Tenho a leve impressão que grande parte das pessoas não sabem a
dimensão e a intensidade que é ter liberdade. Não faz muitos anos,
mas o sistema escravagista acabou e com os anos a liberdade passou a
ser algo normal e inerente de todo ser humano. As pessoas não pensam
na liberdade porque acreditam que são livres. Qual é o senso comum
a respeito deste tema? A liberdade significa a faculdade ou a
capacidade de fazer ou não fazer qualquer coisa, poder de escolha,
independência e/ou autonomia.
Grande parte dos jovens se consideram livres por poderem ir aonde
quiserem, fazer o que der na cabeça, tendo em mente que ninguém
pode ou tem o direito de questionar. Acreditam que são livres e se
submetem a fazer coisas ou condições depravantes, com a
justificativa de que por ser livre pode fazer o que bem entende.
Nesse ímpeto de autoafirmação e de mal compreensão do que de fato
é a liberdade, as pessoas no geral se tornam reféns e aprisionadas.
Cada vez mais cativas, com o rabo preso, além de mágoas e feridas
terríveis na existência. Tais pessoas esquecem que ser livre não é
poder ou não fazer o que tiver em mente, é, acima disso, a
capacidade de responder pelas atitudes ou pelas consequências da
tomada de decisões.
Para pessoas que tem uma mentalidade anarquista, isto é, acham que
nada deve ter regras ou direcionamentos, a liberdade é confundida
por libertinagem: ações inconsequentes sem aferir o impacto que
elas podem causar na própria vida como na de Deus e no próximo.
Tudo o que te torna refém ou escravo é contrário a liberdade que o
Evangelho propõe. Quando se pensa no uso de álcool, tabaco ou
qualquer outro entorpecente o que está em jogo não é o uso por si,
mas a capacidade que tais substâncias tem de aniquilar o senso de
liberdade. Uma pessoa que se torna alcoolica não tem escolha de
beber ou não beber; um dependente do tabaco não tem a possibilidade
de escolher se vai ou não fumar; como em qualquer outra área.
Existe os impedimentos subjetivos, isto é pessoas que optam em fazer
determinadas coisas em detrimento do grupo social que ela vive. Seja
uma tatuagem, atitudes amorais, sociais ou até mesmo religiosas. A
religião é uma das grandes ferramentas para coibir a liberdade
alheia. Grande parte do senso religioso é gerar homogeneidade, num
pensamento fortalecido pela área institucional e que agrega quem
pensa igual e dispensa quem age diferente. Por vezes a religião ao
invés de religar os elos e vínculos ela desliga as pessoas,
furtando a liberdade e estabelecendo padrões e métodos, uma
cartilha que tem que ser seguida a risca.
Parece que o texto de Gálatas tenta falar um pouco sobre isso. Ao
passo que alguns judaizantes se aproximam e aplicam uma nova (velha)
religiosidade, com uma mentalidade legalista que não dá espaço
para a liberdade, pois tudo está condicionada a um pensamento
rigoroso de causa e efeito, Paulo tenta, em sua epístola, desmontar
esse arranjo maquiavélico.
Paulo critica uma religiosidade
vazia. Uma religião pronta que não estabelece vínculos e/ou
relacionamentos. Uma religiosidade que se fundamenta em leis e
parâmetros de conduta rígidos e inalcançáveis, tornando-se motivo
de destruição. O povo vivia já sobre a opressão do imperador,
opressão econômica e de expressão religiosa, agora com mais
imposições desnecessárias parece que a religiosidade se tornou
algo duro e avesso ao projeto de Deus.
A partir deste comentário geral é possível pensar em alguns
elementos.
I – Fomos chamados para a
liberdade.
Na maioria das vezes se confunde
liberdade com desrespeito. Existe uma frase de agostinho que diz: ame
e faça o que quiseres.
Paulo destaca que não os seguidores/as de Jesus não podem viver
sobre o jugo da lei, ou da religião, afinal de contas Jesus já
pediu para si o nosso fardo. Então, as pessoas podem fazer, pensar
ou agir da maneira que acharem melhor, porém não é bem assim.
A liberdade posta por Paulo está atrelada ao amor. Essa é uma ideia
visível nos versos 13-15 e 25-26. Uma espécie de quiasmo que
orienta a respeito de uma liberdade que tem seus limites nas
fronteiras do amor. Nota-se então:
a) ser livre não pode ser justificativa para dar lugar ao pecado
(carne);
Ser livre é poder escolher em não pecar. Crucificar a carne, os
desejos e paixões. Vale dizer que o desejo em si não é ruim, o que
o destrói é quando ele e extremado.
b) A liberdade nos dá a escolha de servir ao próximo;
Amar como a si mesmo –
muitas pessoas não conseguem amar o próximo porque não conseguem
se amar. Ao passo que conseguimos ver e enxergar virtudes em nós
mesmos, passamos a valorizar e ver virtudes no outro.
Não devorar uns aos outros –
Paulo mostra que se a Igreja continuar nesse pé de guerra, em pouco
tempo tudo estará acabado.
c) Não adianta viver no Espírito é preciso Andar em Espírito.
Possivelmente existiam aquelas pessoas que diziam que tinham uma
profunda relação com Deus, mas, por outro lado, não vivia o que
pregava. Grande parte da desilusão das pessoas com o povo evangélico
em nossos dias é porque dentro do ambiente religioso tem super
extases, revelações, segredos e mistérios dos céus, mas o
Espírito que vive não é o mesmo que direciona os passos. Isto nos
ajuda a aniquilar toda presunção e a capacidade de gerar nos outros
uma inveja que é demoníaca. A mensagem ouvida, é a mesma que se
fala e vive.
Após esta breve descrição a respeito de liberdade, Paulo trabalha
dois temas que são opostos. A lei que é conjugada com a carne e o
Espírito que é conjugado com a liberdade.
II – Cuidado quando a carne manifestar suas obras.
Quando a Bíblia diz que a carne manifesta as suas obras, ela aponta
alguns detalhes importantes. O termo utilizado é para a manifestação
demoníaca. Portanto a carne age, trabalha de uma maneira muito
sutil, aparentemente agradável, com aspectos de liberdade, porém,
aos poucos ela destrói a vida em sua essência.
Dizem que no Polo Norte para caçar lobos, mata-se um coelho, finca
uma faca bastante afiada no coelho e deixa congelar. O lobo sente o
cheiro do sangue e vai até o local. Ao chegar, começa a lambe a
faca cheirando sangue. Só que ao invés de tomar o sangue do coelho,
o que ele toma é o próprio sangue. Por causa do gelo sua língua é
anestesiada, quando ele menos espera, sua vida já foi consumida.
É nessa direção que o pecado destrói. Vejamos alguns elementos.
a) área sexual;
b) área religiosa;
c) área relacional
d) área pessoal.
São áreas que se mal alinhadas, causam danos irreparáveis no ser
humano. Há, também, uma outra dimensão proposta por Paulo:
II – O Fruto do Espírito É
Diferente das obras da carne que precisam se manifestar, o Fruto do
Espírito É. Sua existência é que muda tudo. Como um fruto de
realiza na completude, no todo. É aquilo que não pode faltar no
geral das pessoas, de modo que possam ter plenitude em sua vida.
Vejamos:
a) O Fruto É no pessoal.
Amor, alegria e Paz são elementos que toda pessoa harmoniosa precisa
ter. São elementos que temperam a vida profissional, sentimental,
relacional e que precisam fazer parte do ser. O amor dar cor para a
vida; a alegria dá graça a vida e a Paz satisfação no que se é.
b) O Fruto É nas relações.
Os demais elementos propostos por Paulo se relacionam com os
relacionamentos interpessoais. São posturas ou escolhas que quando
desenvolvidas em qualquer situação, não existe lei ou restrições.
Mas por ser um fruto, são elementos que caminham entrelaçados, uma
coisa puxa a outra, uma coisa sustenta a outra, e uma coisa não é
sem a outra.
Finalmente, Paulo orienta tanto as pessoas que são influenciadas por
aquelas que não tenta desvirtuar a Igreja como também como as
pessoas que vivem no Espírito devem proceder. A liberdade que nos é
dada por Deus não é para nos conduzir para a morte, é, mais do que
isso, para nos vincular com Deus e com o seu coração. Lembrando que
ao passo que se ama Deus amar o próximo é algo que acontece na vida
do/a cristão/ã.

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