder. Vale lembrar que “Ninguém conquista poder, o poder é que conquista alguém.”.
Na caminhada de fé, todo o dia é dia para rever. Não queremos pra si a glória de Deus. Quando ia iniciar no seminário, uma senhora da Igreja do Jabaquara pediu para conversar comigo. A grande preocupação dela era de que eu não me esquecesse de onde eu estava saindo. Não esquecer da origem, não esquecer que sou um vaso de barro de pouco valor e que recebo um presente incontável, imensurável. Tudo é de Deus. Tudo pertence a Deus.
Como Igreja somos desafiados à uma vida de constante vigilância, pois, não poucas vezes, os atalhos da Igreja são diferentes dos caminhos de Deus. Normalizamos os rótulos, títulos e status e perdemos a dimensão do Temor-do-Senhor.

2 – As Evidências não podem superar a expectativa da Providência.
Paulo aponta pelo menos 5 circunstâncias evidentes da vida que, sem sombra de dúvidas, são motivos suficientes para postergar, desistir da fé. Vemos um pouco de humor e irônia:
a) atribulados (afligidos), mas não angustiados (imobilizados);
O coração aflito gera uma sensação interminável de dor. O salmista já dizia que “Porque estou aflito e necessitado e, dentro de mim, sinto ferido o coração.” (Sl 109.22), essa sensação tem a tendência de gerar uma angustia interminável. Ou trazer mais abismos, lembrando 'um abismo chama outro abismo' (Sl 42.7). Mas, mesmo em situações assim, Paulo lembra que ele não está imobilizado. Não está parado. Não desistiu da vida, pois a primeira coisa que tendemos a fazer é desistir (desistir e sempre mais fácil). A tribulação apareceu, a aflição apertou o coração, só que elas não podem cessar ou parar a trajetória de fé da comunidade. Mesmo com tudo ao avesso não somos chamados para ficarmos parados, pelo contrário, Deus nos chama para um movimento.
b) Perplexos, mas não desanimados (desesperados);
Para muitas coisas que acontecem não temos explicações. Não entendemos porque gente fina morre cedo, e gente ruim vive muito. Não entendemos porque existem crianças sofrendo, não entendemos o porque de muitas coisas, ficamos atônitos, indecisos sem saber o que fazer. Oramos a Deus e parece que Ele não responde a nossa oração “Atende-me e responde-me; sinto-me perplexo em minha queixa e ando perturbado” (Sl 55.2). Mesmo assim, não podemos perder o ânimo ou cair em desespero. Diante das mais tensas dúvidas, nossos olhos precisam estar fitos no Senhor (2 Crô 20.12). O desespero e desanimo são bons caminhos para o fracasso existencial.

c) Perseguidos, mas não desamparados (abandonados);
Jesus já nos lembra que “Bem aventurado os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus.” (Mt 5.10). A sensação de ser perseguido não é boa. Gera uma sensação de abandono (Salmo 22.1), há também a ideia de que talvez esteja seguindo o propósito errado, que tudo está conspirando contra, etc. Paulo alerta que diante das maiores perseguições nunca estaremos abandonados. Deus é aquele que cuida, uma metáfora utilizada pela Bíblia é da Galinha que protege seus pintinhos debaixo da asa (Mt 23.37). Deus não permite que os seus filhos mendigue o pão (Sl 37.25). Nunca seremos abandonados por Deus.

d) Abatidos (derrubados), mas não destruídos;
Na roça temos o costume de dizer que quando vai matar o boi, diz que ele foi abatido. Temos a tendência de perguntar a Deus “por que está abatida, ó minha alma” (Sl 42.5), por que temos a sensação de derrota e fracasso? Sentimos que diante de tanto esforço não saímos do lugar, pelo contrário, decaímos e andamos pra trás. Nessa direção Paulo lembra que não somos destruídos. Temos que ter em mente que maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo (1 Jo 4.4), se sentimos que estamos embaixo, Deus nos levantará.

e) Levando a morte de Jesus, para viver a vida de Jesus.
O texto afirma que Paulo leva a morte de Jesus. Hoje o que se mais ouve são aquelas pessoas que levam a vitória, a restauração, a restituição, mas poucos querem levar a morte de Jesus. Domesticamos o EVANGELHO ao igualá-lo à uma mensagem de auto ajuda. A mensagem que a Igreja não pode esquecer de anunciar é a morte de Jesus. Não só a morte, mas o que precede: a Ressurreição:
Levar a morte envolve andar na contra mão do mundo.
Levar a morte é dizer não à padrões tão rotineiros do dia a dia.
Levar a morte é afirmar que houve um justo que padeceu por toda a humanidade para dar vida, e vida em abundância para todas as pessoas que assumirem caminhar com ele. Essa mensagem é a única que gera VIDA! Essa é a mensagem central da Bíblia!
Portanto, as evidências de tribulação, perplexidade, perseguição, derrota são definidas por Paulo como 'leve e momentânea tribulação', logo é passageira. E por ser passageira não podemos trocar o eterno por aquele que está fadado ao fim. Lembrar do amor incomensurável de Jesus dia após dia que é visto e vivido em sua graça que se multiplica. Essa convicção de que o mesmo Deus que agiu no passado e surpreendeu as nossas expectativas, será o Deus que derramará sobre nós o seu poder e seremos prova viva do Deus invisível!

A vida é passageira e transitória. A vida começa e termina rápido, e por isso vale a pena não desistir do Evangelho. A tribulação no pensamento paulino é aquilo que gera experiência (Rm 5.3), é aquilo que alimenta a nossa certeza da vida com Cristo. É na tribulação que é provada nossa perseverança, essa, pra mim, mãe de toda virtude.
Os momentos tenebrosos refletem o nosso caráter mas moldam o nosso caráter.
Ao passo que nos apegamos as coisas que se vêem, deixamos escapar por entre os dedos as coisas que não se vêem. Essas são eternas. As provações, medos, inseguranças, temores e tantas coisas mais são sinais perceptíveis de que alguma coisa Deus fará em favor daqueles que ele ama.

Por fim, notamos que somos falíveis, simples como vasos de barro, e que diante da nossa pequenez não podemos nos intimidar com as provações que sempre apareceram! As evidências não podem superar nossa esperança na providência que Deus trará! Somos vasos nas mãos do oleiro, pessoas sensíveis para o tratamento divino. Nessa direção acreditamos na ação de Deus que não desiste do seu povo.

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