
A Teologia da Libertação é uma corrente teológica muito importante para o cristianismo na América Latina. Isso se dá porque essa forma de fazer teologia tem sua origem nos dramas humanos latinos-americanos. Não só a libertação, mas liberdade, são temas almejados e sonhados por este povo.Dentro do cristianismo, o primeiro passo para se pensar a libertação é refletir como as comunidades de fé tem seguido Jesus, pois a ênfase inicial é a respeito da experiência com Jesus. Nesse processo empírico, segundo a Teologia da libertação, descobre-se a solidariedade como a essência do amor Ágape. O amor, que ao invés de apontar o dedo, estende a mão. Esse princípio faz com que a teologia se torne crítica a respeito das ações que caracterizam sua práxis.
Dentro dessa temática, lembro-me de uma experiência, na comunidade de fé onde estou, quando uma senhora de 81 anos, pessoa que sustentava uma família com 16 pessoas, morreu repentinamente. Um dos filhos se aproximou, desesperado perguntou: Pastor, como vamos enterrar a nossa mãe? É Muito caro! A solidariedade aconteceu nesse momento. Não apenas com os sentimentos, pois era uma pessoa admirável em nossa Igreja, mas também financeiramente. Pois, mesmo sendo uma Igreja de periferia, conseguimos ajudar na compra daquele caixão e contribuir para um financiamento do restante dos valores.
A solidariedade que liberta é aquela que mexe não apenas com os sentimentos, mas deixa o 'bolso' sensível ao que realmente é importante. Nessa ocasião, a comunidade de fé teve a chance de partilhar do prejuízo, e, juntos, gozar do consolo de Deus.
Dentro dessa dinâmica, a Missão integral carrega o princípio de “o evangelho todo, para todo homem e o mundo todo”. O evangelho todo dá a voz para aqueles/as que são silenciados pelos grandes poderes hegemônicos. Não apenas os empobrecidos, mas todos os vitimados que estão no mundo são alvos do amor solidário de Jesus. Quando se contempla essa perspectiva, o 'jeito' de fazer missão na comunidade de fé é diferenciada. O foco não é mais o membro que vai constituir o livro de rol, mas o/a cristão/ã que vai aprender, a partir do evangelho, a seguir, contextualizadamente, os passos de amor e compromisso Jesus.
Existe uma grande tentação nos dias atuais que envolvem números. Conforme afirma Padilha “O problema do cristianismo-cultura reside em sua rendição do evangelho a uma fórmula para obter êxito, em sua equiparação do triunfo de Cristo com o crescimento quantitativo das conversões” (PADILHA: 1992, p.29). Crescimento bíblico não é uma metáfora aritmética, isto é, números não explicam o crescimento. A metáfora para o crescimento bíblico está relacionada com a biologia, logo, carece de tempo, dedicação, etapas naturais da vida, etc.
Esse princípio ajuda as comunidades cristãs da atualidade a pensarem as motivações de crescimento que foram adotadas. O crescimento eclesiástico não é pautado na metodologia administrativa e/ou de marketing, mas é algo desenvolvido com paciência, generosidade, amor, dedicação, cumplicidade, humildade e paz.
Para entender o crescimento como uma metáfora biológica, a ideologia de relacionamentos precisa ser o norte da comunidade de fé. Os vínculos afetivos é uma necessidade do ser humano, da mesma maneira que a água, o alimento, roupas e a estabilidade pessoal. A Teologia da libertação visa a vida como o fenômeno que precisa ser contemplado e afirmado. Portanto, para se afirmar a vida, e ela com abundância, é preciso desenvolver bons relacionamentos dentro e fora da comunidade de fé. A Igreja como gestora de relacionamentos.
A Trindade é um exemplo pedagógico. Deus Pai é aquele que apresenta um norte a ser trilhado, Jesus é aquele que vai à frente deste caminho e o Espírito Santo, como o 'motivador'. Não existe uma 'pessoa' na Trindade mais importante, mas sim, existe uma junção de potencialidades e complementariedade. Nesse sentido, a reconciliação é importantíssima. A reconciliação entre as pessoas, com Deus e com Deus. Reconciliar é ação de quem está apto a perdoar e recomeçar.
Como sinal de recomeço é necessário o arrependimento. Vale dizer que, em muitos casos, a Igreja antes de apontar um caminho de salvação, esperança e paz, condena as pessoas. Então, a pessoa por ser um miserável pecador, é agraciado pela graça de Deus. É evidente que a graça de Deus alcança as pessoas, não tenho dúvidas de que é preciso, em primeiro lugar, condenar as pessoas, enfatizando seus defeitos, a fim de que essa possa aceitar o evangelho. O arrependimento proposto pela Missão integral envolve a reorientação total da pessoa no seu convívio ordinário.
Quando as pessoas consideram o arrependimento levam a sério sua atuação no mundo, como também sua relação com Deus. O princípio muda! As pessoas não são condenadas para serem salvas, mas porque são amadas e por isso são salvas. Quando o indivíduo passa pelo processo de arrependimento, assume uma postura proativa diante da vida e para a vida. É interessante trabalhar este viés nas comunidades cristãs, porque o discurso acusativo é substituído pelo discurso do amor e do comprometimento mútuo.
Outra temática interessante da teologia da libertação é a ressurreição. Além de ser um tema central para o cristianismo, demonstra que as forças dominantes não podem vencer os princípios de Deus. A ressurreição é uma das formas de apresentar que todo totalitarismo, em si, é falho e insuficiente. Os crucificados estão com Deus! Isso contrapõe o pensamento de bênção que tem sido pregado nos dias atuais. Além disso, a ideologia da 'vitória' é anulada, pois, o 'grande vencedor' é aquele que negou a si mesmo, carregou a cruz e seguiu (Lc. 9.33).
Nessa mesma direção a Missão integral tem contribuições. Dados sociológicos apresentam a emergência de classes sociais, os quais se afirmam a partir do grande desejo de consumo. Para isso acontecer de modo eficaz, exporta-se a cultura dominante para uma cultura 'subdesenvolvida', a fim de que está sinta desejos sobre os bens propagados. Logo, as margens criam outras margens. O discurso religioso dá legitimidade consistente para este grupo, quando comprova que a prosperidade é sinal da bênção de Deus. Portanto, quanto mais se tem, mais abençoado é!
A Missão integral demonstra que sua função é levar o pão da vida e o pão que dá vida. Deste modo, quando se tem vida, tem-se o discernimento para separar o que é excesso, o que é banal do que é realmente importante. Muitas pessoas são movidas pelo aparente, e a missão integral tenta apontar que se preparar para a vida é necessário, mas ser dominado pelos objetos não tem coerência com a proposta do cristianismo.
Grande parte das pessoas que se dizem cristãs gastam dinheiro que não tem, para comprar coisas que não precisam, a fim de impressionar pessoas que não conhecem. Os grandes dominadores do século presente são: status, glamour e mentira. Isso ofusca a visão das pessoas para a verdadeira realidade. A miséria que assola a vida das pessoas. A miséria financeira, a miséria de relacionamentos, a miséria existencial, a miséria religiosa, dentre tantas mais.
Viver de aparência tornou-se, nos dias atuais, o grande 'inside'. Para isso acontecer efetivamente é necessário desvalorizar uma raiz cultural e, impiedosamente, colocar outra no lugar. Contudo, segundo a perspectiva da Missão Integral, é importante que a Igreja entenda que precisa contemplar as particularidades dos grupos. Logo, se a deficiência de um grupo é a pobreza excessiva, a Igreja precisa apontar caminhos para sanar esse déficit. Se o problema é o consumo desenfreado, a comunidade de fé precisa denunciar os exageros.
É grande o desafio para o ministério pastoral. Confesso que depois que passei a ler alguns textos específicos sobre a teologia latino-americana, comecei a repensar a minha maneira de fazer teologia e, principalmente, de desenvolver o pastoreio. Aprendi a respeito do pastoreio bem e mal sucedido. O pastoreio bem sucedido é aquele em que o/a pastor/a é o grande líder, com um bom carro, poucos (ou nenhum) envolvimento inter-pessoal na comunidade de fé, tem uma boa casa, boas roupas e, à cima de tudo, um discurso americanizado.
Mas, por outro lado, existe o pastoreio mal sucedido. Pastor/a não está em evidência. Não tem os melhores trajes e o melhor carro. É aquela pessoa que 'cheira' gente. Que consegue desenvolver bons relacionamentos inter-pessoais. Participa do cotidiano de sua comunidade de fé. É visto como 'mal sucedido' porque não tem a aparência, status e mentira que o ministério 'bem' sucedido possui. Tanto para a Missão integral como para a teologia da libertação, o ministério de cuidado desenvolvido pelo pastoreio precisa ser sensível as reais necessidades da vida. A vida se impões, e o ministério pastoral tem que estar pronto para se pronunciar diante dessa imposição.
Quando o ministério pastoral se cala, enaltece a perversão do cristianismo. Se o cristianismo perde o seu rumo original, é necessária a conversão nas estruturas. Pois, como se pode falar de justiça em um contexto em que a grande maioria é composta por injustiçados? Como falar de igualdade onde reina a desigualdade? O ministério pastoral, a luz do evangelho, precisa denunciar, exortar e consolar pessoas que, em muitos casos, não sabem o que fazer e nem para onde ir.
Na primeira aula o Prof. Jung perguntou para os alunos o que era missão? Minha definição foi que “Missão é a ação da Igreja”, portanto do povo cristão, diante da sociedade. Seu objetivo é de descobrir, de afirmar, como também, de desenvolver o Reino de Deus. A missão é o viés que a Igreja tem para ser, de fato, instrumento nas mãos de Deus”. Ainda acredito nisso, e tenho por certo que contribuições da teologia latino-americana como da Missão integral podem possibilitar uma abrangência efetiva no ministério pastoral para todas as pessoas que são vitimadas.
Tanto a Missão integral como a Teologia da Libertação tem como objetivo último auxiliar na propagação do Reino de Deus. Sem pretensões individualistas, mas com um horizonte em que a unidade, diálogo e companheirismo podem ser fatores que antecipem o Reino de Deus. Que Deus continue a abrir caminhos, que Jesus nos aponte a direção e o Santo Espírito nos impulsione a caminhar em direção dessa utopia tão sonhada!
