quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

InVejo



Não invejo mais os teólogos, pois já aprendi a questionar as ambiguidades religiosas que cercam o dia-a-dia, e, paulatinamente, dar uma justificativa sistemática para os afãs humanos. Não invejo os filósofos. Descobri que semiótica complexa não dá conta da limitação humana, e, além de tudo, são facilmente reproduzidas, por não se comprometerem com as tensões axiomáticas que corroem os instintos vivos de cada pessoa.
Não invejo os músicos, nem os astrólogos, nem os cientistas, nem os sociólogos, nem os empresários, enfim, quantos mais? Em áreas distintas, com característica próprias, desempenham sua função com maestria, todavia, não chamam mais a minha atenção. É certo que sua utilidade é de extrema importância para o cotidiano, mas eles não furtam o meu desejo intenso de tomar para mim tais potencialidades humanas.
Mas existem alguns, quase que magicamente, que conseguem despertar em minh'alma grande admiração além de uma faísca tênue de inveja. Isto que sinto para os religiosos é uma evidência da minha pecaminosidade, para os filósofos, tal instinto pessoal seria a amostragem de minha incompetência existencial de dar sentido ao ser em si. Quantas argumentações mais os mais diversos especialistas dariam para minha atual condição?
Talvez todos estejam certos. Afinal de contas, o que posso fazer se admiro, e, porque não, invejo aquelas pessoas que conseguem expressar tão intensamente as ambiguidades do amor. Como invejo Neruda e seu estilo erótico e atual, que desperta não só o desejo, sobretudo a necessidade de amar. Como invejo Florbela Espanca, que diante da agonia expõe a potencialidade da esperança no ato de amar secretamente. Ah, como invejo Shakespeare e seu paradoxo de caminhar no viés do risco diante da dúvida! Invejo, incontestavelmente, Vinícius que, ao modo brasileiro, apresenta a paixão como o 'toque' que apimenta o amor.
Invejo estes poetas porque, noto neles a minha maior deficiência: a debilidade de expressar um pouco do amor que sinto e não dou conta de rabiscá-lo. Queria escrever uma fábula, na qual pudesse ser sincero comigo mesmo. Pois tenho a leve intuição de que com estórias é possível caricaturar, mesmo que nebulosamente, o que perturba a vida.
Nessa fábula eu diria que sua ausência gera uma intensa ansiedade dentro de mim. Escreveria sobre o caos do silêncio sem o seu suspiro, pois essa quietude assemelha-se aos gritos reservados aos hades. Nessa estória eu diria que quem precisa ser salvo não é a princesa, haja vista que ela é livre e desfruta da liberdade. Quem de fato carece do cuidado e de ser resgatado é cavaleiro. Um jovem que desconhece do amor verdadeiro, que foge quando ele se aproxima, não permitindo ser tocado pelos lábios doces tão anelados que é o amor.
Como eu invejo estes poetas que escrevem daquilo que podem provar empiricamente! E, diante das dúvidas, isolo-me em um mundo inexistente que, de antemão, aponta-me o seu Armagedon. Invejo tanto porque ainda não vivi 'tau' intensa paixão, mas que acredito que é possível ser alcançada.
Seguindo os passos das pessoas que invejo, terminarei com a Esperança de Florbela, acreditando que desfrutarei na vida um intenso amor. Com o toque picante de Neruda, tendo por certo que a paixão se evidenciará. Afirmando o paradoxo Shakespeariano, pois se amar é correr riscos, tentarei enfrentá-los. E, por fim, a paixão “carpem diem” de Vinícius.
Já diziam os sábios que 'as certezas geram ídolos, mas as incertezas, essas sim, são libertadoras', ainda tenho muitas incertezas, mas se posso ter uma certeza diante da incerteza é que a vida só se torna vida quando se deixa tocar pelos lábios doce do amor.
Que Deus me ajude a viver o que escrevi.

Um comentário:

Tau Farias disse...

Não me responsabilizo pelos meus atos depois de ler isso.
Aplausos merecidos.
Você se supera, sempre.