
Efésios “4:1 Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados [...]”
Muitas pessoas me perguntam: Você é tão novo e é pastor? A segunda decepção dessas pessoas surge quando elas descobrem que eu não sou 'ex' nada. Ex ladrão, ex usuário de drogas, ex isso ou ex aquilo... Diante dessas perguntas passei a questionar a minha vocação. Será que sou vocacionado para ser um pastor de ovelhas?
Essa pergunta me levou a 20 anos atrás, quando minha mãe era faxineira da família que me levou à Igreja. A dona da casa estava sentada no sofá, minha mãe passando roupa, eu estava sentado quase que aos pés da minha mãe, e, lá fora, uma garoa (característica da terra da garoa). Não lembro ao certo o assunto, acho que era o que eu queria ser quando crescer. Segundo as testemunhas presentes, eu disse em alto e bom tom “Eu vou ser pastoi”. Elas acharam fofinho o que eu disse, mas só isso.
O tempo foi passando e esse desejo apertando em meu coração. Parecia que pulsava em meu peito o grande desejo de anunciar o evangelho, tomar conta de pessoas, chorar e rir, falar e silenciar, enfim, ser pastor. Mas, diante de crises juvenis, questionava a mim mesmo: será que nasci para ser pastor? Já era um músico razoável, e já batia a porta a exigência de pensar em uma profissão. O que fazer? Falei com Deus: Deus fala comigo.
Num culto de sexta-feira na casa da juventude, aos meus 16 anos de idade, a pastora usou o texto de João 21. Nesse texto Jesus fala para Pedro demonstrar o seu amor pastoreando as ovelhas de Jesus. A pastora pediu para substituir o nome de Pedro pelo nosso próprio nome, foi então que eu ouvi. “B” apascente as minhas ovelhas.
Descobri que o primeiro elemento importante para ser pastor é ser chamado por Deus. Logo, ouvir sua vocação! Quando Deus nos chama Ele percebe em nós talentos, potencialidades e limites. Essa vocação só se faz presente quando estamos sensíveis a ouvir a voz de Deus. A vocação acontece quando, mesmo diante das incertezas, temos certeza que é Deus que nos chama.
Só que a vocação (ou chamado) de Deus não se restringe a um momento, por conseguinte Ele me convocou a exercer o meu ministério. Percebi então que é possível ser pastor mesmo sem ser pastor. Aludindo uma frase do Bispo Adriel quando pregou para os/as primeiros/as enviados/as para o Projeto de Revitalização de Igrejas: “Instituição não faz pastor/a, é o Espírito que faz pastor/a!”. Mesmo sendo um juvenil, passei a tentar ser como um pastor metodista. Parecia bobo, mas a convocação de Deus exigiu uma reação da minha parte. Descobri que devemos agir hoje da maneira que queremos ser amanhã. Não é fácil, mas como diria Fernando Pessoa “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, passei a insistir nisso. Errei muito, a frustração era algo constante, contudo, o que me mantinha firme nessa direção era que eu tinha uma vocação, e havia sido convocado por Deus para exercer o meu ministério sem ter um ministério.
Com o tempo cheguei à tão sonhada Faculdade de Teologia. Esse foi o período em que senti a provocação de Deus. Descobri que Deus não nos tenta (isso a Bíblia nos alerta), mas Deus nos provoca. Senti que estava sendo desafiado pelo divino para colocar à prova minha vocação. Parafraseando Wesley “ou eu colocava fogo em minha vocação ou jogava minha vocação no fogo”. No segundo ano de teologia atuava, mesmo sem ser, como pastor em um lindo ponto Missionário. Quantos erros eu cometi! Quantas bobagens eu falei! Quantos equívocos! Mas graças a Deus por ter passado por tudo isso. A provocação de Deus moldou o meu caráter, aperfeiçoou minha intuição e, sobretudo, confirmou o meu chamado.
Nessas etapas a Bíblia sempre foi fundamental, isso porque ela sempre traz à tona a dimensão da vocação. O autor de Efésios tem em mente ensinar a comunidade a trilhar (andar) de modo digno, honrado, com caráter, e, acima de tudo, honrando a vocação que foi dada por Deus por intermédio de um chamado.
Neste contexto provocativo, aprendi o valor a invocação. O Salmo 56.9 afirma que ao invocar o nome do Senhor, todos os inimigos baterão em retirada. Descobri que nada no ministério pastoral acontece por minhas forças, mas no nome de Jesus. Se participo de um milagre, foi a mão de Deus, se participo de uma cura, foi Jesus. Se presencio a reconciliação, é o amor de Jesus,e, enfim, na dimensão da invocação, aprendo a depender mais de Deus e reconhecer a minha real impotência.
Muitas pessoas se sentem chamadas por Deus, porém, junto com essa vocação surge a dúvida. Será? Sou eu mesmo/a que Ele está chamando? Tenho aprendido que, diante do chamado de Jesus, a vocação fica latente em sua vida. Não é porque todas as portas (profissionais) estão fechadas que Deus está te chamando para o ministério. Pelo contrário, muitas portas estão abertas, mas você só consegue enxergar a sua vocação, o seu chamado. Trabalhos, projeções acadêmicas não se comparam com o que você visualiza fazendo a obra do Reino de Deus.
Toda vocação é despertada diante da convocação. Deus nunca fará o que você tem que fazer. A convocação de Deus é isso, Ele nos chama para fazermos tudo o que estiver ao nosso alcance, e tudo o que não pudermos fazer, isso sim, Deus fará.
A provocação de Deus coloca em prova ou desafia a nossa vocação. É neste momento que aprendemos que o valor de causa não se restringe ao que se ganhará com ela, mas o que está disposto a pagar, consequentemente perder, por esta causa. Quer saber se é vocacionado/a? Pense se está disposto/a a 'negar a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo'.
Invocar o cuidado e amor de Jesus precisa ser uma prática constante em nossas vidas. Só no nome d'Ele que se consegue descobrir potencialidades nos limites. Somente a graça d'Ele nos basta, pois o poder de Deus se aperfeiçoa em nossa fraqueza, haja vista que, quando estamos fracos é aí que estamos fortea. Clamar/invocar o nome de Jesus é uma práxis cotidiana e fundamental.
Portanto a vocação é testificada pela convocação, que é estimulada pela provocação e mantida pela invocação. Hoje, o que se torna imprescindível é o ato da evocação, isto é, trazer a memória o que Deus já fez, tendo em mente que Ele não é homem para mentir nem filho do homem para que se arrependa. Seguindo o prisma de Lutero “Deixe Deus ser Deus” ou o conselho bíblico: “Quero trazer a memória aquilo que pode me dar esperança”.
Andar de modo digno da vocação é valorizar o dom que Deus nos deu. Antes de afirmar sou um/a vocacionado/a, questione: será que sou um/a vocacionado/a?
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