O
profeta Miquéias é interessante porque sua denuncia abrange tanto o reino do
Norte como do Sul. É um profeta descrito num tempo específico, isto é, no reinado
de Jotão, Acaz e Ezequias, reis do norte e do sul. Miqueias morava em uma
região sudoeste de Judá, contudo o seu ministério abrangia os dois povos.
Como
os demais livros, Miquéias não pode ser lido apenas em seus fragmentos. Por
mais que seus fragmentos sejam bastante animadores, são partes que precisam
dialogar com o todo do livro, por exemplo 6.8:
“8 Ele
te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que
pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu
Deus.”
Um
texto que anima a pessoa a praticar a justiça, amar a misericórdia e andar com
humildade. Cada ação é movida por um verbo. Mas por que o profeta pede para
praticar, amar e andar com essas virtudes? O que estava em jogo? Outro trecho
bastante bonito é 7.18-20:
“18
Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniqüidade e te esqueces da
transgressão do restante da tua herança? O SENHOR não retém a sua ira para
sempre, porque tem prazer na misericórdia. 19 Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos
pés as nossas iniqüidades e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do
mar. 20 Mostrarás a Jacó a fidelidade e a Abraão, a misericórdia, as quais
juraste a nossos pais, desde os dias antigos.”
O
profeta, no fim do livro, descreve um pouco sobre Deus: um caráter perdoador,
que não tem prazer em ver o povo se perdendo, mas tem alegria em perdoar e agir
de modo misericordioso, isto é, dar aquilo que as pessoas não mereciam, mas por
amor Deus faz. É, sem sombra de dúvidas, um texto muito bonito, animador,
porém, quais foram as circunstâncias que levaram o profeta a escrever?
Em
primeiro lugar, Miquéias denuncia que não existe uma liderança ou um povo que
se esforça em agradar a Deus, ao contrário disso, o povo esta perdido e
pervertido.
Existem
pessoas gananciosas e oprimem o povo. São pessoas que maquinam o mal no
travesseiro e cumprem o que pensou quando o dia inicia (2.1-2). São pessoas que
não tem controle para o que desejam! São descontrolados e não avaliam a
destruição que causam na vida do povo.
Além
de criticar as pessoas que tem poder e privilégios, o profeta denuncia com
veemência os falsos profetas e os sacerdotes da mentira. Existem pessoas que
aborrece o bem e aplaude o mal (3.2).
Muito
parecido nos dias atuais, existiam profetas que conduziam o povo ao erro, ao
pecado. Para pessoas que lhe dão o que comer, o profeta tem palavras doces e de
paz, todavia, para pessoas que não o que dar para os profetas, são julgadas e
condenadas, mesmo inocentes.
O
profeta afirma que está cheio do poder de Deus para denunciar aquelas pessoas
que, em nome de Deus fazem barbaridades (3.8). Não dá para fazer tal afirmação
de qualquer forma, ao contrário, é preciso muito discernimento, temor e tremor
diante de Deus, pois é em nome d’Ele que se fala.
O
profeta, com a convicção do seu chamado levanta a sua voz contra todas as
estruturas de destruição. Miquéias nos ensina a importância de saber da certeza
da sua experiência com Deus, da certeza e convicção para o que foi chamado. Ele
sabia que o impacto de sua voz não estava em suas palavras veementes, ao
contrário disso, o poder de suas palavras estavam no Espírito de Deus que
estava sobre ele.
Miqueias
fala contra os cabeças, que abominam o juízo, o que é certo, o que é bom, em
favor de si mesmos, além de perverter o correto. Suas edificações são a base do
sangue e da perversidade, um progresso demoníaco e distante de ter relação com
a expansão de Deus.
Isso é
interessante pois, num tempo em que a prosperidade é destacada como bênção, o
profeta refuta esse pensamento, haja vista que o crescimento não pode se dar a
qualquer preço.
O
suborno ainda era algo presente na vida do povo. Não havia o que era justo, o
certo, toda decisão era corrompida às vontades pessoais e próprias – muito
parecido ao dias atuais em que decisões são alteradas devido a suborno.
Há uma
forte crítica aos sacerdotes, aquelas pessoas responsáveis em conduzir o povo à
uma profunda espiritualidade com Deus, eles estavam fazendo tudo não por
vocação ou chamado, ao invés disso, por interesses: o que ele estava ganhando,
o que ele teria em troca, quais eram os benefícios disso tudo, enfim,
sacerdotes do mal.
Não
diferente disso, os profetas viviam a mesma dinâmica, adivinhavam por dinheiro.
Sua resposta sairia na proporção do que se pudesse pagar. O pior de tudo era
dizer que o que estava fazendo era sobre a orientação de Deus (3.11).
O
profeta é categórico em afirmar que por causa dessas posturas o povo seria
lavrado, tirado, limpado, extirpado, lembrando muito o reinado de Jeroboão I e
II quando se relata que Deus poderia limpar o nome da terra, acabar com aquele
povo, mas por misericórdia não o fez.
Existe
um discurso de que o povo será chamado. Não qualquer povo, principalmente
aqueles que sofreram, os que usurparam do seu poder e não fizerem o que
deveriam fazer, cairão por terra e serão extirpados. Deus, por sua vez, chamara
aqueles que nunca teriam lugar, os que mancam e os que foram exilados e
sofreram grandes abusos (4.7).
Fica
claro que os grandes governantes não sabem ou não conhecem quem de fato é Deus.
Nos versos 4.12-13 o profeta deixa claro a soberania de Deus e esse pequeno
trecho é o início de uma profecia messiânica, a qual descreve, com maestria, a
vinda do messias que mudará as circuntâncias. Por mais que os tempos fossem
outros, e o problema fosse emergencial, o profeta não despreza a importância de
buscar em Deus e na espera do seu salvador! Ele crê, denunciando e anunciando.
O
capítulo 5 detém tempo falando sobre o messias, nas suas características no que
ele fará a favor do povo e que o povo não pode desistir, ao invés disso,
persistir em seus sonhos e na ideia da liberdade para um dia viver em
liberdade.
Agora
os demais versos citados a cima fazem sentido, principalmente quando são vistos
em diálogo com o julgamento dos
perversos e, ao mesmo tempo, esperança para aqueles que esperam em Deus. Deus é
aquele que lança o pecado nas profundezas do mar e dá nossa chance de vida e
esperança. Estudar os profetas menores nos faz entender que a vida por pior que
esteja, com Deus ainda há alternativas.
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