quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Conhecendo o olhar de Deus

O texto de 1Sm 1-13 traz muitos significados para a nossa sociedade. Em primeiro lugar é perceptível que algumas escolhas humanas, mesmo que com respaldo divino (místico) pode não dar certo. Quando Javé fala com Samuel (v.1a) a respeito de parar de prantear por aquele que o próprio Javé havia rejeitado, entendo que nos ensina a “não chorar pelo leite derramado”. Existem coisas que acontecem em nossas vidas e ficamos inertes e pranteando. Não buscamos soluções nem alternativas para solucionar o problema. Esse texto apresenta um Deus que é prático e que não aceita a inércia, conformidade e pranto humano pelo que deu errado, mas sim, um Deus que possibilita a entrada para o novo, para uma nova experiência (v.1b). No mesmo versículo aparece um Deus que é contra a passividade e apresenta a proatividade. Uma maneira de reagir ao problema de uma forma ativa, com responsabilidade e propriedade.
Da mesma forma que o profeta, todo ser humano dá a mesma resposta para Deus: “De que maneira vou?” (v.2a), talvez essa pergunta faça parte da essencia humana. O medo ao novo, a insegunça quanto a vida e a incerteza de que é Deus que está falando. A experiência de fé ensina a todos (as) que Deus faz a obra perfeitamente, do começo ao fim. A sensibilidade das pessoas tem que estar voltada não apenas para a ordença de Deus, mas também para a maneira que Deus irá atuar. Cumprir o chamamento de Deus é aceitar para si o seu roteiro do que se deve fazer (2b-3). Interrogar a Deus é pedir respostas para a fragilidade e limitação humana.
O profeta aceita o chamado de Javé e faz da forma como Ele ordenou (4-5). Possivelmente o profeta estava com muito medo do que poderia acontecer com ele. Quando os anciãos se deparam com ele, mesmo tremendo, e interrogam se ele veio em combate, pois sua imagem já era controvertida dentro do sistema. Ele mantem sua postura e afirma que sim, não procura agir segundo os seus extintos, mas sim, segundo o que Javé havia ordenado. Isso ensina a todos (as) a seguirem a risca o que Deus fala ao seu povo. Sem buscar dar um “jeitinho brasileiro” como solução, mas sim, manter a postura e integridade gerada por Deus. Tendo certeza que Deus irá fazer a boa obra que Ele já começou.
O profeta é recebido no meio dos anciãos pacificamente, o medo que estava aflingido-o acaba dando lugar para a sua maneira particular de olhar para a situação. Neste momento ele vê o filho mais velho de Jessé (v.6), e pensa como ele tem todas as caracteristicas necessárias para ser o novo ungido. Normalmente quando o sentimento de segurança e conforto bate no coração humano, é normal esquecer a voz e a direção de Deus. Passa a seguir a sua vontade e seu caminho. Pensa que tem o direito de olhar para as situações com o seus olhos, esquecendo de quem está no controle.
Nessa hora Javé fala novamente ao profeta. Mesmo sendo um homem de Deus, que escuta a voz de Deus está sujeito a cair. Javé lembra ao profeta que Ele não olha para as pessoas da mesma forma como o ser humano olha. Deus ensina a todos (as) a deixar de lado uma vida de aparencias, que é pautada em parametros humanos. Deus mostra para a igreja, que por vezes ela olha muito para as pessoas que são mais bonitas (os), mais ricos (as), mais poderosos (as), aqueles (as) que têm mais status. Deus não olha desse forma. Isso são caracteristicas negadas por Deus. Deus olha para o coração (v.7), olha a intenção das pessoas. È uma maneira de ver as potencialidades e fragilidades das pessoas.
Provavelmente o profeta passou a rever a forma de olhar para as pessoas. Talvez a igreja precise rever as formas como olha para as pessoas e a sociedade em geral. A partir disso, Samuel passa a olhar os filhos de Jessé de uma maneira diferente (8-10). Rejeita aspectos de impacto humano, e passa a buscar aquilo que agrada o coração de Deus. Esse é um grande ensinamento. Buscar na vida pessoal e nas pessoas aspectos que agradem o coração de Deus e que seja conforme a vontade d'Ele. Quando o profeta se sujeita a ouvir a voz de Deus e fazer a sua escolha a situação muda.
As possibilidades de Jessé acabam, todos os filhos que teriam capacidades humanas para assumir o trono são rejeitados por Deus. Samuel pergunta se acabou todos os filhos (v.11), Jessé diz que falta um. O mais moço, que toma conta do pasto. Usando de metáfora, é possível fazer um paralelo entre Jessé e a Igreja. Aonde sempre busca soluções humanas a partir de qualificações humanas e deixa o menor, o mais fraco, aquele que não tem tanto valor para o fim. Talvez a mensagem de inclusão de Jesus a respeito dos pequeninos, dos marginalizados e dos excluídos tem suas origens nesse texto. Aquele que é deixado de lado, que não é contado, que é esquecido pelo ser humano, justamente este é o que Deus escolhe como seu ungido.
O texto nos ensina a mudar a forma do olhar da igreja e das pessoas em geral. Deixar o pre-conceito de lado e ter a sensibilidade que é de Deus, e desta forma ser mais inclusiva.
Quando o menino entra, contrapõe todo os parâmetros humanos (v.12). O moço era apenas “corado, com bonitos olhos e agradável”, mas foi esse a quem Javé escolhe e manda o profeta ungi-lo (v.13). No meio dos irmãos e do pai, o menino é ungido pelo profeta.
O texto também afirma que: “o Espírito de Javé prosperou a Davi” em uma outra tradução diz que: “O Espírito de Deus tomou conta de Davi”. Talvez isso mostre um grande significado do termo Prosperidade. Ser prospero segundo o texto é quando Deus toma conta de seu ungido. Isso contraria muito a lógica do mercado que pregnou na igreja, assinalando prosperidade como algo meramente financeiro e poderoso. Algo que afirma o conceito capitalista e de consumo da igreja.
Ter essa prosperidade de Deus é ter a certeza de que Deus toma conta do seu ungido. Ter por certo a presença de Deus, o seu amor, o seu afago, o seu carinho e até mesmo sua exclusividade como pai amoroso, mas uma exclusividade inclusivista. Desfrutar da prosperidade de Deus é desfrutar da graça de Deus constantemente.
O profeta nos ensina que a obra que Deus começa ele termina. Ele termina o que começou e nos lança para um novo desafio, a terra de Ramá.

Nenhum comentário: