domingo, 10 de julho de 2011

Cuidados na semeadura espiritual



Texto Mateus 13.1-9
1 Naquele mesmo dia, saindo Jesus de casa, assentou-se à beira-mar;
2 e grandes multidões se reuniram perto dele, de modo que entrou num barco e se assentou; e toda a multidão estava em pé na praia.
3 E de muitas coisas lhes falou por parábolas e dizia: Eis que o semeador saiu a semear.
4 E, ao semear, uma parte caiu à beira do caminho, e, vindo as aves, a comeram.
5 Outra parte caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca, e logo nasceu, visto não ser profunda a terra.
6 Saindo, porém, o sol, a queimou; e, porque não tinha raiz, secou-se.
7 Outra caiu entre os espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram.
8 Outra, enfim, caiu em boa terra e deu fruto: a cem, a sessenta e a trinta por um.
9 Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.


É perceptível que nos dias atuais o cultivo da espiritualidade está em baixa. Nota-se que existe muita religião mais pouca fé. A dimensão espiritual não é vista como prioridade pelas igrejas e consequentemente pelos membros. Afinal de contas, para que o indivíduo precisa cuidar de sua vida devocional? Em geral, as pessoas se preocupam mais com os problemas do cotidiano, em cuidar do corpo físico (academia, etc.), em ter momentos de diversão, voltar suas atenções para o trabalho e as demandas emergentes, do que se atentar para o que realmente é importante e tem valor.
A partir daí, algumas expressões de espiritualidade são desenvolvidas:
Espiritualidade superficial: uma espiritualidade na qual a pessoa se contenta com os encontros formais aos domingos. Não desenvolve cultos familiares, momentos de devocional, descarta a ideia de uma vida de oração e jejum, fragmenta a sua fé aos encontros públicos;
Espiritualidade descompromissada: é aquela que as pessoas não querem responder por algum projeto da comunidade, está envolvida em muitas coisas mas nunca se dá por inteiro;
Espiritualidade obrigatória: é aquela sensação de peso e imposição. Não existe leveza na relação com Deus pois tudo esta restrito ao que tem que fazer;
Espiritualidade comercial: é aquela que as pessoas acreditam que pagando bem tem direitos. Deus se torna um grande empreiteiro que ao passo que é bem remunerado, realiza todos os desejos;
Espiritualidade convencional: é aquela espiritualidade que não transcende o senso comum. As pessoas não exigem nada de si. Contentam-se em uma vida coerente com a grande maioria;
Espiritualidade contagiante: é aquela que a pessoa sabe que da mesma proporção que a alimentação e a água é fundamental para o a vida, a vida espiritual é fundamental para a essência da vida. Reconhece que a oração, o jejum, os atos de misericórdia são sinais visíveis. Busca incansavelmente a santidade bíblica, e sente parte daquelas pessoas que foram enviadas por Jesus, como responsável pelo Reino de Deus ser visto, vivido e esperado.
Uma espiritualidade contagiante é aquela cultivada, tratada e cuidada. A ilustração vegetal representa isso muito bem, pois apresenta o impacto do cuidado ou do descuido.

Sem sombra de dúvidas, Jesus foi um grande pedagogo. Ele utilizava de temas corriqueiros das pessoas e, de modo muito simples, apresentava ideias a respeito do Reino de Deus. Todas as parábolas de Jesus continha algo 'anormal', isto é, alguma coisa que normalmente não acontecia.
Lembro-me em uma das minhas visitas pastorais, uma pessoa muito amada que tinha uma casa na roça me convidou para plantar abóbora. Ele escolheu bem a parte do terreno que iria plantar. Não poderia ser em qualquer lugar. A terra tinha que ser boa, bem preparada, afim de que as abóboras pudessem crescer bem, sem atrapalhar as outras plantações. Minha mãe, em sua prática de cuidar do jardim, sempre tomava os devidos cuidados para plantar as rosas, orquídeas, margaridas, etc. Ela tomava todos os cuidados.
Nessa parábola, o 'semeador' saí para semear. Não prepara a terra, não cultiva, simplesmente lança sementes. Desleixo do semeador? Despreparo? Pouco caso? Ou um alerta da parte de Jesus que a semente pode ser lançada, mas se a terra não for adequada, terá uma vitória aparente, só que com o tempo tudo vai à ruína? Diferente da vida real que existe uma distinção entre terra boa e terra má, o semeador da parábola lança suas sementes para todas as terras, independente das aparências ou das qualificações, a função do semeador é semear, lançar sementes.
Fica evidente que essa é uma das anormalidades da parábola. Jesus questiona a multidão e os discípulos a pensarem a respeito da terra que eles são. Deus não faz distinção de pessoas, todavia as pessoas tem a função de fazer de si mesmas terra boa e saudável para o cultivo da semente. Talvez uma das preocupações de Jesus era o motivo pelo qual aquelas pessoas estavam seguindo.
Umas poderiam seguir pelos sinais que o Evangelho de Mateus apresentam, outras pelos ensinamentos, outras porque acreditavam que ele era o Cristo bélico, outras por acreditar que ele era o Filho de Deus, enfim, quantas motivações poderiam ser consideradas. Possivelmente uma das preocupações de Jesus era que a multidão pensasse a respeito de sua espiritualidade.
É interessante que Jesus acaba de sair de um momento de tensão, isso porque no capítulo 12 apresenta uma certa tensão entre ele e seus familiares. O texto apresentam que ele vai para o mar e se senta. É tão bonito a humanidade de Jesus, parece que Jesus tenta ter um tempo consigo mesmo, de auto conhecimento. Descobrir um pouco mais de si. Nesse ínterim a multidão se aproxima, e por ser muito grande, ele sobe num barco, senta-se diante da multidão que fica em pé e passa a ensinar.


Algumas situações de nossas vidas esperam respostas imediatas. Mesmo que isso seja o mais óbvio a se fazer, é, também, o mais insensato. Dizem que para cada pergunta complexa existe uma resposta simples, objetiva e errada. A preocupação de Jesus era de cultivar nas pessoas uma espiritualidade contagiante, para isso alguns cuidados vêem a tona, vejamos alguns deles.


I – Cuidado se sua espiritualidade esta baseada em sensações e emoções.
O texto afirma que a semente caiu à beira do caminho, numa terra vulnerável a qualquer provação e cilada, sendo que até mesmo os raios de Sol e as aves do céu tem a capacidade de por um fim nessas sementes. Uma terra desapropriada.
Pois bem, isso acontece muito com pessoas que baseiam sua espiritualidade apenas com a emoção e com as sensações. Pessoas que vivem em busca de constantes revelações, profetizações atualizadas, orações fortes, etc. Uma espiritualidade que não se abre para o ato de pensar, apenas sentem. Rapidamente estão bem, em pé, mas por não conseguirem sistematizar sua fé e assim entender que a caminhada com Deus envolve, também, altos e baixos, quedas e erguidas, abrem mão da sua fé, rapidamente são consumidos pelas artimanhas do inimigo.
Assim, somos chamados para pensar se nossa espiritualidade não superficial e esta tão fragilidade que em qualquer investida do maligno somos destruídos. Entendemos a palavra que ouvimos? Se não, o que podemos fazer para entender e deixar de ser uma terra desapropriada?

II – Cuidado se sua espiritualidade não te deixa uma pessoa 'pé do chão'
A parábola de Jesus afirma que as sementes que caíram em solo rochoso lembra aquelas pessoas que recebem alegremente a palavra, que aparentemente entenderam o sentido do Evangelho e suas exigências diante da vida. Todavia, quando a vida passa a ser vida, essas mesmas pessoas que em outro tempo receberam bem o Evangelho, descartam pois não tinham raízes profundas.
Uma planta só cresce quando sua rais está bem firmada e bem cuidada. Logo, muitas pessoas não conseguem desenvolver uma espiritualidade madura porque não tem rais, são pessoas que estão por um fio diante da queda. Sua espiritualidade não tem força, talvez por não ser alimentada da maneira que devia, e ficar numa superficialidade na dimensão espiritual, isso devido a uma adequação ao modo inexpressivo e irrelevante da espiritualidade.
Diante de obstáculos, que teria tudo para proporcionar o crescimento, gera destruição. Nota-se isso pois o Sol tem a intenção não de destruir, mas de gerar maturidade e crescimento. É certo que o processo de amadurecimento acontece, por diversas vezes, por intermédio da dor e sofrimento, mas se a pessoa não tem uma fé consistente e aprofundada em Deus, a provação que poderia gerar bênção, gera maldição e desgraça.
Logo, Deus desafia o seu povo para uma caminhada existencial que transcenda as circunstâncias. Uma espiritualidade madura nos leva, automaticamente, para uma postura firme, na qual adquirimos condições para decifrar os reais sentidos das provações. A Bíblia esta repleta de pessoas que devido a uma espiritualidade madura e profunda conseguiram perceber e entender o cuidado e amor de Deus. Abrir os olhos antes que seja tarde demais.

III – Cuidado se sua espiritualidade está baseada apenas na racionalidade.
Jesus afirma que as sementes que caem entre os espinhos, até crescem, mas chega numa fase que são sufocadas e morrem. Jesus alerta as pessoas que para ser seduzido pelas evidências do mundo é muito fácil. Dinheiro, comodidade, profissionalismo, etc., são artimanhas presentes e de extrema sedução. São suficientes para apagar a fé e destruir a vida de devoção.
Em nossos dias muitas pessoas fundamentam sua espiritualidade nos bens materiais. O trabalho torna-se o mais importante em sua. Para outras pessoas a família é o mais importante. Outras consideram os estudos. Há também aqueles que supervalorizam a vida eclesiástica. É certo que todas essas áreas são importantes, só que existe algo de extremo valor.
A intenção de Jesus não era que todas as pessoas vivessem integralmente para uma instituição religiosa, é, acima disso, um chamado a uma vida simples de oração e dependente não das riquezas, haja vista que elas tem um poder admirável em destruir e derrubar as pessoas na fé. Jesus quer que as pessoas tenham uma fé edificada e dependente do cuidado de Deus.
Isso tudo acontece porque a razão toma conta do ser. Os sentidos, as emoções, o inexplicável, o inespremível são ridicularizados e minimizados ao que se pode entender. A razão tem que ser equacionada com a fé, pois sozinha é apenas um mecanismo de confusão. Lembre-se que as certezas geram ídolos, as incertezas são libertadoras. A racionalização pode dar consistência à fé, como, também, pode arruinar a fé. Por isso é preciso a síntese entre os dois.

IV – Cuidado se sua espiritualidade não frutifica.
A última semente apontada por Jesus é aquela que caí em terra boa, e compensa todas as sementes que caíram em terras infrutíferas. A distinção básica feita por Jesus não é a respeito do crescimento, da estética, enfim, a distinção entre terra boa e terra ruim são os frutos. A terra tornou-se frutífera, apropriada, bela.
Se temos uma espiritualidade fundamentada numa terra boa, consequentemente damos frutos dignos de arrependimento. O cuidado que essa terra nos alerta é que por muitas vezes achamos que tudo o que devia ser feito já foi, que não existem mais forças para dar continuidade. Todavia, uma boa árvore dá frutos, não engana. Podemos lembrar o trecho que Jesus se irritou com a figueira que aparentemente estava em tempo de frutificar, mas que não dava frutos.
Somos terras boas? Aonde estão os nossos frutos? Quando estivermos diante de Deus o que apresentaremos para Ele como resposta de nossa mordomia cristã? Temos frutificado ou enganado com uma beleza aparente, mas inconsistente e incompetente de alimentar?
Finalmente, somos desafiados para pensar qual tipo de terra somos, além do nosso desafio de continuar o cultivo. Lembro-me da historia que certo homem que toda manhã pegava um ônibus até o trabalho. Certa manhã ele notou que havia uma senhora, com mais de 60 anos, sentada logo no primeiro banco do ônibus, com a janela aberta, lançava sementes ao ar, aonde o ônibus passava. Esse jovem observava e não entendia o que acontecia. Ele pensava: o que essa 'louca' está fazendo? Que perca de tempo. Extremamente desnecessário. Essa cena se repetia durante dias, semanas, meses, até que então, esse jovem rapaz, irritado com a ação da semeadora, pergunta o que ela estava fazendo. De modo muito brando ela responde: estou criando um jardim público. O jovem, mais irritado pela ignorância da resposta da senhora responde: mas a senhora está perdendo o seu tempo. Nenhuma semente vai dar certo. Além do que, quem vai reparar nesse seu jardim? Existem coisas importantes para as pessoas pensarem, olharem e fazerem. Por que a senhora não faz alguma outra coisa? A senhora, com um olhar muito singelo responde. Impaciência juvenil, sempre muito imediatista. Estou bem aqui, semeando minhas sementes. Sei que um dia esse canteiro será um lindo jardim que dará alegria, além de deixar o ambiente muito mais bonito. O jovem foi embora, indignado, sem compreender aquela senhora. Esse jovem conseguiu um emprego em outra cidade, construiu sua vida nos moldes de bem sucedidos de uma sociedade sem escrúpulos. Depois de muitos anos ele volta para trabalhar em sua cidade natal. Sente saudade do tempo em que estava começando sua vida, pega o mesmo ônibus de sua juventude. Senta bem na frente e, quase que instantaneamente, lembra-se da senhora que jogava semente, e vai até a janela aonde ela ficava. O espanto é a primeira coisa perceptível em seus olhos. Havia um jardim lindo naquele canteiro. Uma diversidade no que se refere aos tipos de flores. Como num suspiro ele diz: “Nossa”. O motorista ao perceber o alto suspiro diz: lindo não é? Pois bem, foi um investimento de mais de 10 anos de uma senhora que lançava sementes pela janela do ônibus pelas manhãs. Graças a ela temos um lindo jardim nesse itinerário. O homem bem sucedido que outrora havia repreendido aquela senhora, sente uma vergonha intensa dentro de si, senta no mesmo banco que ela e vai a viagem toda pensativo. Noutro dia pela manhã, aquele homem bem sucedido se senta no primeiro banco do ônibus, com um saquinho de papel cheio de sementes, as quais ele lançava pela janela, seguindo o mesmo trajeto que aquela senhora anônima, mas que marcou a vida de muitas pessoas.
Essa é uma história muito simples, todavia nos desafia a uma espiritualidade que cultive bons frutos, além de questionar se de fato somos terra boa, que frutifica. Que Deus nos ajude tomar os devidos cuidados, afim de que possamos rever, constantemente, nossos conceitos de espiritualidade e vida com Deus. Que o Senhor nos ajude.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Psiu...



[texto sem pretensões teológicas, apenas um esforço pessoal de expressar o inexprimível d'alma.].

Hey, Psiu... Como o tempo passou rápido né? As coisas continuaram mesmo quando se pensou que tudo tinha acabado. Tudo se ajeitou. Ficou tudo acomodado em antigos moldes. A vida não foi interrompida mesmo diante de um súbito rompimento.

Hey, Psiu... é ingênuo ou burrice de nossa parte não ter pontuado as lacunas que se abriram diante do inusitado. Feridas quando não sao tratadas, infeccionam, doem muito mais. Dói muito mais quando essa ferida esta localizada em terras nunca pisadas por pessoa alguma - uma verdadeira utopia, lugar do não lugar. Não é tão difícil assim tratar, só que diante de uma ferida maligna, o que resta é esperar a morte se evidenciar - como aconteceu - Não é mesmo?

Hey, Psiu... A gente não perde o que não se tem. Duro pra entender isso? [acho que não]. O tempo, por sua vez, é muito sábio. O Tempo não só explica, ele cura. O processo terapêutico do tempo é mostrar que a imaginação tem que ser ponderada a partir da realização. Não dá para viver um mundo fictício, num conta de fadas. Nada é tão perfeito como nessas histórias. O príncipe é um sapo e a princesa nao é uma miss.

Hey, Psiu... não chore por leite derramado, afinal de contas, as lágrimas não vão limpar a sujeira. É preciso pegar a toalha e limpar. Isso não é extipar memórias, é, acima disso, superar lindamente o que poderia ter sido e não foi.

Hey, Psiu... Agora é hora de criar, isto é, trazer a existência o que nao existe. Lembre-se que muitas coisas já existem, só que precisam ser criadas. Não é porque existe que não careça de criação. Criar é dar vida, gerar esperança, fazer algo significativo e divertido. então.. crie na existência.

psiu... Divirta-se. Viva! Sorria! Sorria de tudo. Sorria pra tudo. Sorria com tudo. Dos carros, das cores, dos apelidos, das situações, da vida. Simplesmente Sorria.. Isso não é uma atitude de desesperado é, sim, saber que sorrir é a melhor alternativa para quem tenta nos fazer chorar.
Hey, Psiu... Aprenda isso, esqueça isso. viva isso...

domingo, 3 de julho de 2011

Descarrego




Mateus 11.28-30
28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.
29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.
30 Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Quem inventou essa coisa de 'fim de ano e começo de ano' foi uma pessoa muito sábia. É muito bom saber que todo período de começo gera no ser humano novas expectativas. Muitas pessoas, por exemplo, traçam um propósito de perder alguns quilos no começo do ano, de intensificar sua vida devocional, etc. Traçam uma porção de auto desafios que se dissolvem logo nos primeiros dias, ou, quando muito, nas primeiras semanas.
É interessante que as pessoas querem recomeçar quando sentem que as coisas já estão bastante pesadas, que o fardo da vida esta pesando de mais, que o jugo que se carrega traz muitas feridas para a alma, são nessas situações que as pessoas tendem a procurar uma tentativa de recomeço e de ressignificação da vida.
Diante de todo esse cenário de necessidade de transformação nos perguntamos: por onde começar a começar? Em muitos casos, a vida nos sobrecarrega, o stress do cotidiano, as pressões familiares, do trabalho, da igreja vão nos inibindo, oprimindo-nos a tal ponto que parece que o melhor a se fazer é deixar a vida nos levar, 'afinal de contas', pensamos, 'não tem como mudar.'.
Realmente, falar em mudanças é relativamente fácil. Entender que as mudanças são necessárias não é tão difícil, todavia abraçar a mudança como um paradigma de vida a ser vivenciado e incentivado é, sem sombra de dúvidas, extremamente complicado. As pessoas mudam, mas com muita dificuldade e muitas tentativas de erros e acertos, mas são atitudes pessoais que precisam partir do indivíduo que entende que o melhor a se fazer é mudar e transformar.
Nessas horas não dá para ficar em uma superficialidade em nossa caminhada espiritual, é preciso lançar-se ao mais profundo até nos deparar com o desconhecido de Deus, que aos poucos revela algo muito significativo, além de proporcionar uma ruptura com nossas concepções de vida e vida com Deus. Nessas horas é necessário questionar a importância de nossa espiritualidade em nossas vidas. Infelizmente a espiritualidade, para muitas pessoas, é algo bastante desnecessário, haja vista que cultivam apenas sua vida com Deus aos domingos ou em ambientes propositais religiosos. Continuam carregando os mesmo pesos, os mesmos fardos, contentando-se com o medíocre.
Definitivamente a proposta do Evangelho é gerar nas pessoas um descarrego tamanho que auxilie na tarefa de vencer a vida. Não um descarrego momentâneo e circunstancial, baseado na expulsão demoníaca. Um descarrego que abranja a totalidade e a existência do ser humano.

Tenho a leve impressão que é esse descarrego que Jesus quer provocar em todas as pessoas que estão dispostas a segui-lo. Algo que vai para além da situação, da circunstância, uma situação que abranja a totalidade do ser humano.
Infelizmente a mística que é desenvolvida nos dias atuais é aquela voltada para as necessidades superficiais das pessoas. Uma espiritualidade que trate os sintomas mas que não analisa e cura a essência daquilo que nos constrange e tira a nossa paz. Jesus neste trecho inaugura uma nova face do seu ministério.
Percebe-se que Jesus é rejeitado por muitos e acolhidos por alguns. Jesus já estava em sua missão de anunciar o Reino de Deus. A partir de curas, milagres, sinais e ações tangíveis Jesus aponta que o Reino esperado pode ser vivido. A missão é enfática no trabalho de Jesus, pois ele tem a intenção de alcançar muitas pessoas, afirmando, deste modo, o caráter universal do Evangelho de Mateus. Jesus realiza muitas obras, Mateus é enfático na abrangência do Reino de Deus, todavia, muitas pessoas persistem em continuar sobre o peso doentio da religiosidade impossível.
Vale dizer que a lei se tornara insuportável para a maioria das pessoas, porque não podiam adquirir a ciência complicada nos 248 mandamentos e das 365 proibições estabelecidas pelos doutores. A vida com Deus, ao invés de ser leve e suave, era extremamente pesada e machucava. A proposta de Jesus é trazer leveza, embora a santidade interior exija maior perfeição.
A proposta de Jesus é libertadora porque substitui o fardo e o jugo, isto é:
Fardo: Pacote, objeto ou conjunto de pacotes ou objetos volumosos e/ou pesados destinados a transporte algo que é penoso, difícil de fazer, carregar ou suportar: o fardo da velhice – por exemplo; é aquilo que exige cuidados e responsabilidade.
Jugo: Peça de madeira colocada sobre a cabeça dos bois e que os atrela a uma carroça, arado etc.; CANGA, Situação de submissão a alguém por meio de violência; OPRESSÃO; SUJEIÇÃO, Relação de subserviência e obediência.
É necessário que nós consigamos nos despir de fardos adquiridos por erros pessoais ou impostos, deixá-los e, assim, caminhar livres, leves. Porém, o fardo pesado deixa o cotidiano insustentável, as relações tornam-se complicadas, uma situação insuportável. Exige de nós responsabilidades para além do que podemos responder. Ficamos atrelados numa situação de violência, opressão, sujeição àquilo que tira de nós a vida e nos lança a condição de trevas e dor.


Jesus observa que as pessoas viviam oprimidas pelas demandas da vida, por suas expectativas estarem postas em condições inatingíveis, por desconhecerem que a vida é simples e pode ser vivida de modo simples. Assim, ele dá algumas sugestões para a nossa espiritualidade.


I – O 'descarrego' só acontece para quem reconhece que precisa de ajuda.
Jesus diz 'vinde a mim', isto é, ele espera que as pessoas tomem uma ação em direção a ele. Nessa ação de ir até ele as pessoas precisam reconhecer que não conseguem nada sozinhas. Que estão cansadas por causa das pressões da vida e sobrecarregadas com todas as demandas.
Reconhecer a necessidade de tratamento ou de cuidados especiais não é tarefa fácil. A cultura contemporânea despreza pessoas que reconhecem suas fraquezas, suas incapacidades de superação diante dos obstáculos da vida, afinal de contas um perdedor não serve para nada. Diante de uma sociedade que supervaloriza os 'supers' fictícios, quem é demasiadamente humano é descartável.
Esquecemos das orientações bíblicas que diz: “quando estou fraco é que estou forte” (2 Cor 12.2). A nossa fraqueza é o ponto inicial e crucial para caminharmos em direção ao cuidado de Deus. Nosso limite é a nossa maior potencialidade. Este é o momento ideal para entregarmos nosso fardo diante de Deus e, para isso, é preciso reconhecer que estamos:
Cansados de sofrer, cansados da solidão, cansados de uma vida vazia de sentidos e;
Sobrecarregados pois parece que estamos carregando algo para além de nossas forças.
Nessa situação, é fundamental se aproximar de Jesus com a expectativas que ele trará alívio e fortaleza à nossas vidas. Isso não significa que ele mudará as circunstancias, que teremos respostas imediatas, porém podemos ter a convicção de que Deus nos dará a capacidade para superar os desafios ao passo que reconhecemos que é nele e com ele que conseguiremos refrigério d'alma.

II – O 'descarrego' de Deus desperta para um novo paradigma de vida.
O texto afirma que é fundamental tomar o 'fardo' de Jesus, pois é leve e 'aprender' com ele que é manso e humilde de coração, isto é:
Manso de coração porque não se deixa contaminar com as tensões do cotidiano;
Humilde de coração pois não tem falsas pretensões a respeito de si mesmo.
Tanto a mansidão como a humildade são adjetivos que seguem o discurso de Jesus. As pessoas que almejam segui-lo assumem um novo paradigma de vida. Não está baseado no stress do dia a dia, no qual é preciso provar para conhecidos e desconhecidos o status que se tem, a glória que se consegue, os patamares intocáveis que se está, pelo contrário, a mansidão que Jesus propõe é uma espiritualidade bastante profunda, tendo ambições semelhantes a de Jesus: o esvaziamento.
Ser humilde não é assumir uma posição de coitado ou de vanglória. É ter bastante esclarecido os seus limites e potencialidades. É reconhecer que o amor de Deus se manifesta de modo muito significativo em nossas vidas, mas, ao mesmo tempo, é saber que somos pecadores e que nada do que façamos poderá recompensar o que Deus já fez e faz por nós. É nessa trajetória de aprendizado e desprendimento que se alcançará descanso, paz e o verdadeiro descarrego.

III – O descarrego traz um novo paradigma de vida.
O ato de descarregar, lançar em Jesus tudo o que tira a nossa paz, lançar sobre ele aquilo que nos desestrutura, é a melhor opção e escolha que podemos fazer. Ao passo que nos livramos de pressões, tensões e opressões que nos limitam, assumimos um novo paradigma de vida. Isto é, conceitos que se tinha, ideologias pessoais são reestruturados a partir da concepção de que Jesus é aquele que traz leveza, serenidade e sustentação para o nosso viver.
Quando Jesus afirma que seu jugo é suave, talvez esteja trazendo a tona um pouco da experiência de Elias que viu a ação de Deus não das formas mais estrondosas e miraculosas, mas de uma maneira bastante simples, mas com muito consistência. O ministério que podemos desenvolver juntos é assim: com suavidade, generosidade e muita dependência da ação divina. Se por um lado o jugo do mundo machuca o ser humano, gera feridas e muitas marcas doloridas, a proposta de Jesus é caminhar de modo simples e, ao mesmo tempo, bondoso.
Outra ambiguidade na proposta de Jesus é um fardo leve. Segundo o conceito humano, um fardo leve não serve para nada, afinal de contas, quanto mais pesado, significa que tem mais coisas, tem mais utilidade, etc. Um fardo leve representa algo vazio. Possivelmente o que dê peso e gere dificuldade para o ser humano é o antônimo do que Jesus espera das pessoas que se propõe a segui-lo. A proposição de Jesus é leve, isto é, não é um fardo, é algo possível e sustentável.
Podemos desenvolver um ministério sem o peso da religiosidade contemporânea que exige resultados imediatos, milagres constantes, moralismo preconceituoso e despreendimento do que é essencial ao evangelho. É possível ter uma espiritualidade que lance todos os pesos que geram alienação e assumir a leveza do discipulado de Jesus.


Torna-se evidente que a proposta de Jesus é um descarrego existencial, no qual o apego a coisas que oprimem a vida, que deixam as circunstâncias insustentáveis, inviáveis é repudiado pelo amor e Evangelho de Jesus. Reconhecer a necessidade desse descarrego é o primeiro passo para desfrutar do cuidado divino. Nesse processo de auto reconhecimento, descobrimos a importância de aprender com Jesus detalhes fundantes para um coração reestruturado. Não adiante ter novos paradigmas se a vida não é impactada pelo paradoxo da mudança.
As rupturas circunstanciais são essenciais para o despreendimento daquilo que ofusca o verdadeiro sentido de nossa existência. Portanto, aproveitar de tais ocasiões ajuda o ser humano a assumir paradigmas de leveza, suavidade mas de responsabilidade.
Se por um lado a proposta de Jesus é de trazer leveza ao ser humano, por outro lado, é um chamamento para uma vida de responsabilidade. Portanto, diante dos desafios que aparecerão, possamos ter este 'descarrego' como marca de nosso ministério.