quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Férias

Eu tirei férias, acredita? Foram quase 30 dias. Fiz um monte de coisas, mas, ao mesmo tempo, fiz quase nada. Acho que esse é o mistério das férias: diante de um monte de coisas, que normalmente não se pode fazer (ou porque não tem tempo, ou porque não sobra tempo, ou porque se é desorganizado, etc.), enfim, férias, eu fiquei de férias.
Pude dormir tarde e levantar mais tarde ainda. Fazer nada o dia inteiro. Ler o que eu queria, quando queria e se queria. Nada de leituras obrigatórias que poderiam ser classificadas de: gênero desnecessário. Essa vida de 'maraja', de ócio puro, de preguiça divina, aconteceram apenas até o décimo quarto dia. Depois, viajei! E foi nesta viagem que pude descobrir o que Deus queria me ensinar. Perólas que carregarei pela vida toda.
Fui ver pessoas especiais que há tempos não via. Redescobri a importância de estar perto das pessoas que amamos. Notei que a saudade é alimentada pelos mais nobres sentimentos. Que a ausência se torna relevante pois evidencia quem, de fato, é insubstituível na vida. Nessas férias pude relembrar o que é estar com que se quer estar, e que a presença de Deus se faz para além da mémoria e das lembraças. Talvez a história, em alguns contextos, é algo tão desnecessário, e, talvez, por causa disso, é digna de ser esquecida. O que importa mesmo é a história que está sendo contruída naquele exato momento, mas que será apagada e esquecida após alguns minutos. Isso não aconteceu de propósito, foi uma cilada da vida. Uma circunstância irremediável, e, infelizmente, crônica. Esse esquecimento, quase demoníaco, torna-se santo a partir do instante que a história que se faz naquele exato tempo-presente-eterno é tão significante quanto qualquer outra história já vista e construída. Vale mais que qualquer passado intocável.
Nessas férias aprendi que um conto, mentiroso ou não, pode ser a única coisa a ser dita para uma pessoa que não quer ser esquecida como ela já esquece. Não importa se os fatos estão todos enrolados, ou que aquilo nunca aconteceu, o que importa é sentir uma mão segurando bem forte a sua mão, ter olhos fitos nos olhos e tempo para se viver juntos, sem pressa e sem demora. Curtir o que será passado sem nunca ter sido presente ou rabiscado para o futuro.
Um fato revelador se fez nesse tempo de distância do mundo organizado. Pude aprender o que é servir. Fui intruído pelos mais variados sábios. Aqueles mesmo que fizeram suas faculdades na vida, seus mestrados nas necessidades do dia-a-dia, e seu doutorado nas perdas incomensuráveis. Ah, como me ensinaram, estes tais sábios! Como que na singeleza desfrutei de tanta riqueza. Ah, valioso amor! Ah, incondicional atenção! O que seria a vida sem vocês? Os meus grandes mestres foram aquelas pessoas que, para muitos, pouco poderia ensinar. É, talvez seja por isso que esses sejam os grandes e verdadeiros mestres. Eles habitam no oculto da razão dominante, isto é, escondidos sobre os olhos daqueles que não se condicionam aos cliches de sabedoria suja, porca, imunda, feia, boba... os profanos superam os divinos. O caos envergonha o cosmos. O alheio supera o específico.
Eita férias 'BOA'! Aprendi com o cuidado das galinhas, com a força das porcas que cuidavam de suas leitoinhas, com a preguiça dos gatos, com a alegria dos 'virinhas' (cachorros), com a flexibilidade dos macaquinhos, com a empolgação dos cavalos, com a repetição dos louros, com aqueles que mal sabem escrever o seu nome, mas tudo sabem a respeito do respeito. Ah, como eu aprendi! Contudo, a despedida se fez acontecer.
Diante do 'até logo', sobre o clima de 'adeus', parti para um monte que, outrora, foi aprazível. Dor e choro se misturaram com descepção e frustração. Ao ver o quintal, que em outros tempos era o meu campo de futebol, tornar-se palco da justiça femina. Após esse funeral a luz do dia, vivenciei a tragédia do luto por causa da vida e a celebração do encontro desencontrado.
Nunca tinha percebido o poder que o dinheiro exerce na vida do ser humano. É verdade que os maiores miseráveis moram nos mais belos palácios. Que as maiores misérias estão com aqueles que valorizam o que a traça consome e, deste modo, é destruído em sua finitude. Quisera eu gritar bem alto: valorize o afeto desprezado, o abraço negligenciado, o cuidado esquecido, o beijo rejeitado. Para quê gritar se não querem ouvir? Surdos da modernidade, cegos da contermporaneidade! Em contraste desta miséria, senti na pele o que é ser cuidado por 'estranhos'. A parábola do bom samaritano se encarnou no século XXI.
Pessoas que, realmente, têm muitas posses e bens, fazem dessas 'coisas' a oportunidade de dar aqueles que precisam. Me deram nada, mas, ao mesmo tempo, deram-me tudo. Um banho, uma camisa passada, uma tarde agradável. É, fiquei pertinho do Reino de Deus ou nele próprio, não sei bem. O Reino dos céus se fez presenta no diálogo que acontecia no descobrimento mútuo. A misericórdia de Deus se revelou na vida de pessoas que só queriam ser a continuação do dos pés, mãos e vida de Jesus. A graça de Deus se revelou, não por intermédio dos mediadores do sagrado, porém das pessoas que, na simplicidade, descobriram a chance de fazer Jesus acontecer no caminho da vida, na vida e para a vida.
Nesse contexto aprendi como ser 'pastoral' é cheio de paradoxo, mística e valores que, se as pessoas que carregam tal função soubessem, tomariam mais cuidados. Mas vou escrever sobre isso na próxima oportunidade.
O que vale afirmar é que nessas férias me ensinaram que os miseráveis nos acompanham e estão mais perto do que se pode imaginar. Foram nessas férias que desfrutei da próximidade do estranho, do cuidado dos que precisavam ser cuidados e do amor dos que só tinham motivos para praticaram a indiferença.
Agradeço a Deus por moldar minha vida em tão poucos dias. Fazer deste momento vivido a contrução do Reino que existe, mas que precisa ser criado.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

No princípio




No princípio era o verbo[...] cheio de graça e de verdade [...]

O último sermão que preguei em Jd. Conceição como pastor daquela comunidade foi sobre o princípio. Isto soou como uma certa contradição envolta em um ar de sarcasmo. Talvez o fim não seja o plano de fundo propício para se falar sobre o princípio. Afinal de contas, o começo de tudo já passou, agora é hora de celebrar ou, pelo menos, curtir o fim.
Acredito que a celebração do fim só faz sentido quando está com os olhos postos no princípio reservado no futuro. Se o término é uma celebração em si mesma, não passaria de um evento desconexos com os sentidos da vida. O baile do fim ocorre para apontar algo maior: o princípio.
Muito sábio quem inventou essa coisa de 'ano novo'. A virada do dia 31 para o dia 1 é um evento mais psicológico do que factual. Quando as pessoas voltam para a rotina, as coisas são as mesmas, os desafios (se não maiores) continuam lá, definitivamente, tudo o que existe continua no mesmo lugar, na mesma intensidade e na mesma proporção.
Porém, existem coisas que mudam. As pessoas ficam mais decididas para fazerem os regimes, desafiam-se a si mesmas para sua volta ao mundo acadêmico, estipulam prazos decisivos para colherem os resultados almejados. Portanto, é certo que algo muda.
Percebo isso no Evangelho de João. No começo ele celebra o término e aponta para o princípio de todas as coisas. Aquele que fez tudo do nada. Aquele que dá paz porque é a luz sobremodo perfeita. É aquele que transcende as conjecturas religiosas e, com veemência, faz uma proposição realmente valorosa.
Jesus é o princípio de tudo. Essa afirmação levanta questões: Jesus é o princípio da minha vida? O que fazemos que respeita e/ou valoriza o princípio de Cristo em nós? Mas o que de fato significa Jesus ser o princípio do ser cristão?
Para esta última pergunta, quero discorrer, brevemente, sobre três possibilidades. A primeira delas é que se Jesus é o princípio da minha vida, assumo novos valores. É possível conviver com pessoas que têm crenças distintas, todavia, é impossível conviver com pessoas com valores diferentes.
Ter novos valores é assumir a responsabilidade com o hoje, e se comprometer com o amanhã. Existe mais um ponto a ser mencionado quando se tem Jesus como o princípio de vida, isto é, assumir uma nova identidade. Ter uma nova identidade é interpretar os fatos que a vida propõe de modo proativo. Responder aos acontecimentos de modo coerente e consistente.
Além dos valores e da nova identidade, é fundamental o amor. O sentido do amor, nos dias atuais, esvaziou-se profundamente e, provavelmente, perdeu-se na grande nuvem da modernidade. Tal como a vida esta para a morte, assim o amor esta para o cristianismo. Por conseguinte, o verdadeiro ser cristão é aquele que encarna o amor e faz dele um adjetivo notável em suas pegadas.
Se Jesus é o princípio de tudo, é necessário começar esta nova jornada com novos valores. Valores inegociáveis! Ter Jesus como princípio é assumir uma identidade relevante. É fazer em si o que se contou ali. E, sobretudo, amar sem limites, amar sem idade, amar, simplesmente amar. Pois, como o próprio João diz em uma de suas cartas, quem ama conhece a Deus, porque Deus é amor (1Jo 4.8).
Precisamos dessas qualidades para o ano de 2011. Mas como afirma o Evangelho, é preciso ter graça em tudo o que se for fazer. Graça é dar aquilo que não se merece. Em contra partida, é necessário agir de modo misericordioso, isto é, não dar o que se merece. Graça e misericórdia são elementos importantes, porém, estes dois elementos só fazem sentido quando caminham paralelamente a verdade. Ser verdadeiro não é ser sincero a ponto de machucar as outras pessoas em nome de uma sinceridade dura, é, a cima disso, apontar algo que é libertador e renovador.
Neste ano que se inicia todos/as são convidados à olharem para Jesus, a fim de que ele seja o princípio de tudo o que se fará, que seja a luz diante das trevas, seja o tudo em todos, seja o amor nos lugares em que existirem a dor e a solidão, seja o refrigério diante das mais duras febres emocionais e sentimentais. Isto acompanhado da graça divina e da verdade libertadora. Haja vista que a graça sem a verdade, torna-se mole de mais e a verdade sem a graça, torna-se dura de mais.
Portanto, façamos do ano que se inicia a oportunidade de assumir tais princípios divinos.
Que Deus nos ajude.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

InVejo



Não invejo mais os teólogos, pois já aprendi a questionar as ambiguidades religiosas que cercam o dia-a-dia, e, paulatinamente, dar uma justificativa sistemática para os afãs humanos. Não invejo os filósofos. Descobri que semiótica complexa não dá conta da limitação humana, e, além de tudo, são facilmente reproduzidas, por não se comprometerem com as tensões axiomáticas que corroem os instintos vivos de cada pessoa.
Não invejo os músicos, nem os astrólogos, nem os cientistas, nem os sociólogos, nem os empresários, enfim, quantos mais? Em áreas distintas, com característica próprias, desempenham sua função com maestria, todavia, não chamam mais a minha atenção. É certo que sua utilidade é de extrema importância para o cotidiano, mas eles não furtam o meu desejo intenso de tomar para mim tais potencialidades humanas.
Mas existem alguns, quase que magicamente, que conseguem despertar em minh'alma grande admiração além de uma faísca tênue de inveja. Isto que sinto para os religiosos é uma evidência da minha pecaminosidade, para os filósofos, tal instinto pessoal seria a amostragem de minha incompetência existencial de dar sentido ao ser em si. Quantas argumentações mais os mais diversos especialistas dariam para minha atual condição?
Talvez todos estejam certos. Afinal de contas, o que posso fazer se admiro, e, porque não, invejo aquelas pessoas que conseguem expressar tão intensamente as ambiguidades do amor. Como invejo Neruda e seu estilo erótico e atual, que desperta não só o desejo, sobretudo a necessidade de amar. Como invejo Florbela Espanca, que diante da agonia expõe a potencialidade da esperança no ato de amar secretamente. Ah, como invejo Shakespeare e seu paradoxo de caminhar no viés do risco diante da dúvida! Invejo, incontestavelmente, Vinícius que, ao modo brasileiro, apresenta a paixão como o 'toque' que apimenta o amor.
Invejo estes poetas porque, noto neles a minha maior deficiência: a debilidade de expressar um pouco do amor que sinto e não dou conta de rabiscá-lo. Queria escrever uma fábula, na qual pudesse ser sincero comigo mesmo. Pois tenho a leve intuição de que com estórias é possível caricaturar, mesmo que nebulosamente, o que perturba a vida.
Nessa fábula eu diria que sua ausência gera uma intensa ansiedade dentro de mim. Escreveria sobre o caos do silêncio sem o seu suspiro, pois essa quietude assemelha-se aos gritos reservados aos hades. Nessa estória eu diria que quem precisa ser salvo não é a princesa, haja vista que ela é livre e desfruta da liberdade. Quem de fato carece do cuidado e de ser resgatado é cavaleiro. Um jovem que desconhece do amor verdadeiro, que foge quando ele se aproxima, não permitindo ser tocado pelos lábios doces tão anelados que é o amor.
Como eu invejo estes poetas que escrevem daquilo que podem provar empiricamente! E, diante das dúvidas, isolo-me em um mundo inexistente que, de antemão, aponta-me o seu Armagedon. Invejo tanto porque ainda não vivi 'tau' intensa paixão, mas que acredito que é possível ser alcançada.
Seguindo os passos das pessoas que invejo, terminarei com a Esperança de Florbela, acreditando que desfrutarei na vida um intenso amor. Com o toque picante de Neruda, tendo por certo que a paixão se evidenciará. Afirmando o paradoxo Shakespeariano, pois se amar é correr riscos, tentarei enfrentá-los. E, por fim, a paixão “carpem diem” de Vinícius.
Já diziam os sábios que 'as certezas geram ídolos, mas as incertezas, essas sim, são libertadoras', ainda tenho muitas incertezas, mas se posso ter uma certeza diante da incerteza é que a vida só se torna vida quando se deixa tocar pelos lábios doce do amor.
Que Deus me ajude a viver o que escrevi.