
Texto Mateus 13.1-9
1 Naquele mesmo dia, saindo Jesus de casa, assentou-se à beira-mar;
2 e grandes multidões se reuniram perto dele, de modo que entrou num barco e se assentou; e toda a multidão estava em pé na praia.
3 E de muitas coisas lhes falou por parábolas e dizia: Eis que o semeador saiu a semear.
4 E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e, vindo as aves, a comeram.
5 Outra parte caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra.
6 Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se.
7 Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram.
8 Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto: a cem, a sessenta e a trinta por um.
9 Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
É perceptível que nos dias atuais o cultivo da espiritualidade está em baixa. Nota-se que existe muita religião mais pouca fé. A dimensão espiritual não é vista como prioridade pelas igrejas e consequentemente pelos membros. Afinal de contas, para que o indivíduo precisa cuidar de sua vida devocional? Em geral, as pessoas se preocupam mais com os problemas do cotidiano, em cuidar do corpo físico (academia, etc.), em ter momentos de diversão, voltar suas atenções para o trabalho e as demandas emergentes, do que se atentar para o que realmente é importante e tem valor.
A partir daí, algumas expressões de espiritualidade são desenvolvidas:
Espiritualidade superficial: uma espiritualidade na qual a pessoa se contenta com os encontros formais aos domingos. Não desenvolve cultos familiares, momentos de devocional, descarta a ideia de uma vida de oração e jejum, fragmenta a sua fé aos encontros públicos;
Espiritualidade descompromissada: é aquela que as pessoas não querem responder por algum projeto da comunidade, está envolvida em muitas coisas mas nunca se dá por inteiro;
Espiritualidade obrigatória: é aquela sensação de peso e imposição. Não existe leveza na relação com Deus pois tudo esta restrito ao que tem que fazer;
Espiritualidade comercial: é aquela que as pessoas acreditam que pagando bem tem direitos. Deus se torna um grande empreiteiro que ao passo que é bem remunerado, realiza todos os desejos;
Espiritualidade convencional: é aquela espiritualidade que não transcende o senso comum. As pessoas não exigem nada de si. Contentam-se em uma vida coerente com a grande maioria;
Espiritualidade contagiante: é aquela que a pessoa sabe que da mesma proporção que a alimentação e a água é fundamental para o a vida, a vida espiritual é fundamental para a essência da vida. Reconhece que a oração, o jejum, os atos de misericórdia são sinais visíveis. Busca incansavelmente a santidade bíblica, e sente parte daquelas pessoas que foram enviadas por Jesus, como responsável pelo Reino de Deus ser visto, vivido e esperado.
Uma espiritualidade contagiante é aquela cultivada, tratada e cuidada. A ilustração vegetal representa isso muito bem, pois apresenta o impacto do cuidado ou do descuido.
Sem sombra de dúvidas, Jesus foi um grande pedagogo. Ele utilizava de temas corriqueiros das pessoas e, de modo muito simples, apresentava ideias a respeito do Reino de Deus. Todas as parábolas de Jesus continha algo 'anormal', isto é, alguma coisa que normalmente não acontecia.
Lembro-me em uma das minhas visitas pastorais, uma pessoa muito amada que tinha uma casa na roça me convidou para plantar abóbora. Ele escolheu bem a parte do terreno que iria plantar. Não poderia ser em qualquer lugar. A terra tinha que ser boa, bem preparada, afim de que as abóboras pudessem crescer bem, sem atrapalhar as outras plantações. Minha mãe, em sua prática de cuidar do jardim, sempre tomava os devidos cuidados para plantar as rosas, orquídeas, margaridas, etc. Ela tomava todos os cuidados.
Nessa parábola, o 'semeador' saí para semear. Não prepara a terra, não cultiva, simplesmente lança sementes. Desleixo do semeador? Despreparo? Pouco caso? Ou um alerta da parte de Jesus que a semente pode ser lançada, mas se a terra não for adequada, terá uma vitória aparente, só que com o tempo tudo vai à ruína? Diferente da vida real que existe uma distinção entre terra boa e terra má, o semeador da parábola lança suas sementes para todas as terras, independente das aparências ou das qualificações, a função do semeador é semear, lançar sementes.
Fica evidente que essa é uma das anormalidades da parábola. Jesus questiona a multidão e os discípulos a pensarem a respeito da terra que eles são. Deus não faz distinção de pessoas, todavia as pessoas tem a função de fazer de si mesmas terra boa e saudável para o cultivo da semente. Talvez uma das preocupações de Jesus era o motivo pelo qual aquelas pessoas estavam seguindo.
Umas poderiam seguir pelos sinais que o Evangelho de Mateus apresentam, outras pelos ensinamentos, outras porque acreditavam que ele era o Cristo bélico, outras por acreditar que ele era o Filho de Deus, enfim, quantas motivações poderiam ser consideradas. Possivelmente uma das preocupações de Jesus era que a multidão pensasse a respeito de sua espiritualidade.
É interessante que Jesus acaba de sair de um momento de tensão, isso porque no capítulo 12 apresenta uma certa tensão entre ele e seus familiares. O texto apresentam que ele vai para o mar e se senta. É tão bonito a humanidade de Jesus, parece que Jesus tenta ter um tempo consigo mesmo, de auto conhecimento. Descobrir um pouco mais de si. Nesse ínterim a multidão se aproxima, e por ser muito grande, ele sobe num barco, senta-se diante da multidão que fica em pé e passa a ensinar.
Algumas situações de nossas vidas esperam respostas imediatas. Mesmo que isso seja o mais óbvio a se fazer, é, também, o mais insensato. Dizem que para cada pergunta complexa existe uma resposta simples, objetiva e errada. A preocupação de Jesus era de cultivar nas pessoas uma espiritualidade contagiante, para isso alguns cuidados vêem a tona, vejamos alguns deles.
I – Cuidado se sua espiritualidade esta baseada em sensações e emoções.
O texto afirma que a semente caiu à beira do caminho, numa terra vulnerável a qualquer provação e cilada, sendo que até mesmo os raios de Sol e as aves do céu tem a capacidade de por um fim nessas sementes. Uma terra desapropriada.
Pois bem, isso acontece muito com pessoas que baseiam sua espiritualidade apenas com a emoção e com as sensações. Pessoas que vivem em busca de constantes revelações, profetizações atualizadas, orações fortes, etc. Uma espiritualidade que não se abre para o ato de pensar, apenas sentem. Rapidamente estão bem, em pé, mas por não conseguirem sistematizar sua fé e assim entender que a caminhada com Deus envolve, também, altos e baixos, quedas e erguidas, abrem mão da sua fé, rapidamente são consumidos pelas artimanhas do inimigo.
Assim, somos chamados para pensar se nossa espiritualidade não superficial e esta tão fragilidade que em qualquer investida do maligno somos destruídos. Entendemos a palavra que ouvimos? Se não, o que podemos fazer para entender e deixar de ser uma terra desapropriada?
II – Cuidado se sua espiritualidade não te deixa uma pessoa 'pé do chão'
A parábola de Jesus afirma que as sementes que caíram em solo rochoso lembra aquelas pessoas que recebem alegremente a palavra, que aparentemente entenderam o sentido do Evangelho e suas exigências diante da vida. Todavia, quando a vida passa a ser vida, essas mesmas pessoas que em outro tempo receberam bem o Evangelho, descartam pois não tinham raízes profundas.
Uma planta só cresce quando sua rais está bem firmada e bem cuidada. Logo, muitas pessoas não conseguem desenvolver uma espiritualidade madura porque não tem rais, são pessoas que estão por um fio diante da queda. Sua espiritualidade não tem força, talvez por não ser alimentada da maneira que devia, e ficar numa superficialidade na dimensão espiritual, isso devido a uma adequação ao modo inexpressivo e irrelevante da espiritualidade.
Diante de obstáculos, que teria tudo para proporcionar o crescimento, gera destruição. Nota-se isso pois o Sol tem a intenção não de destruir, mas de gerar maturidade e crescimento. É certo que o processo de amadurecimento acontece, por diversas vezes, por intermédio da dor e sofrimento, mas se a pessoa não tem uma fé consistente e aprofundada em Deus, a provação que poderia gerar bênção, gera maldição e desgraça.
Logo, Deus desafia o seu povo para uma caminhada existencial que transcenda as circunstâncias. Uma espiritualidade madura nos leva, automaticamente, para uma postura firme, na qual adquirimos condições para decifrar os reais sentidos das provações. A Bíblia esta repleta de pessoas que devido a uma espiritualidade madura e profunda conseguiram perceber e entender o cuidado e amor de Deus. Abrir os olhos antes que seja tarde demais.
III – Cuidado se sua espiritualidade está baseada apenas na racionalidade.
Jesus afirma que as sementes que caem entre os espinhos, até crescem, mas chega numa fase que são sufocadas e morrem. Jesus alerta as pessoas que para ser seduzido pelas evidências do mundo é muito fácil. Dinheiro, comodidade, profissionalismo, etc., são artimanhas presentes e de extrema sedução. São suficientes para apagar a fé e destruir a vida de devoção.
Em nossos dias muitas pessoas fundamentam sua espiritualidade nos bens materiais. O trabalho torna-se o mais importante em sua. Para outras pessoas a família é o mais importante. Outras consideram os estudos. Há também aqueles que supervalorizam a vida eclesiástica. É certo que todas essas áreas são importantes, só que existe algo de extremo valor.
A intenção de Jesus não era que todas as pessoas vivessem integralmente para uma instituição religiosa, é, acima disso, um chamado a uma vida simples de oração e dependente não das riquezas, haja vista que elas tem um poder admirável em destruir e derrubar as pessoas na fé. Jesus quer que as pessoas tenham uma fé edificada e dependente do cuidado de Deus.
Isso tudo acontece porque a razão toma conta do ser. Os sentidos, as emoções, o inexplicável, o inespremível são ridicularizados e minimizados ao que se pode entender. A razão tem que ser equacionada com a fé, pois sozinha é apenas um mecanismo de confusão. Lembre-se que as certezas geram ídolos, as incertezas são libertadoras. A racionalização pode dar consistência à fé, como, também, pode arruinar a fé. Por isso é preciso a síntese entre os dois.
IV – Cuidado se sua espiritualidade não frutifica.
A última semente apontada por Jesus é aquela que caí em terra boa, e compensa todas as sementes que caíram em terras infrutíferas. A distinção básica feita por Jesus não é a respeito do crescimento, da estética, enfim, a distinção entre terra boa e terra ruim são os frutos. A terra tornou-se frutífera, apropriada, bela.
Se temos uma espiritualidade fundamentada numa terra boa, consequentemente damos frutos dignos de arrependimento. O cuidado que essa terra nos alerta é que por muitas vezes achamos que tudo o que devia ser feito já foi, que não existem mais forças para dar continuidade. Todavia, uma boa árvore dá frutos, não engana. Podemos lembrar o trecho que Jesus se irritou com a figueira que aparentemente estava em tempo de frutificar, mas que não dava frutos.
Somos terras boas? Aonde estão os nossos frutos? Quando estivermos diante de Deus o que apresentaremos para Ele como resposta de nossa mordomia cristã? Temos frutificado ou enganado com uma beleza aparente, mas inconsistente e incompetente de alimentar?
Finalmente, somos desafiados para pensar qual tipo de terra somos, além do nosso desafio de continuar o cultivo. Lembro-me da historia que certo homem que toda manhã pegava um ônibus até o trabalho. Certa manhã ele notou que havia uma senhora, com mais de 60 anos, sentada logo no primeiro banco do ônibus, com a janela aberta, lançava sementes ao ar, aonde o ônibus passava. Esse jovem observava e não entendia o que acontecia. Ele pensava: o que essa 'louca' está fazendo? Que perca de tempo. Extremamente desnecessário. Essa cena se repetia durante dias, semanas, meses, até que então, esse jovem rapaz, irritado com a ação da semeadora, pergunta o que ela estava fazendo. De modo muito brando ela responde: estou criando um jardim público. O jovem, mais irritado pela ignorância da resposta da senhora responde: mas a senhora está perdendo o seu tempo. Nenhuma semente vai dar certo. Além do que, quem vai reparar nesse seu jardim? Existem coisas importantes para as pessoas pensarem, olharem e fazerem. Por que a senhora não faz alguma outra coisa? A senhora, com um olhar muito singelo responde. Impaciência juvenil, sempre muito imediatista. Estou bem aqui, semeando minhas sementes. Sei que um dia esse canteiro será um lindo jardim que dará alegria, além de deixar o ambiente muito mais bonito. O jovem foi embora, indignado, sem compreender aquela senhora. Esse jovem conseguiu um emprego em outra cidade, construiu sua vida nos moldes de bem sucedidos de uma sociedade sem escrúpulos. Depois de muitos anos ele volta para trabalhar em sua cidade natal. Sente saudade do tempo em que estava começando sua vida, pega o mesmo ônibus de sua juventude. Senta bem na frente e, quase que instantaneamente, lembra-se da senhora que jogava semente, e vai até a janela aonde ela ficava. O espanto é a primeira coisa perceptível em seus olhos. Havia um jardim lindo naquele canteiro. Uma diversidade no que se refere aos tipos de flores. Como num suspiro ele diz: “Nossa”. O motorista ao perceber o alto suspiro diz: lindo não é? Pois bem, foi um investimento de mais de 10 anos de uma senhora que lançava sementes pela janela do ônibus pelas manhãs. Graças a ela temos um lindo jardim nesse itinerário. O homem bem sucedido que outrora havia repreendido aquela senhora, sente uma vergonha intensa dentro de si, senta no mesmo banco que ela e vai a viagem toda pensativo. Noutro dia pela manhã, aquele homem bem sucedido se senta no primeiro banco do ônibus, com um saquinho de papel cheio de sementes, as quais ele lançava pela janela, seguindo o mesmo trajeto que aquela senhora anônima, mas que marcou a vida de muitas pessoas.
Essa é uma história muito simples, todavia nos desafia a uma espiritualidade que cultive bons frutos, além de questionar se de fato somos terra boa, que frutifica. Que Deus nos ajude tomar os devidos cuidados, afim de que possamos rever, constantemente, nossos conceitos de espiritualidade e vida com Deus. Que o Senhor nos ajude.

