Pastoral: Sexualidade, Hiv/aids e evangelho
1 Contexto para os desafios pastorais atuais
Será que é possível uma relação de complementariedade entre a dimensão religiosa, sexual afim de trazer respostas para as doenças sexualmente transmissíveis? Antes de falar disso, é necessário aproximações com o mundo que nos cerca, o contexto em que vivemos, haja vista a imensa dificuldade ao falar com precisão deste mundo, pois fazemos parte do ciclo histórico, sobretudo, o ministério pastoral em sua essência, convida pastores/as a observarem as tensões, fragilidades, potencialidades e limites da sociedade, a preocupação última de apontar caminhos que sinalizem o Reino de Deus.
Desta maneira, é preciso mencionar a era da “liquidez” que vivemos, não existe sentimos sinceros entre as pessoas (apenas os que possibilitam a lógica do mercado ou do belo e útil); as pessoas não têm compromissos com nada (além de consigo mesmas) e não existem decisões sólidas, pois a possibilidade de troca, de insegurança e incerteza, faz com que as pessoas não decidam por nada ou não tomem forma de nada, tomando assim a forma daquilo que é contrário aos sonhos de Deus - “E não tomais a forma deste século, mas transformai-o pela renovação da vossa mente.”1
As facilidades promovidas pela tecnologia, ou a importância dada ao domínio técnico, há também o encantamento através das aparências, o primitivismo na forma de encarar a vida (valorizando apenas os prazeres e sensações), a ganância por ter aquilo que não que é necessário, a afobação para ter o prazer “agora e já”, a fragilidade nos relacionamentos, e tantas outras características mais, são sinais de um mundo que precisa ser reconstruído e educado com novos conceitos, que podem ser encontrados no evangelho que tem a capacidade de ensinar, criar e salvar.
Com esta primeira aproximação da realidade, percebe-se a necessidade de destruir e denunciar o paradigma existente, mas apenas destruir e denunciar não são suficientes, é preciso propor uma novo paradigma que não tem como pretensão responder a perguntas, mas sim, fazer perguntas, a partir da perspectiva bíblica, pastoral e teológica, de modo que o sentido da vida humana seja afirmado e que as palavras de João 10.10 “eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” faça sentido em nossos dias.
1.1 Sobre a sexualidade na perspectiva cristã
Temos por certo que o ministério pastoral tem como responsabilidade denunciar as opressões, anunciar o evangelho e exortar com amor. Nessa tríade a “voz” é fundamental, pois ela é a mediadora das intenções. O que se pode perceber é que por um lado a “voz” pastoral tomou a forma de instituições, personalismo e individualismo, deixando de lado a dimensão profética. E por outro lado, existe um silêncio no que tange à assuntos polêmicos, talvez a oração que seja necessária em nossos dias seja “Pai, afasta de mim esse Cale-se”2.
Se por um lado existe a ausência da “voz” profética, por outro lado existe uma voz legalista, espiritualizada e religiosa, que sem sensibilidade com a contexto humano, emocional, psicológico e social, diz “é isso” ou “é aquilo”, “Pode” ou “Não pode”, “vai para o céu” ou “vai para o inferno”, e tantos outros termos. É muito fácil falar “Não”, “Sim”, determinar que está apto para ser condenado a morte e ir para o inferno, ou aspectos que legitimam uma casta para o céu, Foucault fala um pouco sobre isso:
“O cristianismo associara o ato sexual ao mal, ao pecado, à queda, à morte, ao passo que a Antiguidade o teria dotado de significações positivas. O cristianismo assim teria adotado o ato sexual somente no interior do casamento e lhe teria imposto a única finalidade de procriar. Embora parecesse que os antigos não valorizavam os mesmos valores que o cristianismo, tais quais: monogamia, fidelidade, castidade, vemos que na filosofia moral da antiguidade podem-se encontrar textos que versam sobre temas debatidos até os dias atuais.”3
É necessário uma pastoral que desenvolva uma espiritualidade sadia e humanizante, que não sirva como peso e condenação (habilidade nata do farisaísmo evangélico atual) mas que possa descobrir a beleza da sexualidade como criação e dádiva de Deus. Pois, muitos se esquecem que Cantares de Salomão fala do amor de um homem para uma mulher e o desenvolvimento da sexualidade do casal. Isso vale lembrar, que a sexualidade não está presa aos órgãos genitais ou apenas ao ato sexual, mas as palavras, os gestos, os olhares, o romantismo e afeto são características da sexualidade, como vemos abaixo:
“Assim como o afeto, a sexualidade se relaciona íntima com a experiência corporal. [...] Toda essa situação [...] desperta duas reações básicas: o desejo de reter, de se apegar aquilo ou a quem proporciona o que é bom e necessário e o desejo de se librar daquilo ou de quem não proporciona o bom, permitindo assim que o ruim se mantenha (necessidade não satisfeita). A estas duas reações correspondem os dois pólos básicos do afeto: amor e ódio.”4
Uma outra nota importante da dimensão da sexualidade é que ela necessita de um compromisso entre o casal, existindo assim amor, compromisso, respeito com os limites e responsabilidade com a vida do/a outro/a. Assim afirma a Carta Pastoral:
“Na vivência da sexualidade, devemos portanto, distinguir excitação sexual de um desejo erótico maduro. Neste sentido, o orgasmo é muito mais que uma descarga de tensões. Ele envolve um comprometimento psíquico que pressupõe uma troca plena entre dois adultos – a capacidade de integrar-se fundir-se, sem perder a identidade. É o amor que possibilita o vínculo duradouro da relação, libertando-a do determinismo biológico excitação-posso-descarga e proporcionando a estabilidade e continuidade da relação.”5
Esses princípios norteia um caminho que precisa ser levado em consideração, pois o sexo lícito é aquele que nasce do amor, o ilícito é aquele que está baseado em desejos carnais, obsecados, desapegados dos valores do Reino de Deus, como podemos perceber Tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. Em Atos 15.20-29 diz uma orientação solicitada pelo Evangelista para que os/as cristãos/ãs não se envolverem em sexo ilícito pois isso desagrada ao coração de Deus. No início da epístolas aos Romanos, Paulo exorta que os atos sexuais ilícitos acarretam conseqüências para aqueles/as que o praticam, além das repreensões que Paulo faz com a comunidade de Coríntios, quando algumas influências do mundo passou a influenciar a práxis cúltica do povo de Deus.
A sexualidade é boa, mas quando vista com o olhar de Deus e a valorização do ser humano. Harvey Cox faz uma afirmação assertiva ao dizer que “desde sempre” a sexualidade foi vista com muitos demônios e mitos, e deixando de ser dádiva para ser maldição.
“Nenhum aspecto da vida humana se agita com tantos demônios não exorcismados como o sexo. Nenhuma atividades humana é tão enfeitiçada pela superstição, tão perseguida pelos resíduos da tradição tribal e tão importunada pelo medo socialmente induzido.”6
A sexualidade precisa ser vista a partir do prisma do amor, como é bem lembrado pelo apóstolo Paulo, que afirma em Romanos 13.8 que “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos amei uns aos outros, pois quem ama ao próximo tem cumprido a lei”. Amar é cuidar. Lembremos o provérbio: “Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal, será isto saúde para o teu corpo e refrigério para os teus ossos.”7 Quando a sexualidade é tida como um fim em si mesma sem o princípio do amor, ela acarreta conseqüências emocionais e físicas como veremos.
1.2 HIV/Aids
O Provérbio mostrou que a ausência de sabedoria gera conseqüências para o corpo humano, e isso quando voltado para o viés da sexualidade, as conseqüências do sexo ilícito tem acabado com a vida de muitos jovens e adultos, sendo eles da igreja ou não, mas que são responsabilidades do ministério pastoral, pois a igreja precisa voltar-se para além dos seus limites eclesiásticos. Vejamos uma citação a respeito da malignidade da DST/Aids.
“Ter um conhecimento correto e uma vivência adequada da sexualidade tornaram-se, nos dias de hoje, uma questão de vida ou morte. Isso pode ser provado por diversos argumentos:
1.A cada dia no mundo 16.000 pessoas se contaminam com o vírus da Aids (HIV), das quais 50%, ou seja, 8.000 indivíduos são jovens entre 15 a 24 anos.
2.As sociedades são presas fáceis de um processo de alienação, nos âmbitos econômicos, humanos e sociais, que conduzem ao individualismo, à desumanização, perda e transformação de valores, à competição e à valorização do dinheiro em relação ao ser humano; produzindo conseqüentemente uma grande influência sobre a estrutura familiar e a sexualidade.
3.A crescente prostituição masculina e feminina em idade cada vez mais precoce, como formas de exploração e de sobrevivência.
4.A busca do prazer pelo prazer como um salso paradigma de status, liberação e de machismo ou feminismo.
5.A perda de valores espirituais, culturais, éticos e morais.
6.À falta de efetivação de propostas, fundamentadas em princípios de cidadania, somam-se os fatores acima relacionados produzindo assim uma série de conseqüências dolorosas, além da dura realidade das DST e HIV/Aids, gravide não planejada, gravidez precoce, abortos provocados (muitos dos quais gerando a morte das mães), casamentos forçados de jovens, relações sexuais sem vínculo e separações.”8
Percebemos que a vida do ser humano é atingida pela DST/Aids, e que muitos morrem, mas em muitos casos, o sofrimento antecede a morte. É preciso lembrar que os homossexuais não são os principais atingidos por esse vírus, a maior parte das pessoas que possuem o vírus são heterossexuais e dependentes químicos. Nota-se também que não apenas os pobres, mas muitas pessoas de classe média e média alta, além de celebridades e pessoas importantes de nosso mundo já contraíram o vírus.
O século XX e século XXI tem como aspecto maior a ferramenta da informação, mas mesmo com tanta informação, milhares de pessoas morrem por ano por causa dessas doenças. Parece que a possibilidade de liberdade abre caminhos para a libertinagem, que a informação sexual abre caminhos para a pornografia e sexo sem cuidado e o interesse científico para o interesse mórbido. A Igreja tem como função maior exercer o ministério do cuidado (I Timóteo 5.8), ensino (Salmo 119.105), de orientação para prevenções, de amor e também de salvação, não apenas da alma, mas do corpo, pois é preciso “acreditar na vida antes da morte.”
A Igreja Metodista, no seu documento “Credo Social”, que trabalha a importância da relação entre Igreja e sociedade, principalmente em assuntos que estejam ligados aos menos favorecidos e posturas preventivas diante de circunstâncias cruciais que a população esteja passando. Este documento direciona a Igreja metodista, em seus usos e costumes, ensina para os seus membros a utilização de recursos de medicina moderna para o controle da natalidade infantil e que favoreçam a vida, sem contrariar a ética cristã. A igreja precisa orientar uma sociedade que vive um período de desnível social e grandes ataques contra pilares essenciais da vida cristã. É importante que mulheres e homens sejam orientados por profissionais, com perspectivas cristãs, a fim de que possam saber as conseqüências de uma doença sexualmente transmissível e os melhores meios para evitar e tratá-la. Além do que, é preciso posicionamentos pastorais diante de interrogações como estas, haja vista que a pluralidade de correntes contrárias aos princípios cristãos9.
1.3 Ministério pastoral no cuidado de pessoas com HIV/Aids
O Evangelho João no capítulo 5 relata a história de um tanque onde ficavam as pessoas doentes, esperando que as águas se movessem de modo que trouxessem cura, mas não era fácil ser curado, existia uma “pseudo-competição” pois apenas uma pessoa era curada. Conta o texto que Jesus vendo um homem que a 38 anos estava naquele lugar, pergunta se ele quer ser curado. Podemos relacionar isso com nosso assunto. No contato com pessoas com Aids, todas iriam dizer que querem ser curadas, se mostram arrependidas do que fizeram, além de sentir que o relógio da vida está em contagem regressiva. O desejo de curar essas pessoas não nos falta e a vontade delas serem curadas também não falta, mas infelizmente, ainda não existe uma cura para essa doença. O que fazer então? É interessante que este texto aponta que dentre muitas pessoas, Jesus se atentou apenas para um homem, conseqüentemente, muitas outras pessoas ficaram sem a cura física.
Isso nos faz pensar que a cura pode passar por vários patamares, pode existir a cura física – muito possível cientificamente em outras DST, menos no HIV – mas uma etapa da cura que existe é a condição de conseguir conviver com o que não se pode mudar e fazer disso uma nova chance de viver. Talvez palavras de consolo não consigam dar o sentido suficiente para pessoas nessas condições, mas dentro do sofrimento humano é possível encontrar significados para a vida e descobrir que em meio a fraqueza humana pode se aperfeiçoar a graça de Deus como diz 2 Coríntios 12.9-10.
A Igreja ao se deparar com pessoas com o vírus HIV, não podem tratar como o mundo as trata, com preconceito, descriminação, nojo de tocá-las, beijá-las, abraçá-las, é mais nocivo um visitante para o aidético do que o aidético para o visitante. A Igreja tem como função amar incondicionalmente pessoas que sofrem, e essas pessoas sofrem muito. tanto no sentido imunológico como no sentido social e sentimental. A Igreja não tem o direito de levar mais sofrimento para essas pessoas. É preciso lembrar que “a igreja é chama a ser uma comunidade de cura em meio à dor e ao sofrimento, qualquer que seja sua natureza ou causa. A Igreja tem um mandato para consolar (2 Co 1.3-5), para reconciliar (2 Co 5.19), para amar (1 Co 13) e para ministrar (Mt 25.35-37)”10.
Em primeiro lugar é preciso romper com um estigma de que as doenças são castigos divinos por algumas atitudes das pessoas. Essa lado mágico é uma teodicéia que retira do ser humano sua responsabilidade como agente ativo da conseqüência para as “costas” de Deus, como um carrasco que pune aqueles que não agem segundo sua vontade:
“A visão do sentido da doença muda com a visão do mundo que existe numa cultura. Essa constatação deveria nos fazer para para pensar um pouco, porque ainda somos muitos rápidos em julgar que a doença é consequência de um pecado, que alguém que passa mal provavelmente fez alguma coisa errado e agora sofre um castigo. Ou ele sofre porque Deus quer educá-lo e purificá-lo. Essas idéias são muito comuns no povo brasileiro e também nas igrejas. Olhando para a grande variedade de opiniões sobre o sentido da doença, temos que nos perguntar: Será que estou certo com a minha idéia? Ou estou pensando assim porque nasci neste país e neste final de século?”
Esse paradigma precisa ser rompido e ser construído um novo paradigma, sendo que as características do Deus que é amor e cuidado sejam evidenciadas e destacadas.
É notório que o relacionamento das pessoas com HIV com as igrejas são bastantes difíceis. Não existe muito contato. Percebe-se que entre os pacientes existe medo de rejeição ou a raiva por causa de julgamentos morais da parte religiosa. O primeiro passo tem que ser dado pela instituição religiosa, promovendo o acolhimento e demonstrando que essas pessoas fazem parte dos “pequeninos” citado no evangelho de Marcos 10. Esse dialogo é fundamental para ajudar essas pessoas a ultrapassarem muitas das rejeições que sofrem, seja no trabalho, nas capacidades físicas, dos planos para o futuro, sonhos, amigos e parentes. É um caminho para possibilitar a superação da depressão e desgosto pela vida.
Os sentimentos das pessoas com HIV precisam ser tratadas, sabendo que existe um grande nível de ódio por aquelas pessoas que passaram o vírus para elas. A dimensão do perdão, restauração dos sentimentos, e principalmente o ódio precisa ceder lugar para o amor, sabendo que a vida pode ficar muito melhor sendo aproveitada em amor.
É impactante perceber que muitas igrejas ao invés de levar consolo, abrigo, palavras de refrigério e esperança tem promovido apenas choro e separação. Além disso, muitos estão indiferentes diante de situações de doenças e tristezas. Isso nos faz lembrar um texto do Antigo Testamento: “Naquele tempo, esquadrinharei a Jerusalém com lanternas e castigarei os homens que estão tranqüilos e satisfeitos e dizem no seu coração: O SENHOR não faz bem, nem faz mal.”11 Muitos/as pastores/as estão nessa condição de tranqüilidade acreditando que não tem responsabilidade com o que acontece com o mundo e sociedade ou estão satisfeitos com seus salários e posições de poder, indiferentes ao sofrimento de milhares de pessoas que morrem diariamente sem consolo, carinho e esperança. O profeta é categórico ao dizer que no dia que o senhor avaliar a sua igreja com cuidado, estenderá a mão d'Ele sobre estes, pois eles pensam que Deus é um Ser que não faz bem nem mal, é indiferente ao choro humano. Mas se esquecem da justiça de Deus, e que Ele acompanha os mais fracos e dá vitória aos mais simples.
Por fim, vale lembrar que muitos movimentos “neo-pentecostais” crescem dia após dia com a 'slogan' de milagres, curas e restaurações em todas as áreas da vida. São promessas que muito se assemelham com o tanque de Betesta, onde muitos eram de fato curados, mas muitos ainda continuavam doentes. Dessa maneira, é preciso que pastores/as que levam a sério o seu ministério pastoral, preparem-se para um chamado de reconstrução de significados e um ministério que consiga consolar corações que estão decepcionados com Deus e com a Igreja. O desafio é anunciar o Espírito que inclui, cuida e ama.
Que o Deus da graça preciosa e de misericórdia imerecida, faça de nós segundo o seu querer e segundo a sua vontade. Amém.
Bibliografia
KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço. Programa saúde e direitos – Projeto Aids e Igrejas.
FOUCAULT, Michael. Vigiar e Punir. Vozes, Petropoles, 2006.
BIBLIOTECA VIDA E MISSÃO. Igreja Metodista Colégio Episcopal. Afetividade & Sexualidade. Ministérios n° 4, 1998.
COX, Harvey. A cidade do homem. São Paulo, Paz e terra. 1997, p. 211.
IGREJA METODISTA. Canônes 2007.
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