
No princípio era o verbo[...] cheio de graça e de verdade [...]
O último sermão que preguei em Jd. Conceição como pastor daquela comunidade foi sobre o princípio. Isto soou como uma certa contradição envolta em um ar de sarcasmo. Talvez o fim não seja o plano de fundo propício para se falar sobre o princípio. Afinal de contas, o começo de tudo já passou, agora é hora de celebrar ou, pelo menos, curtir o fim.
Acredito que a celebração do fim só faz sentido quando está com os olhos postos no princípio reservado no futuro. Se o término é uma celebração em si mesma, não passaria de um evento desconexos com os sentidos da vida. O baile do fim ocorre para apontar algo maior: o princípio.
Muito sábio quem inventou essa coisa de 'ano novo'. A virada do dia 31 para o dia 1 é um evento mais psicológico do que factual. Quando as pessoas voltam para a rotina, as coisas são as mesmas, os desafios (se não maiores) continuam lá, definitivamente, tudo o que existe continua no mesmo lugar, na mesma intensidade e na mesma proporção.
Porém, existem coisas que mudam. As pessoas ficam mais decididas para fazerem os regimes, desafiam-se a si mesmas para sua volta ao mundo acadêmico, estipulam prazos decisivos para colherem os resultados almejados. Portanto, é certo que algo muda.
Percebo isso no Evangelho de João. No começo ele celebra o término e aponta para o princípio de todas as coisas. Aquele que fez tudo do nada. Aquele que dá paz porque é a luz sobremodo perfeita. É aquele que transcende as conjecturas religiosas e, com veemência, faz uma proposição realmente valorosa.
Jesus é o princípio de tudo. Essa afirmação levanta questões: Jesus é o princípio da minha vida? O que fazemos que respeita e/ou valoriza o princípio de Cristo em nós? Mas o que de fato significa Jesus ser o princípio do ser cristão?
Para esta última pergunta, quero discorrer, brevemente, sobre três possibilidades. A primeira delas é que se Jesus é o princípio da minha vida, assumo novos valores. É possível conviver com pessoas que têm crenças distintas, todavia, é impossível conviver com pessoas com valores diferentes.
Ter novos valores é assumir a responsabilidade com o hoje, e se comprometer com o amanhã. Existe mais um ponto a ser mencionado quando se tem Jesus como o princípio de vida, isto é, assumir uma nova identidade. Ter uma nova identidade é interpretar os fatos que a vida propõe de modo proativo. Responder aos acontecimentos de modo coerente e consistente.
Além dos valores e da nova identidade, é fundamental o amor. O sentido do amor, nos dias atuais, esvaziou-se profundamente e, provavelmente, perdeu-se na grande nuvem da modernidade. Tal como a vida esta para a morte, assim o amor esta para o cristianismo. Por conseguinte, o verdadeiro ser cristão é aquele que encarna o amor e faz dele um adjetivo notável em suas pegadas.
Se Jesus é o princípio de tudo, é necessário começar esta nova jornada com novos valores. Valores inegociáveis! Ter Jesus como princípio é assumir uma identidade relevante. É fazer em si o que se contou ali. E, sobretudo, amar sem limites, amar sem idade, amar, simplesmente amar. Pois, como o próprio João diz em uma de suas cartas, quem ama conhece a Deus, porque Deus é amor (1Jo 4.8).
Precisamos dessas qualidades para o ano de 2011. Mas como afirma o Evangelho, é preciso ter graça em tudo o que se for fazer. Graça é dar aquilo que não se merece. Em contra partida, é necessário agir de modo misericordioso, isto é, não dar o que se merece. Graça e misericórdia são elementos importantes, porém, estes dois elementos só fazem sentido quando caminham paralelamente a verdade. Ser verdadeiro não é ser sincero a ponto de machucar as outras pessoas em nome de uma sinceridade dura, é, a cima disso, apontar algo que é libertador e renovador.
Neste ano que se inicia todos/as são convidados à olharem para Jesus, a fim de que ele seja o princípio de tudo o que se fará, que seja a luz diante das trevas, seja o tudo em todos, seja o amor nos lugares em que existirem a dor e a solidão, seja o refrigério diante das mais duras febres emocionais e sentimentais. Isto acompanhado da graça divina e da verdade libertadora. Haja vista que a graça sem a verdade, torna-se mole de mais e a verdade sem a graça, torna-se dura de mais.
Portanto, façamos do ano que se inicia a oportunidade de assumir tais princípios divinos.
Que Deus nos ajude.
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