segunda-feira, 20 de abril de 2009

Páscoa no casamento

Introdução
Em primeiro lugar, é preciso ter claro o significado do termo Páscoa em nossos dias. Qual é a sua classificação e o que ele representa? Será que a Páscoa tem alguma coisa “a vê” com casamento? Será que é possível viver o “espírito” da Páscoa constantemente em nossos casamentos e como fazer isso?
O conceito de Páscoa, em nossos dias, está ligado com Ovos de chocolate e coelhinho, mas a grande sacada é o quanto se pode consumir. Quantos ovos, não pode ser simples “ovinhos”, tem que ser os mais bonitos e mais caros. Isso está presente em nossos dias. Em minha concepção, pior do que isso, são comunidades cristãs que deixam a data da Páscoa passar batida, vazia e sem significado. Lembram vagamento o que aconteceu (a morte de Jesus), ressaltando o seu sofrimento, mas pouco se prendem ao verdadeiro significado da Páscoa.
Por isso, este trabalho quer ressaltar um pouco o verdadeiro significado da Páscoa e fazer uma hermenêutica, não apenas com os nosso dias, mas principalmente com a situação de nossos casamento. Apontando um caminho, à partir da páscoa, para o casamento. Caminho de benção e vitória.
1. A etimologia do Conceito Páscoa
A Páscoa tem suas origens muito além do que pensamos. As vezes restringimos a Páscoa como um evento cristão à partir de Jesus, ou pensamos que a páscoa é uma cultura judaica que tem o seu início com Moisés, contudo, os estudos bíblicos, apontam que a origem da páscoa está muito antes de Moisés. A exegese bíblica apresenta que a páscoa era uma celebração que os povos nômades e seminômades faziam, em tempos específicos para pedir a Deus que livrasse na mão das pestes do campo, as pestes da saúde e tudo aquilo que poderia trazer a morte.
Isso mostra que a Páscoa foi uma celebração constituída para se opor a morte e a destruição. O termo PESSAH (Páscoa) tem o sentido de: Salto, movimento, caminhada, travessia, passar por cima. Para este ritual, era preciso imolar um animal, ungir a casa com o sangue deste animal para que o exterminador mexehit (ou saqueador, bando de destruição, agressor, desgraça, enfermidade, peste ou acidente que poderia acontecer com qualquer membro da família ou os seus animais).
Depois de ungir as portas da casa, era assado o carneiro e toda a família comia junto, em uma grande refeição o alimento. O grande desafio era comer tudo, e sempre com o espírito familiar. Isso demonstrava que a família estava unida para enfrentar qualquer tipo de MEXEHIT que tentasse entrar.
Esse pequeno exemplo do campo semântico nos mostra que a Páscoa era um evento, sobretudo familiar, de prevenção de qualquer tipo de pestes e um clamor a presença de Deus para ele proteger. A celebração da Páscoa pode ser entendida como um agradecimento pela libertação da escravidão e a concessão da terra para morar, criar a familiar e plantar para obter o alimento. A celebração possui uma dimensão profética da contínua presença Salvadora de Deus junto ao seu povo.
1.1. Lembrar e Esquecer
A Páscoa também carrega em si duas palavras fundamentais e muito importantes, sendo elas: Lembrar e Esquecer. No antigo testamento esses dois termos são muito preciosos. Haja vista que todo o povo hebreu, tinha como costume, em momentos de crise e insegurança, olhar para o passado, procurar situações semelhantes ao presente e a partir disso, elaborar uma esperança para a vida atual. Logo, o termo Lembrar para o povo Hebreu é fundamental. Mas a dimensão de esquecer é muito precioso, sobretudo quando tange o pecado. Pois quando a bíblia aponta que Deus irá esquecer os seus pecados ou quando algum salmista ou profeta indaga a Deus se ele esqueceu de seu povo ou de sua aliança com esse povo, está se referindo à total vazio, nada. É como se isso nunca estivesse acontecido ou que fosse uma coisa que não chama a atenção de Deus. Tanto que, para o povo hebreu não existia a dimensão do inferno, mas sim, a questão do lugar de esquecimento. Sendo que ninguém, nem seus filhos, nem seus amigos, nem seus familiares iriam lembrar de você. Esse era o maior medo do povo semita.
Portanto, a dimensão de Lembrar e Esquecer é fundamental, e está muito entrelaçado com a Páscoa. A Páscoa nos ajuda a Esquecer:
Esquecer aquilo que não foi tão bom, esquecer o trauma, esquecer os longos anos de cativeiro, de opressão, de escravagismo. Esquecer aquilo que só trouxe vazio, tristeza, melancolia e frustrações. Quais são as características que seu casamento, hoje, precisa Esquecer.
É certo que Esquecer está muito relacionado com o termo Perdoar. Por isso, é bom lembrar que “Perdoar” passar por três dimensões: 1° eu posso perdoar? 2° Eu quero perdoar? 3° Eu consigo Perdoar? A vida à dois nos leva a pensar a respeito disso de jogar algumas coisas ao pleno esquecimento e que, quando existe a disposição para Esquecer algo, as possibilidades de perdoar são muito maiores.
A outra dimensão é a respeito do Lembrar. Os Salmos falam muito a respeito de Deus e para ele lembrar do seu povo. Os profetas também afirmam a importância de Deus se lembrar de suas promessas. É lindo quando o texto bíblia diz: quero trazer a memória aquilo que me dá ou pode dar esperança (Lm 3.21).
O fato de lembrar de alguma coisa é muito importante para o povo hebreu. Porque na lembrança existe a força do agir libertador de Deus. Quando se faz esforço de lembrar, é possível perceber os atos salvíficos de Deus com Abraão, Isaque e Jacó. Percebe o cuidado de Deus com José, o zelo com Moisés, a proteção com Josué; a constância com Gideão; a unção na vida de Samuel; a coragem na vida de Davi, sabedoria de Salomão; na persistência dos profetas em meio a uma sociedade cruel, corrupta e vendida; aos primeiros discípulos e apóstolos que permaneceram; na vida de Jesus que se deu a morte, e morte de cruz, para dar e trazer a vida para todos que nele cressem.
Essas duas palavras desafiam nossos casamentos. Em primeiro Lugar: o que é preciso esquecer? É certo que todos (as) tem a tendência de esquecer coisas boas e positivas que aconteceram em nossas vidas e na vida do casal. Ao invés de esquecer aquilo que machucou, o que não deu certo, se esquecem dos momentos bons, gostosos, prazerosos e românticos. Isso nos ensina que, é preciso esquecer, mas aquilo que não acrescenta nada no casamento. Por vezes, os casamento estão indo a ruínas pelo simples fato dos conjugues optarem esquecer o momento de enamoramento, lua de mel, a “primeira vez”, os beijos longos e demorados, os momentos de piadas. São esses momentos, mesmo que passados, que sustentaram os casamentos. São eles que irão motivar o casal a incentivá-los para mais vezes.
No que tange ao Lembrar acontece coisa semelhante. Os casais lembram somente aquilo que não deu certo, somente os erros do outro, quando ele esqueceu a data, quando ela gritou. É preciso lembrar aquilo que pode dar esperança. Sabendo que sempre o casamento é plano de Deus. Investir no casamento é benção.
O desafio que a páscoa traz são: Esquecer aquilo que pode trazer ou gerar morte e Lembrar aquilo que pode dar e/ou trazer esperança. Não estou dizendo que é para descartar os erros, mas olhar com olhos mais positivos e construtivos para eles.
2. O campo Semântico da Páscoa
Dentro do campo semântico da Páscoa, podemos encontrar algumas palavras que podem ajudar o ser humano a um casamento mais virtuoso. Vejamos algumas palavras que a Páscoa nos incita a observar.
2.1. Salvar
O termo salvar tem algumas definições: (redimir, resgatar, socorrer, livrar, libertar) esse quadro de sinônimos apresenta como é importante a salvação dentro do mundo bíblico. Esse termo salvar é bastante teológico, tem como referencia o clamor de um povo extremamente sofrido, e em atenção à essa súplica, Deus providencia toda sorte de auxilio, envia a resposta, liberta, abençoa, salva, faz justiça, protege e redime.
Quais são as áreas que nossos casamentos precisam resgatar, socorrer, livrar, redimir? Será que é a confiança? Os gestos românticos? O amor? Todo tempo é tempo para se salvar os nossos casamentos, que são plano de Deus.
2.2. Deserto
O deserto para o mundo bíblico tem muito valor. Para entender esse significado no No Antigo Testamento, mas é preciso entender o seu sentido geográfico. Deserto é lugar terrível, de estepes e de barrancos, seco e escuro que ninguém atravessa ou habita, e também, ermo e solitário. Apesar dessas conotações negativas, é neste local que se vê a ação de Deus. Durante 40 anos o povo israelita caminhou no deserto, para alguns profetas esses são os momentos mais férteis e de muito significado para todo o povo bíblico. Foi no deserto que os escravos aprenderam a viver comunitariamente e obedecer a voz de Deus. No deserto é que aprenderam que não podem viver individualmente e egoisticamente, mas viver a graça e desfrutar da graça. O deserto é local de desolação, mas é lugar de companhia de Deus; é lugar sem fertilidade mas foi o tempo pleno da graça e da palavra de Deus. O deserto faz com que o peregrino olhe para o céu e veja um sol escaldante, olhe para os lados e veja areia quente, a sua única esperança é Javé e confiar nele. Foi neste contexto que o profeta Oséias fala: “eu te atrairei, e a levarei para o deserto.
No Novo Testamento: no novo testamento o deserto precede a Páscoa. O deserto é um marco na vida ministerial de Jesus. o deserto é lugar de provação e de providência divina.
Todos os casamentos passam e vivem no meio do deserto. Parece que a única certeza é que todos os casamentos passaram constantemente pelo deserto. Mas é o deserto que tem a capacidade de viver na dependência de Deus, confiando que Ele irá tomar conta dos seus. É no deserto que todos os casamentos passam pelo momento de crise. Sendo que crise tem um duplo significado muito interessante. Por um lado crise é lugar de “perigo, medo, destruição”. A crise tem esse poder, de destruir, de matar, e normalmente ela é criada em momentos de deserto. Contudo, o outro significado da palavra crise é Oportunidade.
È no meio do Caos, do perigo, da total destruição que podemos reconstruir alguma coisa. O deserto gera essa oportunidade de se lançar nos braços de Deus e deixar ela tomar conta, apontar o caminho, ser Deus de nossas vidas, casamentos e corações. O texto bíblico em Lucas 4 que quando estamos passando pelo deserto, Deus manda os seus anjos para cuidar de seu povo. Da mesma maneira, quando o casamento passa pelo deserto, mas resolve fazer a vontade de Deus, é certo que Deus madará o seus anjos para tomar conta dos seus.
2.3. O número 40
O número 40 tem várias explicações, contudo é bom ressaltar com a perspectiva dos: 40 dias de dilúvio, 40 anos no deserto, 40 anos de bom reinado de Davi e 40 dias que Elias caminhou para se encontrar com Deus. Pode ter uma relação com o número 4, que têm a vê com os 4 pontos cardeais, quatro rios irrigam toda a terra, o símbolo da intervenção divina que renova a vida e a esperança no mundo. Sendo que o número 40 sinaliza um novo período da atividade de Deus.
No novo Testamento o número 40 continua: 40 dias e 40 noites que Jesus fica no deserto, Jesus permanecesse 40 dias na terra (antes do pentecostes).
O número 40 está relacionado diretamente com a vida e com a ação humana. Logo, para se ter um casamento abençoado é preciso dar os primeiros passos, ter atitude. Agir é fundamental para que o casamento seja abençoado. Quando a Páscoa ressalta o numero 40 ela quer ensinar que: “suas atitudes falam tão alto que as pessoas não vão conseguir ouvir sua voz”. Logo, a restauração dos casamentos e o tempo de benção nos casamentos não depende apenas de Deus, mas também do casal.
2.4. Refeição pascal
No Antigo Testamento: (1) essa liturgia pascal quer destacar a importância da família para a sobrevivência futura do povo bíblico; (2) o valor da mesa de refeição não é somente para o alimento físico, mas também serve para o fortalecimento dos laços comunitários e com Deus; (3) essa reunião destinava-se manter viva a memória de libertação do povo, através da dramatização dos fatos ocorridos durante o processo de fuga da escravidão egípcia.
No Novo Testamento: Nos eventos pascais que marcaram a paixão de Cristo, a refeição inicia e conclui o drama. Antes da prisão, Jesus come a refeição pascal com seus discípulos e institui o memorial da Páscoa. Após a ressurreição, Jesus revive a refeição pascal, comendo com os discípulos (Lc 24,30ss; Mc 16.14).
O maior símbolo do cristianismo é a mesa, porque é nela que existe comunhão, isso significa que é na mesa que existe cumplicidade, isso é simbolo do casamento.
2.5. Ressurreição
No conceito de ressurreição, mais do que a vitória definitiva da vida sobre a morte, aparece o conceito da justiça divina que será exercida no momento da implementação definitiva do Reino de Deus (Reino da Justiça). É comum nos extratos mais antigos do Novo Testamento o uso do verbo levantar (egeiro) no passivo, demonstrando com isso a ação divina na salvação de Jesus da morte. Este sentido é, também, aplicado a comunidade cristã a qual participa da morte e, conseqüentemente, da ressurreição de Jesus.
A ressurreição tem que fazer parte de nossos casamentos. Ressurreição é dar nova vida, fazer nova vida, ter nova vida. Abandonar o jeito antigo, os hábitos antigos e passar a viver a novidade. Ressuscitar o casamento é fundamental.
Conclusão
A Páscoa desafia nossos casamentos à esquecer os péssimos fatos e lembrar daquilo que pode dar e trazer esperança. Nos ajuda a querer salvar nossos lares, que o deserto faz parte da vida e do matrimônio, que a ação humana é fundamental para o milagre e cuidado divino, que o ato de estar junto, ser companheiro é preciso pois isso é a base do cristianismo e; por fim, todos os dias são dias de ressurreição do matrimônio, e conseqüentemente do lar.

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