[Pregação no dia 26 de Junho de 2011 em Jd. Conceição. Um período muito importante em minha trajetória ministerial. Sei que o texto é longo, mas se tiver um tempinho e não foi neste culto precioso, dê uma olhadinha.]
Texto: Gênesis 22.1-19
1 Depois dessas coisas, pôs Deus Abraão à prova e lhe disse: Abraão! Este lhe respondeu: Eis-me aqui!
2 Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei.
3 Levantou-se, pois, Abraão de madrugada e, tendo preparado o seu jumento, tomou consigo dois dos seus servos e a Isaque, seu filho; rachou lenha para o holocausto e foi para o lugar que Deus lhe havia indicado.
4 Ao terceiro dia, erguendo Abraão os olhos, viu o lugar de longe.
5 Então, disse a seus servos: Esperai aqui, com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós.
6 Tomou Abraão a lenha do holocausto e a colocou sobre Isaque, seu filho; ele, porém, levava nas mãos o fogo e o cutelo. Assim, caminhavam ambos juntos.
7 Quando Isaque disse a Abraão, seu pai: Meu pai! Respondeu Abraão: Eis-me aqui, meu filho! Perguntou-lhe Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?
8 Respondeu Abraão: Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para o holocausto; e seguiam ambos juntos.
9 Chegaram ao lugar que Deus lhe havia designado; ali edificou Abraão um altar, sobre ele dispôs a lenha, amarrou Isaque, seu filho, e o deitou no altar, em cima da lenha;
10 e, estendendo a mão, tomou o cutelo para imolar o filho.
11 Mas do céu lhe bradou o Anjo do SENHOR: Abraão! Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui!
12 Então, lhe disse: Não estendas a mão sobre o rapaz e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho.
13 Tendo Abraão erguido os olhos, viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres entre os arbustos; tomou Abraão o carneiro e o ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho.
14 E pôs Abraão por nome àquele lugar -- O SENHOR Proverá. Daí dizer-se até ao dia de hoje: No monte do SENHOR se proverá.
15 Então, do céu bradou pela segunda vez o Anjo do SENHOR a Abraão
16 e disse: Jurei, por mim mesmo, diz o SENHOR, porquanto fizeste isso e não me negaste o teu único filho,
17 que deveras te abençoarei e certamente multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus e como a areia na praia do mar; a tua descendência possuirá a cidade dos seus inimigos,
18 nela serão benditas todas as nações da terra, porquanto obedeceste à minha voz.
19 Então, voltou Abraão aos seus servos, e, juntos, foram para Berseba, onde fixou residência.
É sempre muito bom voltar para a casa. Esta Igreja representa, em minha trajetória ministerial, o começo de meu ministério pastoral, e hoje, de um modo muito especial, representa o recomeço de tudo. Foi aqui que entendi o meu chamado pastoral. Entendi que os verdadeiros cristãos são aquelas pessoas que não têm pretensões de mostrar o que são, simplesmente se esforçam para ser. Foi aqui que aprendi a amar o desconhecido, visitar o estranho, ouvir o anônimo, atender quem precisava, mesmo sem ter muitas condições para isso.
É nesse clima de recomeçar que quero pautar este sermão. Haja vista que 8 anos de vida e missão de uma comunidade de fé já é tempo o suficiente para se pensar aonde estão postos os olhos? Aonde se pretende chegar? Como esta a espiritualidade? etc. Para mim, este trecho de Gênesis representa um pouco disso, uma provação que desencadeou uma nova concepção de vida.
Esse texto é profundamente rico em sentidos e significados. A história de Abraão vista em profundidade apresenta como os critérios de Deus são totalmente diferentes dos critérios humanos para desenvolver os seus projetos e sonhos. Isso porque, definitivamente, Abraão não tinha o perfil adequado para iniciar uma nação, afinal de contas, um estrangeiro, 'meio' desequilibrado, sem uma integridade pessoal no que se refere ao âmbito familiar, não teria condições de tal responsabilidade.
Nota-se que essa perícope tem o seu início trazendo a memória tudo o que havia acontecido. Abraão havia feito uma aliança Abimeleque, havia expulsado Agar e Ismael ao deserto de uma forma bastante cruel. Mesmo nessa situação é possível notar o cuidado e amor de Deus. Parece que a vida de Abraão estava bastante estável, afinal de contas, as promessas de Deus haviam se cumprido em sua vida. Já tinha um descendente homem, tinha bens, uma família estruturada, logo, não tinha do que se preocupar.
Desconfio que o que mais pode nos abater não são as nossas fraquezas, pois ficamos atentos com elas, mas, sim, nossas forças e potencialidades. Essas são aquelas que nutrem nosso sentimento de acomodação, estabilidade e, paulatinamente, nos fazem perder a nossa essência.
Parece que é nessa situação que Deus prova Abraão. Um homem que estava com a vida feita precisava ser 'provado' pelo próprio Deus, por que? Penso que não é um grande martírio ser provado por Deus, é, sem sombra de dúvidas, um grande privilégio. São nas provações feitas por Deus que percebemos o quanto somos dominados por aquilo que não deveria nos dominar. São nessas provações que descobrimos se a bênção não se transformou em maldição.
Este relato bíblico é considerado pelos exegetas como uma 'novela', pois investe muito tempo em relatar detalhes da caminhada de Abraão. As vezes experiências tão profundas como este texto apresente são esvaziadas pois grande parte das pessoas sabem o final da história e não se permitem tocar pelo contexto bíblico, estabelecendo uma conexão entre a vida e a Bíblia. Esse texto é fundamental na caminhada de Abrão porque demonstra sua confiança diante de Deus. É um texto que questiona a religiões de sua época, as quais tinham o hábito de sacrificar os filhos primogênitos em oferecimento aos seus deuses, mas é, também, um texto que aponta o caráter de Deus como pai, aquele que não toma o que dá, mas que questiona a espiritualidade e as prioridades das pessoas que se propõe em segui-lo.
Deus não é um capacho que gosta de ver o seu povo sofrendo. Que sente prazer em tirar o que foi conquistado com muito esforço. É um Deus que ama e não quer ver seu povo tão amado preso e dominado pelas bênçãos, pois podemos transformar bênção em maldição.
A experiência de vida de Abraão tem muitas tangências com as nossas próprias vidas, sendo assim, vejamos alguns aspectos relevantes para a nossa caminhada cristã.
I – As provações questionam a profundidade de nossa espiritualidade.
O texto relata a intenção de Deus em 'provar' a vida de Abraão. Algumas perguntas surgem, como: será que Abraão estava fora do eixo? Haja vista que ele tinha mandado seu filho para 'morrer' no deserto? Será que Abraão estava conformado com a situação existencial que ele vivia, acreditava que a situação que ele vivia era o patamar do que Deus tinha para ele?
A fala de Deus não foi suave, pelo contrário, foi dura. Pede à Abraão a sua maior bênção, o que ele tinha de melhor. A concretização dos seus sonhos. Nessa direção, notamos que o ser humano gosta de sentir:
Conforto diante da vida;
Segurança de que não haverá improviso e;
Garantia caso algo não dê certo.
Deus, em sua fala à Abraão, tira-o de sua região de conforto, desestabiliza-o, portanto, não oferece segurança além de não dar nenhuma garantia do que acontecerá. Deus coloca Abraão em “Xeque”. Possivelmente depois dessa fala de Deus Abraão não tenha dormido mais aquela noite. A ação de Deus surpreendeu Abraão. É interessante que este homem fica em silêncio, pelo menos o texto bíblico não cita se ele falou alguma coisa para Deus. Cita, apenas, que de madrugada ainda – sinal de uma pessoa ansiosa para agir – vai para o local direcionado por Deus.
As provações não são apenas para nos desestabilizar é muito mais que isso. Abraão se prepara para fazer o que Deus mandou. É um período de silêncio. É um período para caminhar segundo o direcionamento de Deus. É, possivelmente, o tempo mais intenso que temos ao lado de Deus.
Quando vivemos um tempo de provações gerado por Deus, somos levados, mesmo sem querer, para lugares inesperados. A distância que Abraão percorreu até o local em que Deus havia pedido o sacrifício exigia três dias de caminhada. Por que Deus queria esse deslocamento de Abraão? Por que não poderia ser feito esse sacrifício ali aonde Abraão estava?
Alguns deslocamentos exigem muito de nós. Sair de um contexto de estabilidade a fim de entregar a Deus, num lugar distante, o que se tem de melhor é um processo bastante doloroso, todavia, como tudo na vida, essa trajetória um dia chega ao fim.
Imagino como deve ter sido doloroso a Abraão ao olhar, mesmo que de longe, o lugar que seria o holocausto de seu filho. É interessante que passamos por situações similares, quando temos que enfrentar algo muito difícil. Depois de caminhar muito, deparamo-nos com nosso calvário, lugar de dor, morte e sofrimento. É um momento que ainda é preciso caminhar. A vontade interior é parar, não enfrentar, voltar para trás, enfim, é um tempo que se pudéssemos não viveríamos.
Ao invés de questionarmos o 'por que' da situação, é melhor levantar a cabeça, erguer os olhos e enfrentar com dignidade e, mesmo com medo, com convicção da presença de Deus.
II – O “eis-me aqui” tem que ser constante em nossa caminhada.
A resposta de Abraão ao chamado de Deus é eis-me aqui. A resposta de Abraão ao seu filho é eis-me aqui. A resposta de Abraão ao anjo é eis-me aqui. Portanto:
Quando Deus te apontar algo a ser feito e realizado, por mais que seja doloroso, estranho, conturbado, disponha-se a fazer. Caminhe segundo a orientação de Deus. Se Deus te chama para uma responsabilidade mais intensa em seu Reino, obedeça. Se Deus te chama para um maior despreendimento de sua vida, faça. Se Deus te pede o que você tem de melhor, dê. Não existe nada melhor do que a obediência à voz de Deus.
Quando sua família te chamar responda 'eis-me aqui'. Por vezes somos extremamente sensíveis ao chamado ministerial, mas somos extremamente desligados quanto a nossa vida familiar. Não ouvimos a voz dos filhos, esposos, familiares. Precisamos estar com os ouvidos atentos para a nossa caminhada ministerial e familiar. Ouvir mesmo com os gritos das incertezas e ter uma resposta de fé diante dos cenários obscuros. Ouça a voz de Deus e ouça a voz da vida.
III – As evidências da provação não pode ofuscar a esperança da provisão divina.
Abraão tinha uma missão: sacrificar o próprio filho. Todas as situações estavam contrárias ao que ele queria. Durante três dias Deus se cala, não pedindo para ele evitar aquele sacrifício. Ele olha de longe o lugar e Deus não fala nada. Ele chega até o lugar e prepara tudo para o sacrifício e, ainda assim, Deus se mantém quieto. Definitivamente as evidências eram contrárias, haja vista que a palavra inicial de Deus foi o sacrifício do filho amado. E se Deus falou ele não voltará atrás. O que fazer numa situação assim?
Mesmo com toda essa tensão, insegurança do que iria acontecer, os três dias de agonia e aflição que possivelmente Abraão estivera sentido, percebe-se nele a disposição em cumprir o que Deus havia lhe dito. Por mais que não fosse exatamente o que ele queria, ele continua firme e perseverante em sua trajetória.
Portanto, ter medo, sentir-se aflito e inseguro não é um sinal da ausência de Deus, é a ocasião certa para experimentar do cuidado e presença de Deus. Nessa direção, Abraão se mostra determinado diante do que Deus havia pedido dele. Obedecer mesmo andando no escuro. Não sabemos o que passava pela mente de Abraão, mas se nós estivéssemos no lugar dele estaríamos pensando: por que então foi que Deus me deu esse filho? O que eu fiz para merecer isso? Por que Deus gosta de me ver agonizando? E tantas perguntas mais.
Acho, apenas, que essas são as perguntas erradas nesses momentos. Acredito que precisamos fazer perguntas para nós mesmos com o propósito de andar, não ficar parado ou de retrocesso, logo, perguntar: Diante disso tudo, para onde Deus quer me levar? O que Deus quer tratar em mim? Diante dessa situação, quem eu sou? Perguntas assim constroem e edificam.
IV – A provação mostra quem tememos.
O texto deixa claro que Deus queria ver quem Abraão temia. Mas será que era Deus que precisava saber disso ou o próprio Abraão? Nós como 'bons' humanos' demonstramos quem realmente somos quando estamos diante de uma situação limite. Tudo estava tranquilo na vida de Abraão. Tanto sua família, suas finanças, etc, ele poderia fazer, como normalmente fazemos:
Surdos ao que Deus tem falado;
Cegos ao que Deus tem mostrado:
Mudos, portanto, coniventes com o que desagrada ao coração de Deus;
Paralíticos diante dos lugares que precisamos ir;
Esquizofrênicos para entender as orientações divinas.
São nessas situações que mostramos quem tememos: se são as pessoas, o status, a instituição, as consequências de uma decisão, etc., ou se é ao Deus vivo. Muito se fala a respeito do temor-do-Senhor, porém pouco se vive a essência dessa expressão. Temor-ao-Senhor é ter consciência de que tudo o que fazemos (ou não) está diante de Deus e que temos responsabilidade diante disso tudo. É o temor-do-Senhor que gera no ser humano sabedoria e discernimento para tomar decisões bem ajustadas com a vontade de Deus, agradando-o em tudo.
É lindo a forma como Abraão confia na providência divina e se lança ao desconhecido, tendo por certo que alguma coisa Deus iria fazer em seu favor. Ele não diz para os servos que iria sacrificar o próprio filho, ao contrário, ele afirma para os seus servos que iria até o local reservado por Deus para prestar adoração. É uma postura de fé diante do impossível.
O texto afirma que pai e filho andam juntos. O que será que passava na mente do pai? Será que o filho imaginava que ele era a oferta à Deus? Diante desse cenário todo, o que permeia o coração de Abraão é que Deus proverá aquilo que falta, dará aquilo que é necessário.
É interessante que diante dessa provação Abraão é lançado no lugar aonde ele e nós sempre devemos estar: de joelhos aos pés de Deus. É diante das provações que vivenciamos o cumprimento das promessas de Deus em nossas vidas. Abraão vai até o fim. Mesmo com os olhos fechados, não acreditando no que estava a acontecer, Deus percebe que poderia contar com Abraão. Talvez se ele tivesse 'pipocado', olhado para trás, Deus teria que iniciar um novo projeto com um outro homem (vai que isso aconteceu). Todavia Deus se alegra da postura de Abraão em ficar firme.
Que nós, semelhantemente, possamos ficar firmes e mesmo diante das provações que aparecerem em nossas vidas. Que possamos passar e ser aprovados por Deus. É diante desse posicionamento firme que iremos contemplar todas as promessas de Deus.