A Santificação a partir do Jesus Histórico.
Uma questão que venho pensando muito nesses dias é a forma como o Jesus histórico tem sido “assassinado” constantemente em nossos dias. Um tempo marcado pela influência de um mercado capitalista, ilusório e individualista, que nega a existência de um Jesus homem judeu do século primeiro, que foi assassinado por defender a mensagem do amor, da unidade e da igualdade dos povos. Por isso, sua morte foi de cruz, humilhante e desprezível (e vergonhosa hoje no discurso cristão).
Esse formato do Jesus histórico tem dado lugar ao Jesus triunfante, que faz milagres, que tem poder e dá poder. O Jesus dos prodígios e da prosperidade. O Jesus da condenação ao diferente, o Jesus que cobra indulgencia e que não é amor. O Jesus homem dá lugar ao “deus” insensível.
Qual é o referencial a respeito desse Jesus capitalista? Porque o povo que se diz “Povo de Deus” não prega o Jesus homem e prega o Jesus poderoso? Será que é vergonhoso dizer ao “mundo” a respeito de um Deus demasiadamente humano? Dentro de uma sociedade que desvalorizou a vida e perdeu a apatia pela humanidade, uma sociedade que deslumbra o ódio, inimizade e obras da carne e esquece o valor do humano e sua preciosidade para Deus[1], é quase impossível falar da graça preciosa de Deus. Pois a graça barata é o que traz mais benefícios para as castas legitimadoras[2].
Infelizmente os discursos de muitas Igrejas Metodistas estão ligados apenas ao Jesus dos benefícios que está vinculado com a graça barata e movimentos individualistas, do que a respeito do Cristo que é amor e trabalha misteriosamente, pois trabalha a partir da graça preciosa e inclusiva.
Esse discurso consumista e individualista agregou-se ao termo de Santificação bíblica, dando outro significado a Santificação. Com isso, a partir da cristologia, pretendo trabalhar o tema da Santificação, abordando três pontos cruciais, sendo eles: A Santificação “coisa” de humano, o ser humano como sujeito no processo; a santificação prática, traços do Jesus histórico que vivenciou intensamente a santificação e; santificação como meio soteriologico, o verbo (ação) que traz a salvação humana.
Santificação coisa de humano
Hoje o termo santificação tornou-se algo tão complicado. Para alcançá-la Implica em um roteiro diverso. É preciso passar por muitos processos para torna-se santificado. Ainda mais quando a idéia vigente é “alta, descendente” da cristologia, que faz parte do que podemos chamar de auto-compreensão tradicional da fé cristã[3]. Onde a idéia do Deus que desce é predominante.
Percebo que em muitas comunidades, o processo de santificação é tão rigoroso, que para desenvolvê-lo perde-se a dimensão humana como papel fundamental para essa arte. É rejeitada toda fraqueza e limitação, o ato de santificação volta-se para semideuses e divindades. O sujeito da santificação não busca aperfeiçoar-se, mas meios para a validação de leis como domínio sobre os “menos santificados”. Um sistema de legitimação de poderes.
Contudo é preciso observar no Jesus, o Cristo, morto e ressuscitado, dois modos de viver que caracterizam duas etapas distintas humanas: a etapa da “Fraqueza”, modo de existir “segundo a carne”; e a etapa da “Plenitude de Espírito”, o modo de existência “segundo o Espírito” [4]. Isso demonstra que a santificação é possível para aqueles (as) que são pecadores (as), imperfeitos (as) que buscam restauração para a vida e em favor da vida.
A santificação perde a sua característica, atual da religiosidade, de algo exclusivo para santos, e passa a ser alvo de pecadores humanos que precisam desse aperfeiçoar constante em suas vidas. A cristologia demonstra um Jesus homem, que conseguiu experimentar da santificação a partir da piedade e principalmente do amor voluntário e constante. Logo, para um viver santo (a), é preciso olhar ao Jesus histórico e suas atitudes humanas.
Jesus não pregou uma teoria teológica, nem uma nova lei, nem a si mesmo, mas o Reino de Deus: A causa de Deus (= vontade de Deus), que irá triunfar e que é idêntica à causa do Homem (= bem do homem) [5]. A vontade de Deus é o mais claro exemplo da santificação, pois é algo que almeja o bem humano. Diferente da cultura presente do bem baseando em “bens”, mas sim, um bem que é “invendível”, e traz benefícios maravilhosos para a humanidade.
Santificação prática
Para uma santificação prática, é preciso um cristianismo prático. A santificação é algo que acontece no dia-a-dia da comunidade de Cristo. Ao contrário do que muitos líderes religiosos defendem hoje, uma santificação que traz e dá poder. Santificação é um processo cristoprático, a favor da vida, que acontece onde existem pobres (na amplitude da palavra), doentes e pecadores.
A cristoprática conduz a comunidade necessariamente aos pobres, aos doentes, aos socialmente supérfluos e oprimidos. A exemplo do Messias, também a comunidade messiânica é enviada primeiramente aos humildes: “Proclamai que o reino de Deus está próximo. Curai os doentes, ressuscitais os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes de graça daí”. Por causa de Cristo, a comunidade cristã tem seu lugar na comunhão com seus “mais pequeninos” irmãos e irmãs. Como o Cristo para todas as pessoas, Jesus torna a sociedade humana dividida e sem paz por sua parte inferior, pelos miseráveis, desprezados e pequenos. Visto que este é o lugar social e político da comunidade de Jesus, também a cristologia deverá acertar esse lugar como seu lugar e deverá refleti-lo conscientemente[6].
A proposta de Jesus de Nazaré é: não a violência, sim à mudança de coração. Pregava um batismo de conversão, anunciando a iminência do julgamento definitivo de Deus. Exigia dos seus seguidores capacidade de partilha, justiça, respeito pelos outros e pela verdade (Lc 3.10-14) [7]. Isso nada mais é do que uma prática santificadora, que justifica o pecador e traz novidade de vida. Algo que é respaldado por seus frutos sociais e comunitários.
Só podemos conhecer a Deus por intermédio das atitudes humanas de Jesus. Um Deus que se revela ao seu Povo por intermédio de um estilo da práxis. Uma vida santificada e irrepreensível, tendo como referencia o Jesus histórico, que enxerga a divindade dentro da humanidade. Um povo sofrido, assolado, perseguido e oprimido é onde Deus se manifesta. A santificação tem como sinal a sensibilidade e a capacidade de olhar no próximo, sua carência e necessidade do Deus que é amor e liberdade. O Deus que é gracioso e misericordioso. O Deus que se compadece com o sofrimento.
Santificação como meio soteriológico
Um discurso presente nas Igrejas Metodista é a respeito da vida Futura. Uma pergunta que muitos pregadores usam é: “Se você morrer agora, para onde você vai?”. Por isso a ênfase na santificação como um meio para alcançar a vida eterna é determinante em nossas igrejas, mas uma santificação baseada na troca, faço determinadas coisas para não ser condenado por Deus.
Quando classificamos o termo soteriologia que significa o estudo da salvação humana. Uma palavra formada a partir de dois termos gregos Σοτεριος [Soterios], que significa "salvação" e λογος [logos], que significa "palavra", ou "princípio"[8]. Esse termo nos ajuda a entender a infinitude partindo da finitude. Sendo que: A vida futura começa agora. A santificação é um meio para ajudar a humanidade a desfruitar hoje da Vida Eterna.
Talvez a perspectiva de vida eterna hoje precisa ser baseada na humanidade de Jesus. Que é um fato concreto para o fortalecimento da fé da comunidade. A prática de Jesus é processual (histórica e desenvolvida a partir de ações e de reações concretas), situada (encarnada na realidade econômica, política e religiosa) e conflitiva (não desejada, mas inevitável, em função da contradição entre o Reino de Deus e a realidade social da época) [9]. Essa perspectiva nos ajuda a entender melhor uma salvação hoje.
Varone reafirma em sua obra[10] que a salvação possui como lugar central o desejo do ser humano, mas é firmada na revelação de Deus que funda e anima a experiência da fé, diferentemente de ser fundamentada em uma satisfação religiosa pela ‘compensação’ dos aspectos humanos.
Não há salvação meramente interior (subjetivista), meritória (jurídica) e legalista (formal). Somente há salvação em uma práxis concreta, que relaciona o desejo humano e a escuta da Palavra de Deus, frutos da revelação divina [11].
A salvação cristã não consiste em uma operação jurídica de satisfação, mas sim em uma obra existencial de revelação (relação) divina[12].
Conclusão
Como conclusão deste trabalho, entendo que o ser humano é o alvo primordial de Deus em sua ação justificadora. A santificação não quer gerar pessoas mais divinas, mas sim, pessoas mais humanas. A beleza de tudo é descobrir nas limitações humanas a possibilidade da ação do Espírito Santo. Uma Santificação construída a partir da fragilidade humana. Nesse gesto, Deus se mostra o Deus atemporal, pois quando muitas instituições procuram caminhos de exclusão, Deus procura caminhos para inclusão. A santificação não cria um novo deus, mas cria um humano que sabe relacionar-se com Deus e com toda a sua criação.
Essa relação com Deus e com a sua criação demonstra uma santificação prática. Todo gesto de caridade, amor, respeito, compreensão, compaixão, amizade, dialogo, benignidade, domínio próprio, sensibilidade, união é traço do Fruto do Espírito de Deus. E onde este Espírito habita é lugar Santo. Logo, pessoas que manifestam essa santificação prática (cristoprática), são pessoas que, de uma forma intensa, reconhecem a maravilhosa presença de Deus e trabalha isso de forma concreta e linda.
Por fim, aprendo que a santificação é um caminho para a soteriologia. Como Moltmaan afirma na sua obra “Teologia da Esperança” a respeito da salvação e escatologia que tem início no encontro com o Jesus que é Histórico e eterno, entendo que a santificação é um meio, não um fim. Pois está ajuda a humanidade a caminhar seguindo os passos de Jesus. Um caminho de amor e que em tudo e em todos pode transformar maldições em bênçãos, morte em vida. Dar sentindo ao que não tem significado.
É necessário que, como comunidade de fé, aprendamos um caminho de santificação, baseada no Jesus de Nazaré, homem do primeiro século, judeu, que demonstrou o amor de Deus a partir das suas limitações humanas. Era (e é) Deus por ter sido homem. Sua humanidade é que dá sentido a sua divindade. Seu amor de Deus foi manifesto em sua vida terrestre. Sua santificação não era utópica ou discursiva, contudo era baseada no “aqui e agora”, abrindo possibilidades para uma nova vida. Uma vida prática.
[1] MOLTMANN, Jürgen. Paixão pela vida. Aste, 1978,
[2] BONHOENFFER. Dietrich. Discipulado. Sinodal.
[3] LOEWE, Willian. A Guisa de introdução.
[4] RUBIO, Afonso Garcia. Questões introdutórias.
[5] KUNG, Haz. Quem é Cristo?
[6] MOLTMANN, Jürgen. Caminhos e transformações da cristologia.
[7] SCHIAVO, Luiz; SILVA, Valmir. O projeto de Jesus.
[8] www.wikipedia.com.br
[9] RIBEIRO. Claudio de Oliveira. O reino é de Deus: Aspectos para cristologia não-sacrificialista.
[10] A base dessa reflexão é a obra Esse Deus que dizem amar o sofrimento. Aparecida-SP, Ed. Santuário, 2001.
[11] Idem 9
[12] Idem 9.
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