quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Abaixo a Monarquia: Exegese de 2 Reis 14.23-29

[parte de esforço exegético apresentado em Congresso Científico]


1 Texto
23 Em ano cinco dez ano de Amazias filho de Joás rei de Judá reinou Jeroboão Filho de Joás rei de Israel em Samaria quarenta e um anos. 24 E fez o mal aos olhos de YHWH não desviou de todos os pecados de Jeroboão filho de Nabat que fez pecar a Israel. 25 ele fez voltar a fronteira Israel de entrar (para/desde) Hamat até o mar de a Arabá como palavra de YHWH elohim de Israel que disse pela mão de seu servo Jonas filho de Amitai o profeta que de Gat hefer 26 Eis que viu YHWH pobreza de Israel amargura muita e ninguém escravo e ninguém livre e não havia socorro para israel. 27 E não falou YHWH limpar nome de Israel embaixo dos céus e salvou por mão de Jeroboão filho de Joás. 28 E restante de palavras/feitos de Jeroboão o todo que fez e seu poder que conduziu a batalha e que fez voltar Damasco e Hamat para Judá em Israel não (estão) eles escritos sobre livro dos feitos dos dias dos reis de Israel? 29 E deitou-se Jeroboão com os seus pais com reis de Israel e tornou-se rei Zacarias seu filho em seu lugar.

A perícope selecionada é 2 Reis 14.23-29, mesmo com poucos versículos é um texto com uma estrutura bem definida. Vale dizer que este texto está inserido num bloco maior que é o capítulo 14 de 2 Reis. Seguindo a lógica do livro, todo o capítulo 14 descreve a sucessão de reis tanto do sul como do norte. A diferença é que nesse trecho, existe um movimento de expansão e de conquistas do Reino do Norte. Aparentemente é uma descrição de evolução, todavia, ao analisar todo o bloco, percebe-se que esse desenvolvimento foi o início da destruição do Norte.
Voltando a delimitação do texto de 2 Reis 14, o verso 23 carrega elementos que indicam o início da perícope, como, por exemplo, a frase inicial que anuncia o início de um novo tempo, de um novo reinado. Os atuantes dessa perícope são outros (o pai de Jeroboão II, o profeta Jonas e Zacarias). Essa perícope tem seus argumentos peculiares, sendo eles: o mal caminho de Jeroboão II; a expansão de seu território; o estado de desgraça do povo; Deus e o profeta.
Nota-se os elementos que indicam o término da perícope no verso 29. Já no verso 28 aparece a resolução da ação dos personagens, neste caso Jeroboão II. A reafirmação da conquista e expansão de seu território (possivelmente um elemento muito importante para o autor). Há a descrição da morte de Jeroboão II e quem o sucedeu, numa clássica função terminal de uma perícope. Vale ressaltar que no capítulo 15, o tema desenvolvido não tem relação direta com Jeroboão, por mais que apareça o nome dele, é outro assunto, específico ao rei Azarias. Essa é uma perícope com começo, meio e fim e que trata de um tema específico que é o reinado de Jeroboão II e a forma como seu império, na perspectiva do autor, desenvolveu-se.

Nota-se que essa perícope é uma narrativa, ao passo em que se considera o contexto vivencial, percebe-se que a preocupação do narrador é descrever como foi o início, desenvolvimento e término do rei em questão. É notório a preocupação do autor em descrever o que ficou na consciência do povo, a saga que ficou conservada na memória do povo. Outro elemento presente em uma narrativa é o seu viés etiológico, isto é, a pretensão do autor em descrever um fato extraordinário ou um evento que acontecera. O reinado de Jeroboão II não foi irrelevante, afinal de contas, foi nesse reinado em que houve a maior expansão do território além da situação de extrema miséria em que o povo vivia.
As narrativas, principalmente as escritas nos livros ‘históricos’, possuem um caráter de anais ou historiográficos, esse texto possui essa variante, ao passo que relata com precisão dados de Jeroboão II e do seu reinado. Não pode desprezar o viés mítico que essa narrativa tem ao passo que a divindade é vista como aquela que pode ou não eliminar/limpar uma nação, aponta a relação com esta divindade, no caso, YHWH.

I – Início do reinado de Jeroboão II [v.23];
a) Data do Reinado;
b) Genealogia;
c) Tempo do Reinado.
II – Descrição do reinado de Jeroboão II [v.23-27];
a) Pecado de Jeroboão I;
b) Progresso do Reino;
c) Pobreza e restauração de Israel.
III – Fim do reinado de Jeroboão II [v.28-29].
a) Descrição de sua ‘principal’ conquista;
b) Morte e sucessão monarquica

Numa breve explicação da subdivisão do texto vale destacar que no primeiro verso o autor segue o modelo do livro de Reis, especialmente o padrão do reinado do norte, em que descreve a data do Reinado, a genealogia do monarca, isto é, qual a dinastia que terá sequência no império e quanto tempo ele permaneceu no poder.
Em seguida aparece a descrição do reinado de Jeroboão II. Tem-se a ideia de que o autor descreve os feitos que ficaram no imaginário do povo. O primeiro fato destacado é a continuação dos pecados de Jeroboão I, por mais que Jeroboão II tenha persistido nos mesmos erros de Jeroboão I, seu império foi marcado por um tempo de expressivo progresso e expansão de modo considerável, contudo, ao mesmo tempo em que havia progresso, houve grande tempo de pobreza sobre o povo, isto é, a camada mais pobre. O autor aponta que até por meio deste monarca YHWH salvou Israel, será que o autor tem a perspectiva de que Deus pode mudar a história do povo nas piores condições políticas? É apenas um viés teológico?
Por fim, seguindo o clássico modelo dos anais dos reis, o autor descreve o final do reinado de Jeroboão II. Há a descrição de, possivelmente, sua maior conquista, seus atos que ficaram nas crônicas dos reis, aonde foi sepultado e, por fim, quem foi o seu sucessor no reino. Esse molde padrão é percebido em todas as descrições para os reis do Norte. Uma estrutura concisa, sólida e bem organizada.

O texto bíblico demonstra a dificuldade em desvincular as diversas áreas que permeiam a vida. Esta perícope retrata um pouco sobre isso. O Contexto histórico dela é marcado por um grande índice de desenvolvimento do povo. O monarca deste período é Jeroboão II, entretanto este rei é vinculado com Jeroboão I, além do mesmo nome o autor bíblico afirma que eles tinham muitas semelhanças.
Jeroboão I assume o reinado após a morte de Salomão. Divide o povo, legitima seu poder em uma profecia. Jeroboão I altera o polo religioso para Siquém, Região montanhosa de Efraim, constrói dois bezerros de ouro e coloca um em Betel e outro em Dã, dando a estes bezerros os créditos da libertação do Egito, possivelmente o povo vivia um tempo de crise de identidade religiosa. Estabeleceu os seus próprios sacerdotes, inaugura um tempo de profundo sincretismo religioso.
Jeroboão I tornou-se paradigma para reis rejeitados pelo autor do livro de Reis. Toda vez que o nome de Jeroboão I é retomado é sempre num sentido de morte para os reis que estão em voga. É um nome que prediz a morte ou num sentido de que o rei esta afastado da vontade de Deus, dos caminhos de Deus (1 Rs 15.29-30; 15.34; 16.2-3; 16.7; 16.19; 16.26; 16.31; 21.22; 22.53; 2 Rs 3.3; 9.9; 10.29; 10.31; 13.2; 13.6; 13.11.). Jeroboão II é descrito como um rei que seguiu os passos de Jeroboão I.
Jeroboão II foi um monarca muito importante porque contribui significativamente para um tempo de prosperidade e abundância do povo. Foi um tempo em que Israel conseguiu se destacar significativamente, “podemos constatar que a maior desgraça do Reino de Israel – e a causa de sua destruição e do exílio de muitos do seu povo – foi que ele floresceu muito bem, como um reino independente à sombra de um grande império.[1]. Período de proeminência que possibilitou que o estado gozasse de muita riqueza, como segue:
É no auge da prosperidade do reino do norte, sob o governo de Jeroboão II, que nós podemos identificar, afinal, a totalidade dos critérios do Estado organizado: alfabetização, administração burocrática, produção econômica especializada e um exército profissional. É também o período do qual temos o primeiro registro de reclamação profética. Os oráculos de Amós e Oséias são os primeiros livros de profecias preservados, contendo material que reflete o apogeu de profecias preservados, contendo material que reflete o apogeu de Jeroboão II. [2].

Num primeiro momento, parece que o povo desfrutava de um tempo de prosperidade, porém, ao ler os indícios apontados por outros textos, enquanto uma parte de Israel desfrutava de luxo, poder e prosperidade, a maior parte do povo era oprimido e assolado para poder manter a vida dos ricos.
Jeroboão II foi rei do Norte por 41 anos. Pouco se fala desse monarca na Bíblia Hebraica. Parece que há certa resistência quanto ao seu governo. O que não se pode negar é seu papel de gestor ‘bem sucedido’ e general sanguinário, como segue:
Jeroboão II é da dinastia de Jeú, um general que – com algumas boas intenções e por meio de muitos massacres (cf. Os 1.4; 3 Rs 9-10) – galgou o poder em 842. Jeroboão II mostrou serviço. Atesta-o seu longo governo de quarenta e um anos, desde 787 até 746. Os anais, citados em 2 Rs 14.23-29, nos dão uma ideia de seus grandes ‘sucessos’. Ampliou as fronteiras de Israel. Impôs o interesse do Estado israelita em Damasco e em Emat, vizinhos ao norte. No sul, alargou as fronteriras até o Mar Morto. Não é possível que os Estados de Damasco e Emat tenham sido mantidos sob ocupação, durante todo o governo de Jeroboão. Afinal, de acordo com Am 1.3-13; 6.13 houve lutas fronteiriças em Galaade (na Transjordânia). Nesses combates muitos civis foram massacrados, “trilhados com trilhos de ferro” (Am 1.3).[3]
A ampliação das terras, do norte (Damasco e Emat) até o Sul (Mar Morto) feitas por Jeroboão tinham objetivos específicos. Jeroboão II poderia intervir nas rotas comerciais e garantir, assim, o pagamento dos altos tributos. O monarca possuía o monopólio das principais vias fazendo com que “comerciantes egípcios e mesopotâmicos necessariamente passavam pela Planície de Jezrael, um verdadeiro entroncamento comercial[4], sua estratégia fazia com que as rotas comerciais e a arrecadação de tributos não saíssem de seu controle.
O reinado de Jeroboão II teve grande progresso na área agrícola e pelo grande crescimento populacional. As áreas montonhosas ao redor de Samaria foram escolhidas para o cultivo de olivais, segundo Finkelstein “os famosos óstracos de Samaria – coleção 63 cacos de cerâmica inscritos com tinta em hebraico e datados, admite-se, da época de Jeroboão II – registram o carregamento e o embarque de azeite e de vinho pelas aldeias ao redor da cidade de Samaria, a capital.”[5]. Grande parte dessas negociações fincava-se nas trocas que geravam grande prejuízo para Israel, o qual, para compensar o prejuízo, tinha que oprimir, subjulgar a camada mais pobre a fim de que ela produzisse muito mais, além do trabalho forçado o povo tinha que pagar tributos que segundo Schwantes “tão somente serviam para satisfazer a ganância e a luxúria dos ricos [6]. Dentro da complexidade de administrar tanto cidade como campo, Jeroboão enfatizava a coleta dos tributos para conseguir manter sua capital, Samaria – este foi um dos grandes desafetos dos profetas. Além do que o movimento agrícola ajudava em sua expansão da negociação internacional.
Outro elemento interessante na economia desenvolvida por Jeroboão II são os indícios de ter sido um grande criador e adestrador de cavalos. O cavalo era um dos produtos mais apreciados e valorizados no reino do Norte. Essa teoria dava margem para que Jeroboão II tenha fornecido cavalos adestrados para os povos da Assíria.
Sem sombra de dúvidas é uma teoria muito interessante. Durante um tempo foi questionada, pois os objetos encontrados tinham quase nenhuma relação com bigas, porém, com descobertas arqueológicas essa refutação perdeu força, pois há possibilidade de Jeroboão II, sim, ter sido um adestrador de cavalos, como segue:
Graças ao processo de estabelecer outras datas para o estrato de Megiddo – e a reavaliação da história arqueológica do reino do norte – agora podemos rejeitar as teorias anteriores e afirmar com segurança que as estruturas que parecem estábulos em Megiddo pertencem à época de Jeroboão II. Muito embora ACab tenha mantido razoável força de bigas, ele construiu os grandes palácios em Megiddo que precedem o nível dos ‘estábulos’ (apesar de alguns estudiosos sugerirem que essa cidade, apenas escavada em parte, tivesse estábulos também). Mas relacionar os ‘estábulos’ da Jeroboão II não resolve o problema sobre a sua função. [7].
Há a possibilidade de Jeborão II ter desenvolvido projetos públicos, não apenas em Meguido, mas “também a construção de Hazor, como fortaleza, nos terrórios retomados dos arameus e a reconstrução da cidade de Gezer, posto avançado estratégico do reino do Norte, na froteira com Judá e a Filistéia” [8].
É importante o fato de Jeroboão II seja o mais antigo monarca de Israel que se encontrou um selo oficial [uma espécie de leão], esse dado revela indícios da memória do povo a respeito de Jeroboão II: monarca que por meio da usurpação aos pobres conseguiu expressivo crescimento para as camadas ricas utilizando de alianças e conexões internacionais, além de grandes construções e edificações.
Samaria foi um ponto estratégico para todo esse desenvolvimento do império de Jeronoão II. O território de Samaria não foi escolhida aleatoriamente, ao contrário disso, uma região situada na rota Sul/Norte, no acesso Leste/Oeste não dá bom acesso. Uma região melhor protegida do que Siquém e/ou Tirza, militarmente uma região mais fácil para ser protegida. Quando Omri passou a dar destaque para Samaria nota-se um possível interesse de ligações especiais de origem, além das relações comerciais. Todavia é certo que Samaria era um bom exemplo de capital na época do ferro II, isto é, um estado não depende só de uma cidade como acontecia na época do Bronze. Cada cidade dá sua contribuição, auxilia do desenvolvimento, contudo a capital precisava de segurança, como descreve o Professor Schwantes:
A capital obviamente deve ser segura, pouca exposta aos avanços de inimigos. Não necessita estar no melhor lugar comercial, pois este não se perde para o Estado. Quando Onri foi para o monte da Samaria, não desprestigiou Siquém como núcleo comercial. A Samaria segura, no alto, mais fácil de ser defendida que Siquém, um núcleo urbano concebido nos tempos do bronze, cumpria, pois, seu papel em colaboração com os demais centros de poder. Onri fez de Samaria a capital dentro dos moldes de um estado territorial.[9]
Jeroboão II se utiliza bem desses elementos estratégicos para fortalecer seu império. Por mais que Samaria fosse a capital e gozasse de boa segurança, a mesma rota que levava os cerais, óleo, cavalos e os demais produtos foram os mesmos caminhos que trouxeram os soldados assíricos, desencadeando na ruína de Samaria, tragédia tal que Israel do Norte nunca mais conseguiu se reestabelecer.
Para os olhos externos Israel vivia um tempo de grande progresso, mas para o povo, era um tempo de miséria, destruição e ausência de referência religiosa. Por mais que a religiosidade fosse um elemento importante dentro deste imaginário religioso, ela exercia poder apenas ao que se refere tributário. A religiosidade era violenta e recebe fortes críticas dos profetas, pois era inescrupulosa em seu processo de arrecadação, há, segundo Schwantes, 3 principais causas: causa interna (manter o sistema militar e os custos administrativos); causa externa (Jeroboão II pagava tributos para poder manter suas relações internacionais de negócios); e a elite de Israel (manter uma vida de luxo e de extravagância) [10].
Esse movimento religioso desperta nos profetas (Amós e Oséias) fortes críticas ao império de Jeroboão II. Um ponto de forte crítica é o sistema opressivo de arrecadação e opressão ao povo; outro elemento de forte crítica dos profetas é que havia grande incentivo dos ritos de fertilidade, tanto humano como de produção agrícola. Ambos eram muito valiosos e determinantes para o progresso de Jeroboão II.
Com o a morte de Jeroboão II todo o seu império, por mais expressivo e desenvolvido que tenha sido a sua época, apresentou-se frágil e sem condições de continuidade do reinado. “O progresso jeroboânico foi, sem sombra de dúvidas, o túmulo do povo e de Israel. A deterioração das condições de vida do povo era palpável em toda parte. Schwantes descreve que a “violência e maus-tratos, religiosidade formalista e templos interesseiros, enriquecimento fácil e suborno, enfim a justiça transformada em veneno e o caos social dominavam a cena. [11]. O povo transitou de um tempo de profundo desenvolvimento e prosperidade para um período de instabilidade e calamidade, sem condições para enfrentar algumas mazelas.

O autor bíblico destaca, mesmo que em poucas linhas, a grande expansão do território de Jeroboão II. Sem sombra de dúvidas um tempo de grande progresso e evolução. Na atualidade o reinado de Jeroboão II seria arquétipo de uma nação bem sucedida, de um ministério bem aventurado, afinal de contas conseguiu expandir não apenas o território, mas suas aquisições e o povo. Segundo o texto bíblico esse progresso e tempo de prosperidade foi a anti-sala da maior catástrofe do povo de Israel. Logo, nem todo progresso, crescimento, expansão é sinal de bênção.
Na contemporaneidade há uma grande ânsia em conquistar, expandir, crescer e ter. Isso tudo a qualquer preço, a qualquer custo. Não se ponderam os riscos, os valores. Jeroboão II retratada bem pessoas que não calculam o estrago que causam na vida de outras pessoas por serem insaciáveis em seus desejos egocêntricos. O povo vivia em miséria, numa pobreza intensa, não dava para distinguir quem era livre ou escravo, não havia salvação para o povo porque quem retinha o poder não se compadecia.
Não é diferente nos dias atuais. Existem muitos líderes que a qualquer preço tentam expandir suas negociatas, independente se religiosos, estatais ou empresariais. São dominadores que possuem legitimidade religiosa e que colocam deus em seus grandes empreendimentos, sempre com uma boa desculpa. Apertam o povo para tirar o máximo que puder. Ensinam o povo a fazer o que é mal e a ter uma má religiosidade, uma espiritualidade baseada na troca, nos bens, nas coisas. Ensinam que a divindade precisa se dobrar diante do novo senhor por meio de trocas justas.
Distinguir o falso profeta do verdadeiro não é fácil. Perceber quais são os motivos ou os resultados da predileção de um profeta, pode ajudar a discernir. Ponderar o que está em jogo, o que o profeta ganha com tudo isso auxilia numa percepção clara.
Em tempos contemporâneos o que não faltam são profetas que venderam as bênçãos em favor de trocas, poder, status, dinheiro, posses. “Nem todo o que diz Senhor, Senhor entrará no reino dos céus” (Mt 7.21ss). Há uma repulsa por parte do autor bíblico deste monarca. O que para uma sociedade pode representar normalidade, progresso e prosperidade, para o autor bíblico é o primeiro passo de uma desgraça irreparável. Ter sensibilidade para não confundir bênção com maldição passa não por trilhos de ferro (Am.13), sobretudo, por caminhos da coerência e da solidariedade.


[1] FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: Editora Girafas, 2, p. 270.
[2] FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: Editora Girafas, 2, p. 291.
[3]     SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p.15.
[4] SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p.15-16.
[5] FINKELSTEIN, p. 284.
[6] SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p. 21.
[7] FINKELSTEIN, p. 288-289.
[8] FINKELSTEIN, p. 286.
[9]     SCHWANTES, Milton. As monarquias no Antigo Israel: um roteiro de pesquisa histórica e arqueológica. São Leopoldo: Centro de Estudo Bíblicos, 2006, p. 54-56.
[10] Cf. SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p. 23-24.
[11] SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p. 28.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Miqueias

[série profetas menores na IM em Guaianases - sintese]


O profeta Miquéias é interessante porque sua denuncia abrange tanto o reino do Norte como do Sul. É um profeta descrito num tempo específico, isto é, no reinado de Jotão, Acaz e Ezequias, reis do norte e do sul. Miqueias morava em uma região sudoeste de Judá, contudo o seu ministério abrangia os dois povos.
Como os demais livros, Miquéias não pode ser lido apenas em seus fragmentos. Por mais que seus fragmentos sejam bastante animadores, são partes que precisam dialogar com o todo do livro, por exemplo 6.8:
“8 Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.”
Um texto que anima a pessoa a praticar a justiça, amar a misericórdia e andar com humildade. Cada ação é movida por um verbo. Mas por que o profeta pede para praticar, amar e andar com essas virtudes? O que estava em jogo? Outro trecho bastante bonito é 7.18-20:
“18 Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniqüidade e te esqueces da transgressão do restante da tua herança? O SENHOR não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia.  19 Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniqüidades e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. 20 Mostrarás a Jacó a fidelidade e a Abraão, a misericórdia, as quais juraste a nossos pais, desde os dias antigos.”
O profeta, no fim do livro, descreve um pouco sobre Deus: um caráter perdoador, que não tem prazer em ver o povo se perdendo, mas tem alegria em perdoar e agir de modo misericordioso, isto é, dar aquilo que as pessoas não mereciam, mas por amor Deus faz. É, sem sombra de dúvidas, um texto muito bonito, animador, porém, quais foram as circunstâncias que levaram o profeta a escrever?
Em primeiro lugar, Miquéias denuncia que não existe uma liderança ou um povo que se esforça em agradar a Deus, ao contrário disso, o povo esta perdido e pervertido.
Existem pessoas gananciosas e oprimem o povo. São pessoas que maquinam o mal no travesseiro e cumprem o que pensou quando o dia inicia (2.1-2). São pessoas que não tem controle para o que desejam! São descontrolados e não avaliam a destruição que causam na vida do povo.
Além de criticar as pessoas que tem poder e privilégios, o profeta denuncia com veemência os falsos profetas e os sacerdotes da mentira. Existem pessoas que aborrece o bem e aplaude o mal (3.2).
Muito parecido nos dias atuais, existiam profetas que conduziam o povo ao erro, ao pecado. Para pessoas que lhe dão o que comer, o profeta tem palavras doces e de paz, todavia, para pessoas que não o que dar para os profetas, são julgadas e condenadas, mesmo inocentes.
O profeta afirma que está cheio do poder de Deus para denunciar aquelas pessoas que, em nome de Deus fazem barbaridades (3.8). Não dá para fazer tal afirmação de qualquer forma, ao contrário, é preciso muito discernimento, temor e tremor diante de Deus, pois é em nome d’Ele que se fala.
O profeta, com a convicção do seu chamado levanta a sua voz contra todas as estruturas de destruição. Miquéias nos ensina a importância de saber da certeza da sua experiência com Deus, da certeza e convicção para o que foi chamado. Ele sabia que o impacto de sua voz não estava em suas palavras veementes, ao contrário disso, o poder de suas palavras estavam no Espírito de Deus que estava sobre ele.
Miqueias fala contra os cabeças, que abominam o juízo, o que é certo, o que é bom, em favor de si mesmos, além de perverter o correto. Suas edificações são a base do sangue e da perversidade, um progresso demoníaco e distante de ter relação com a expansão de Deus.
Isso é interessante pois, num tempo em que a prosperidade é destacada como bênção, o profeta refuta esse pensamento, haja vista que o crescimento não pode se dar a qualquer preço.
O suborno ainda era algo presente na vida do povo. Não havia o que era justo, o certo, toda decisão era corrompida às vontades pessoais e próprias – muito parecido ao dias atuais em que decisões são alteradas devido a suborno.
Há uma forte crítica aos sacerdotes, aquelas pessoas responsáveis em conduzir o povo à uma profunda espiritualidade com Deus, eles estavam fazendo tudo não por vocação ou chamado, ao invés disso, por interesses: o que ele estava ganhando, o que ele teria em troca, quais eram os benefícios disso tudo, enfim, sacerdotes do mal.
Não diferente disso, os profetas viviam a mesma dinâmica, adivinhavam por dinheiro. Sua resposta sairia na proporção do que se pudesse pagar. O pior de tudo era dizer que o que estava fazendo era sobre a orientação de Deus (3.11).
O profeta é categórico em afirmar que por causa dessas posturas o povo seria lavrado, tirado, limpado, extirpado, lembrando muito o reinado de Jeroboão I e II quando se relata que Deus poderia limpar o nome da terra, acabar com aquele povo, mas por misericórdia não o fez.
Existe um discurso de que o povo será chamado. Não qualquer povo, principalmente aqueles que sofreram, os que usurparam do seu poder e não fizerem o que deveriam fazer, cairão por terra e serão extirpados. Deus, por sua vez, chamara aqueles que nunca teriam lugar, os que mancam e os que foram exilados e sofreram grandes abusos (4.7).
Fica claro que os grandes governantes não sabem ou não conhecem quem de fato é Deus. Nos versos 4.12-13 o profeta deixa claro a soberania de Deus e esse pequeno trecho é o início de uma profecia messiânica, a qual descreve, com maestria, a vinda do messias que mudará as circuntâncias. Por mais que os tempos fossem outros, e o problema fosse emergencial, o profeta não despreza a importância de buscar em Deus e na espera do seu salvador! Ele crê, denunciando e anunciando.
O capítulo 5 detém tempo falando sobre o messias, nas suas características no que ele fará a favor do povo e que o povo não pode desistir, ao invés disso, persistir em seus sonhos e na ideia da liberdade para um dia viver em liberdade.
Agora os demais versos citados a cima fazem sentido, principalmente quando são vistos em diálogo com o julgamento  dos perversos e, ao mesmo tempo, esperança para aqueles que esperam em Deus. Deus é aquele que lança o pecado nas profundezas do mar e dá nossa chance de vida e esperança. Estudar os profetas menores nos faz entender que a vida por pior que esteja, com Deus ainda há alternativas.



domingo, 21 de outubro de 2012

Discipulado: Um processo de vida!


35 Então, se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos que nos concedas o que te vamos pedir.  36 E ele lhes perguntou: Que quereis que vos faça? 37 Responderam-lhe: Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda. 38 Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis.43 Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva;  44 e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos.  45 Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

O Evangelho de Marcos tem características próprias, isto é, é um texto curto em relação aos demais evangelhos, além de mostrar alguns estados que, por vezes, passam desapercebido diante do leitor.
Essa perícope lida está no fim de um bloco em que Jesus quer ensinar para os seus discípulos, por meio da cura e da restauração de algumas pessoas, Jesus quer destacar os principais pontos no ato de servi-lo.
Em 9.38-41 aparece que os discípulos haviam feito uma panelinha, não se admitia alguém que não pertencesse ao grupo. Era rejeitados. Igreja não é lugar exclusivistas para algumas pessoas. Normalmente quando a igreja se basta ou se fecha em si mesma ela esqueceu os seus principais fundamentos, o por quê de sua existência.
Outro elemento importante é que aquela pessoa que fizer outra pecar era melhor ter amarrado em seu pescoço uma pedra muito pesada e ter se lançado ao mar. Jesus descreve que não é admitivel um/a discípulo/a fazer com que outra pessoa caia. Ao contrário disso, nossas vidas precisam ser de e para a promoção das pessoas.
Seguindo um exemplo que aparece em Mateus e Lucas no sermão na Montanha, Jesus afirma que seus discípulos precisam ser sal. Mudar os gostos e os jeitos das situações. O discipulado não é pra manter as pessoas no mesmo padrão, no mesmo jeito, no mesmo caminho, ao contrário disso dar gosto e sabor, além de poder toda a maldade que aparecer.
Jesus descreve que o moralismo e o legalismo não fazem parte das pessoas que assumiram segui-lo. Existe diferença entre moralidade e moralismo. Moralidade é aquilo que agrega valores as atitudes, atos, relacionamentos, etc.; moralidade é quando a vida se torna secundária e as regras mais importantes do que a própria vida. No discipulado há a grande dimensão dos valores, não da repulsa.
Outro elemento importante dentro do discipulado descrito por Jesus é o cuidado que com as bênçãos materiais. É certo que ter bênçãos materiais é muito importante, ao passo que ela dita as regras da vida tornou-se algo demoníaco. Jesus demonstra que nós tornamos as coisas espirituais e, consequentemente, importantes em nossas vidas.
Dentro do discipulado de Jesus a cruz é algo importante e destacado por diversas vezes. Jesus não ilude com uma vida facilitada, ao contrário disso, é uma vida que foi em direção da morte e para a morte afim de que pudéssemos ter vida e a tivermos em abundância. Por vezes queremos pular essa parte da mensagem de Jesus, mas sem essa parte, a mensagem se torna vazia e sem sentido.
O texto lido apresentar dois personagens muito parecidos com muitos de nós. Dois discípulos que tinham deixado tudo para seguir Jesus. Sentiam-se no direito de pedir algumas coisas, afinal de contas, tinham direitos adquiridos com o tempo, uma espécie de uso capião. Se aproximam de Jesus e afirmam que tinham um pedido a se fazer. Quantas vezes fazemos isso? Não há nada de mais, nada melhor do que pedir para Jesus.
Era um pedido recheado de poder, egoísmo e vontade de querer ser mais do que os demais. Eles queriam sentar-se ao lado de Jesus. A resposta de Jesus é interessante, ele pergunta se os discípulos estavam dispostos a sofrer tudo o que ele iria sofrer. Os discípulos respondem de um modo muito engraçado, dizem que sim! Será mesmo que os discípulos estavam dispostos a passar por tudo o que Jesus passou? No mesmo caminho? Na mesma cruz? Jesus responde que eles não sabiam o que estavam falando.
O discipulado nos ajuda a ter coerência para o que vamos pedir e falar com Jesus. Não calculamos as coisas apenas para nós mesmos, ao invés disso, pensamos de modo solidário, generoso, de modo bom.
Dependendo do que pedimos ou fazemos somos mal aceitos por aquelas pessoas que nos cercam. Quando se percebe essa mentalidade mesquinha, há uma repulsa.
Jesus passa a ensinar que o discipulado é servir, é dar sem esperar nada em troca, é ser generoso, é querer ser o menor, é entender que quanto mais nos assemelhamos com Jesus, mais as coisas fazem sentido. Não somos impulsivos, ao contrário disso, somos movidos pelos motivos certos.
Ser discípulo é mais do que um estilo de vida, é querer se aproximar de Jesus a cada dia, não só se aproximar mais se assemelhar, tendo um coração generoso, bondoso, compassivo e de servo. Servir é um dos motivos que servimos e vivemos. Discipulado é um processo de vida.

domingo, 14 de outubro de 2012

Identidade


[texto parcial do Acampamento em Volta Redonda da IM em Sto. Agostinho]
Lecíticos 26.10-13


10 Comereis o velho da colheita anterior e, para dar lugar ao novo, tirareis fora o velho.  11 Porei o meu tabernáculo no meio de vós, e a minha alma não vos aborrecerá. 12 Andarei entre vós e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo. 13 Eu sou o SENHOR, vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito, para que não fôsseis seus escravos; quebrei os timões do vosso jugo e vos fiz andar eretos.

Identidade, o que é isso? Quando se fala desse tema a primeira coisa que vem na cabeça é um documento, verde, com uma foto estranha, com um número de identificação. As pessoas foram reduzidas a um simples número. Será que, de fato, isso é a melhor forma para definir uma pessoa?
Existem várias formas de uma pessoa se definir: gênero, nome, idade, escolaridade, profissão, estado civil, espiritualidade. Um homem, chamado José, aos 24 anos, com superior completo, líder religioso, solteiro, cristão. São maneiras para identificar uma pessoa. Mas será que essas áreas são distintas entre si ou, ao invés disso, caminham juntas, sincronizadas? São áreas que caminham com plena autonomia ou são áreas de profunda correlação? Aspectos separados ou juntos?
Algumas pessoas preferem distinguir vida profissional, formação acadêmica, etc., da espiritualidade. Contudo, a identidade cristã não separa uma coisa da outra, pelo contrário, trabalha a síntese das diversas áreas, que forma um ser humano.
Antigamente conhecia um ‘crente’ pela roupa, pela Bíblia que se carregava debaixo do braço, do semblante sério. Com o tempo se percebeu que a roupa não era um fator que definia a identidade então o modo de falar, o caráter, a idoneidade, os valores, passaram a ser o critério de juízo. Hoje, parece que até mesmos esses elementos foram descartados, agora o que vale é uma identidade de aparência. Aquela coisa: 'fingi que é, que eu finjo que acredito'. Uma identidade mal definida, mal resolvida, em crise, em colapso, que é movida de um lado para o outro conforme os interesses.
Num contexto assim, parece que a pessoa não tem a capacidade de definir sua própria identidade, ao contrário disso, existem vozes que definem quem ela são: vozes institucionais, eclesiásticas, políticas, econômicas, sócias, enfim, quantas vozes mais?
Estoura uma grande Crise de identidade! Como definir quem se é diante de tanto barulho e confusão? Nesse aspecto destaca-se que a identidade é algo inventado, ou, melhor, criado. Toda vez que a pessoa acha que descobriu a identidade ou se assumiu algo que simplesmente foi imposto, o indivíduo se sente descolocado, fora se si e mal resolvido, logo, em profunda crise. Isso porque queimou algumas etapas no processo de construção, de maturação, de desenvolvimento.
Então, toda instituição que tenta determinar uma identidade não serve? É, possivelmente. Vale pensar se a identidade eclesiástica é a mesma identidade de Jesus. Algumas instituições não promovem o crescimento e amadurecimento de um indivíduo, é mais fácil controlar pessoas infantilizadas do que pessoas esclarecidas.
Não poucas vezes vemos pessoas com uma identidade obsoleta, isto é, critérios ou valores que estão fora de uso. Insistem em responder perguntas que não são feitas mais. Uma identidade fragmentada, rasa e/ou superficial. Uma identidade obsoleta esta em profunda crise.
O que não se pode perder de vista é que as comunidades são fundantes no processo de identidade das pessoas. Em tempos pós modernos existe espaço para todo mundo. Tudo é muito rápido e/ou líquido, a identidade não é tão importante assim, afinal de contas melhor é pertencer do que ser. E o que uma pessoa não faz para ter a sensação de pertença, aceitação? Assume,  até mesmo, uma identidade que não é a dela.
Existe uma distinção entre comunidade de vida [aquela vinculada com a origem, família, a casa, aquilo que não se muda]. de comunidade de destino ou de escolhas. Diante dos movimentos da vida, somos conduzidos a alguns lugares em que escolhemos por nos sentirmos bem, completos, realizados. Escolher uma comunidade de fé, e de modo especial o cristianismo, envolve perda e ganho. A escolha que te proporciona o desenvolvimento da identidade.
Identidade coletiva entra em contraste com a identidade pessoal, não para engoli-la, ao invés disso, proporcionar o auto desenvolvimento num clima de complementaridade e o texto de Levítico 26 está inserido num bloco maior classificado como Código da Santidade. Esse trecho inserido em Levítico tem como preocupação última classificar quem de fato é o povo de Deus, preocupa-se com a identidade do povo. Quem é o povo? Como ele se comporta? É igual aos demais povos? No que se distingue? Como procede? Nesse bloco existem procedimentos, ações que definem quem é o povo de Deus.
Já no capítulo 26 existe a síntese de tudo (17-25), aquilo que precisa ser guardado no coração e levado com seriedade. São delimitados dois horizontes, o primeiro das bênçãos resultantes de uma vida pautada na obediência e ao lado de Deus, e, uma segunda, dos castigos decorrentes por causa da desobediência, do erro, do pecado.
Traçando um paralelo entre o tema da identidade e o texto do código da santidade, destaca-se alguns elementos:

I – Identidade cristã não esculpe ídolos
Parece que o ser humano almeja por ídolos, gosta de criar ídolos.

II – A identidade cristã tem um norte
Anda, guarda e cumpre os mandamentos.

III – A identidade cristã tem aliança pérpetua.
Não é algo parcial.

IV – A identidade cristã sabe a hora de (re)começar
O horizonte de recomeço e iniciar os passos.

V – A Identidade cristã entende a vida como um culto.
Tudo é expressão de louvor porque Deus está por perto.

VI – A Identidade cristã reconhece o seu Senhor
Tem os olhos voltados para o Senhor.

VII – A Identidade cristã não carrega julgo
Não é um fardo pesado, mas uma vida de alegria e satisfação.

A Identidade cristã passa por um processo, algo paulatino. Não tenha pressa; não assume um fardo que não é o seu ou uma vida que não é sua. Identidade pressupõe autenticidade.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Jonas

[síntese da mensagem sobre a serie Profetas Menores na IM em Guaianases]


Existem livros e histórias na Bíblia que são bastante conhecidos. A história de Moisés, de Davi, Jó, algumas parábolas de Jesus e, é claro, a história de Jonas. O profeta que foi engolido pela ‘baleia’ (peixe grande).
O livro de Jonas esta localizado no bloco dos profetas menores. A tradição afirma que esse Jonas é o mesmo de 2 Reis 14.25, contudo, numa análise exegética minuciosa, sabe-se que esse profeta ou personagem está localizado num período a frente do período de Jeroboão II.
A história é interessante. O texto bíblico diz que Veio a palavra do Senhor, pela primeira vez, a Jonas, um personagem que tem origem, com diretrizes clara: para sair de onde estava para ir até Nínive, para pregar algo duro contra aquela cidade. O texto diz que Jonas se dispõe, mas ao contrário do que se espera, para não fazer a vontade de Deus, para fugir de Deus. por que será que ele não gostaria de ir para Nínive?
Era uma cidade em que a família real residia. O local em que toda a sabedoria e estratégia do povo Assírico residia. Foi a cidade em que liderou as conquistas das terras de Israel e de Jerusalém. Que recebeu grande parte das pessoas que foram engolidas pelo êxodo militar. Portanto, era uma cidade que o povo odiava. Talvez o salmo 137 fosse algo cantado pelo povo judeu, da sua grande expectativa de lançar na paredes as crianças, isto é, os filhos, tamanho era o ódio.
Jonas recebe uma ordem de Deus para pregar contra a cidade que só tinha assolado e destruído o seu povo, a recepção de Jonas a respeito dessa palavra de Deus foi estranha.
Ao invés de ir para a Nínive, a grande opressora, ele foi para Tarsis, uma cidade localizada ao Norte da Espanha. Os barcos que iam para Tarsis eram bem equipados e preparados, haja vista que Tarsis era uma cidade de refinaria de ferro, situada ao Norte, logo os navios que iam rumo a essa nação eram bem preparados para enfrentar tempestades, capaz de fazer longas viagens, eram capazes de carregar cargas pesadas.
Jonas escolhe ir para longe de Nínive. Para Tarsis, escolhe uma embarcação segura, um trajeto que não passaria por perto da cidade, pois era o oposto. Mas o que faz Jonas não querer ir para a cidade cruel com o seu povo, por que?
Ele embarca e vai para Tarsis. No meio da viagem inicia uma grande tempestade, capaz de dar medo em uma embarcação resistente de sua época. Enquanto a tempestade faz com que os tripulantes joguem coisas fora do navio, Jonas dorme. Até que o capitão acorda Jonas e pergunta se ele não iria fazer nada? Pede para ele invocar o seu deus, pois os deuses dos tripulantes não estão ajudando. Os tripulantes tiram sorte e descobrem que tudo estava acontecendo por causa de Jonas e fazem cinco perguntas: por causa de quem sobreveio este mal? Que ocupação é a tua? Donde vens? Qual é a tua terra? E de que povo és tu? (v. 8). A resposta de Jonas soa prepotente: era hebreu e teme ao Senhor, o Deus d céu que fez a terra e o mar.
Parece que nessa hora ele esquece que ele estava fugindo da presença de Deus. os tripulantes perguntam o que precisam fazer para conseguirem se livrar daquela tempestade, Jonas diz que só lançando ele para fora do navio. Num primeiro momento eles não querem fazer isso, acham muito desumano. Ao passo que eles percebem que as coisas estavam apertando, pedem perdão para Deus e lança Jonas. Por causa disso os homens do navio temeram ao Senhor e Jonas foi tragado por um peixe.
Ele fica três dias e três noites. No capítulo 2 ele faz uma oração, no ventre do peixe. Parece que o quebrantamento está condicionado a um período de perda e escuridão. Após esse tempo de oração, o peixe lança Jonas em Nínive. A cidade que ele não queria ir foi conduzido para cumprir sua missão.
Pela segunda vez veio à palavra de Deus: vai a grande cidade e proclama contra ela. Jonas se levanta e entra na cidade. Diz o texto que era uma cidade grande, que precisava de três dias de caminhada para ser percorrida por inteiro, Jonas consegue fazer isso em um dia. Sem uma retórica bem estruturada, ou uma homilia com bons argumentos, o discurso dele é: em quarenta dias Nínive será destruída/subvertida.
Um homem que saí gritando nas ruas, de modo bizarro, uma frase de ameaça e de destruição. O incrível é que toda a cidade, inclusive o rei é surpreendido por esse discurso. Todos ficaram comovidos, o arrependimento surpreendeu a todos e o luto e a vergonha foi o vestuário das pessoas. Se arrependeram.
“Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito que lhes faria e não o fez.” (3.10). O texto mostra um Deus que ao ver o arrependimento sincero se arrepende de fazer o mal que havia pré dito.
Jonas, por sua vez, não gostou do que Deus estava fazendo. Ele ficou desgostoso e extremamente irado com essa situação. E orou a Deus externando o seu descontentamento. Ele não queria ver Deus poupando Nínive. Ele foge da presença de Deus pois ele sabia o Deus que ele servia, e sabia que ele iria poupar o povo de Nínive se houvesse a pregação da mensagem. Sabia que Deus era clemente, tardio em irar-se, misericordioso e grande em benignidade, e que seu amor é universal e que poderia alcançar até mesmo os ninivitas.


Essa ideia era insuportável para Jonas. Deus pergunta se essa indignação de Jonas era justa, o profeta não responde. Jonas, saiu da cidade, pensando que Deus poderia mudar de ideia novamente e destruir a cidade, por isso esperou do lado de fora, num camarote, para ver a destruição de Nínive.
Deus fez nascer uma arvore para fazer sombra para Jonas. Ele se alegrou em extremo em ver aquele ‘milagre’, talvez seria o inicio da destruição de Nínive? No outro dia Deus manda um verme que pica a árvore e essa morre. Jonas fica indignado e pede a morte! Não era possível admitir algo desse gênero! A morte era melhor do que qualquer coisa.
Deus pergunta para Jonas se isso era razoável? Por incrível que parece Jonas disse que sim! Não suportava a cidade não ser destruída e a árvore sim! Ele preferia a morte ao ver que Nínive não iria ser subvertida!
A reação do Senhor é surpreendente. Ele não entende a indignação do profeta a respeito de uma árvore que ele não plantou, não cuidou e que num passo surgiu e noutro desapareceu, mas, ao mesmo tempo, ele queria ver a destruição de uma cidade em que havia pelo menos 120 mil pessoa que não entendia nada, eram ignorantes, que não conseguiam discernir a mão direta da mão esquerda.
Por um lado é possível entender a indignação do profeta. Por outro é difícil compreender. Sua disponibilidade era restrita, Deus chama para um ministério abrangente; era preconceituoso Deus Chama para um ministério mestiço, misturado; era um homem que se alegrava com a punição do ímpio, Deus sugere o perdão e o recomeço; o profeta prefere um Deus inquisidor, Deus se propõe a se arrepender em favor da vida. O livro de Jonas no ensina e nos motiva a repensar a vida e ministério.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Acontece


[texto escrito após um 'acontece'.]


Tinha que ser assim!’ ‘O que é pra ser será!’ ‘O que é seu ninguém toma!’ ‘Não era pra ser!’ ‘Deus quis assim!’ ‘É o melhor pra você!’ ‘Acontece...’ Realmente são expressões de consolo, ou de uma pseudotentativa de consolar, contudo são expressões que não levam à lugar algum,  além da esfera da indignação do não ocorrido.
Em suma ‘acontece’. Acontece você sonhar e não concretizar. Acontece você pensar e não falar. Acontece você hesitar e não amar. Enfim, acontece.
O que fazer quando esses infortúnios nos surpreendem? Em que o incidente passa a ser rotina e que a beleza se esvai com a indisposição? Não tem muito que fazer. Conjecturar? Pra que? Justificar? Por quê? Imaginar? É, talvez. Impossível é não fazer nada.
Por conseguinte, quando ‘acontece’ existem duas possibilidades que podem culminar [ou não] num mesmo rio: a primeira possibilidade é quando ‘acontece’ de ser surpreendido pela felicidade e que há uma possibilidade bárbara de ser feliz, aproveite enquanto há; por outro lado, quando ‘acontece’ do abismo da tristeza te surpreender, nada melhor que se lembrar da momentaneidade dessa circunstância, preparando-se, pois, nenhuma lágrima é eterna, nenhum riso constante, nenhuma tristeza perpétua.
Não perca as chances bárbaras, sensacionais que lhe são dadas pela vida. Ela não repete e alguns ‘acontecimentos acontecem’ num estalo, e podem [ou não] ecoar por um longo tempo. Pois bem, ‘acontece’.