quarta-feira, 9 de setembro de 2009

NO caminho de Cristo, mas que Cristo?

Culto FaTeo 09/09/2009
Texto: Marcos 8.27-38; 9.1
Tema: No caminho de Cristo, mas que Cristo?
TEXTO
27 Então, Jesus e os seus discípulos partiram para as aldeias de Cesaréia de Filipe; e, no caminho, perguntou-lhes: Quem dizem os homens que sou eu?
28 E responderam: João Batista; outros: Elias; mas outros: Algum dos profetas.
29 Então, lhes perguntou: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro lhe disse: Tu és o Cristo.
30 Advertiu-os Jesus de que a ninguém dissessem tal coisa a seu respeito.
31 Então, começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse.
32 E isto ele expunha claramente. Mas Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo.
33 Jesus, porém, voltou-se e, fitando os seus discípulos, repreendeu a Pedro e disse: Arreda, Satanás! Porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens.
34 Então, convocando a multidão e juntamente os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.
35 Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á.
36 Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?
37 Que daria um homem em troca de sua alma?
38 Porque qualquer que, nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos.
9:1 Dizia-lhes ainda: Em verdade vos afirmo que, dos que aqui se encontram, alguns há que, de maneira nenhuma, passarão pela morte até que vejam ter chegado com poder o reino de Deus.


“Querida esposa, filhos do coração, não posso resistir por mais tempo ao peso deste fardo que me esmaga. Sei com certeza que a cidade em que habitamos vai ser consumida pelo fogo do céu, e todos perecemos em tão horrível catástrofe se não encontrarmos um meio de escapar. O meu temor aumenta com a idéia de que não encontre esse meio. Vamos por este caminho. Quem me indicou o caminho foi um homem chamado Evangelista. Segundo o que ele me disse, havemos de encontrar uma porta estreita, lá, mais adiante, e aí nos dirão o caminho que havemos de seguir.”1


Essa história do livro “O Peregrino” me lembra a jornada que boa parte dos discente fazem quando escolhem vir para a Faculdade de Teologia. Algumas pessoas que cursam teologia, buscam respostas em meio as suas inquietações existenciais. Uma vocação que nasce em meio as horríveis catástrofes que assolam o mundo, questões pessoais ou uma resposta ao chamado de Deus. Os discentes iniciam uma jornada neste caminho que se chama FaTeo. Caminhar “pelas trilhas do mundo, a caminho do Reino”2. Mas que Reino?

Os discípulos queriam saber qual era o Reino que Jesus propunha. É no caminho rumo a Filipe de Cesaréia, “uma grande cidade helenística que controlava extenso território e até tinha o privilégio de cunhar o dinheiro3” que as verdadeiras intenções dos discípulos de Jesus vem a tona. O Evangelho de Marcos é sobretudo um escrito político, buscando responder algumas indagações que assolavam a comunidade cristã por volta de 65-70 d.C. Se por um lado a cultura era influenciada pelo helenismo, por outro lado, existia uma ideologia que legitimava o imaginário judaico: o Cristo enviado por Deus, guerreará contra as forças opressoras do império.
É no caminho que o segredo messiânico é declarado. Os discípulos são chamados para o discipulado que contrariava o evangelho de César que anunciava a paz romana por meio do seu exército. O caminho estabelece um novo paradigma a respeito da vitória que o Reino de Deus pode estabelecer à humanidade.

Da mesma forma que os discípulos, hoje todos os discentes estão no caminho e à caminho. E o que se pode aprender neste caminho?

Em primeiro lugar no caminho aprende-se que...
I – Jesus não é o Cristo!
Normalmente quando se lê este texto, as pessoas ficam impressionadas com a resposta de Pedro e a repreensão de Jesus. Contudo, ao entrar no contexto, percebe-se que a tonalidade da fala de Pedro no verso 29 - “Tu és o Cristo” - é uma fala política. Em seu imaginário o Cristo não pode ser João Batista, nem Elias ou até mesmo algum dos profetas, pois mesmo esses se impondo contra o império, foram consumidos. O Cristo era aquele líder político e guerreiro, que iria impor o reino de Deus por meio de guerras e sangue dos adversários. Eram atitudes assim que Pedro e os discípulos esperavam de Jesus. E por isso, Jesus os repreende. Pois Jesus não era esse Cristo.
Todos/as que estão na FaTeo tem um imaginário a respeito da figura de Jesus. Talvez um Cristo milagreiro, ou um Cristo que dá poder e status. Talvez um Cristo indiferente à realidade ou aquele que serve como “trampolim” na vida financeira. Por vezes, um belo discurso guarda em sua essência intenções maldosas, excludentes e longe do propósito do Reino de Deus. Logo, Jesus não é este Cristo.
Um grande desafio para os/as discípulos/as que caminham na FaTeo é rever alguns paradigmas e se perguntarem: Qual é o Cristo que sigo? Será que é o Cristo que responde aos meus próprios interesses?
Isso traz a tona outro aspecto do que se aprende do caminho:

Em segundo lugar no caminho aprende-se que...
II – Jesus é o Filho do Homem.
O verso 31 apresenta quem realmente Jesus era. Um ser humano que iria sofrer, ser rejeitado, morto e ressuscitar. Mas não era isso o que Pedro esperava dele. Por isso, Pedro o chama a parte e utiliza-se do termo EMPITMAN para exortá-lo. Sabe-se que o grego influenciou o latim, e por sua vez o francês, que tem a palavra EMPECHÊ (impedir), até que chegou ao inglês na palavra IMPEACHMENT, que significa “impedir, impugnar, denunciar, acusar, descrédito, depreciação”4. Logo, Pedro tem em mente impedir Jesus de concretizar o seu ministério. Ou de impugnar a liderança de Jesus, descredibilizar o caminho para Jerusalém, depreciar a vocação de Jesus.
Será que os discípulos de hoje são diferentes Pedro, quando se deparam diante de um caminho de sofrimento pelo Reino de Deus, de rejeição pela sociedade, de morte mas ressurreição? Por vezes, quando Jesus não corresponde a expectativa da Igreja, ele recebe um impeachment, é barrado e deixado de lado. O Deus que era da convivência, passa a ser o da conveniência.
Talvez a exortação que Jesus fez para os seus discípulos, sirva para os/as alunos/as da FaTeo. Qual é a pretensão ao cursar Teologia? É para legitimar um sistema humano ou para anunciar e implantar o Reino de Deus? Este desafio, leva a todos/as a meditarem em sua vocação e ministério. Pois da mesma forma que esperamos algo de Jesus, ele espera uma postura de nós.
Isso evidência outro aspecto que se aprende no caminho.

Em terceiro lugar no caminho aprende-se que...
III – Jesus convida para o caminho da renuncia.
O verso 34 representa bem as intenções de Jesus. Os discípulos e a multidão são chamados para “negar a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo”. A lógica é: para salvar precisa morrer. “Negar a si mesmo” é parar de cogitar as “coisas” humanas para cogitar as “coisas” de Deus. “Tomar a cruz e seguir”, é uma alusão aos condenados que carregavam a própria cruz até o lugar da execução. Seguir à Jesus era colocar em risco a própria vida. A proposta é desafiar a hegemonia imperial mas sem sangue. A afirmação “Filho do Homem”, remete à uma perspectiva escatológica, em que o Reino de Deus é, mas ainda não. “Ganhar a vida” é mais importante que “ganhar o mundo inteiro”.
Essa lógica de Jesus mexe com todos/as que estão neste caminho. Em um tempo em que muitos lideres querem ganhar o “mundo todo”, afim de aumentar o seu império, acabam perdendo a própria alma. Muitas pessoas vendem a alma por mais fama e destaque, envergonhando e tendo vergonha do Evangelho. Se esquecem do caminho que é proposto pelo Filho do Homem, e afastam-se do Reino de Deus. Quanto será que vale a alma de um acadêmico de teologia?
Jesus nos desafia a “negarmos” as vontades humanas para afirmar a vontade de Deus; à “tomarmos a cruz” e assumir as responsabilidades deste ministério e; “seguirmos” o caminho de doação e amor. Ele mostra que para ganhar é preciso dar, para salvar é preciso perder, para viver é preciso morrer.

Concluindo...
O texto nos mostra que Jesus não é o Cristo que queremos, mas o Filho do Homem que aponta para o caminho da renuncia e anúncio. O primeiro verso do capítulo 9 diz que alguns não enfrentaram a morte sem antes ver o Reino de Deus vindo com poder. Está aí um desafio pastoral aos nossos dias.
Ver o Reino de Deus com poder é levar esperança para aquelas almas que estão abatidas e cansadas. Ver o Reino de Deus com poder é trazer consolo aqueles/as que estão fracos/as e abatidos/as. Ver o reino de Deus com poder é anunciar o amor como o caminho que supera toda e qualquer crise. Ver o Reino de Deus com poder é afirmar a sacralidade da vida opondo-se contra as forças da morte.
Hoje somos convidados/as a trilhar este caminho que vai em direção ao Reino de Deus. Que o Senhor nos ajude nesta jornada.

1BUNYAN, John. O peregrino.
2SANTANA, Julio de. Pelas trilhas do mundo, a caminho do Reino. São Paulo, imprensa Metodista, 1984.
3MEYRS, Chedit. O Evangelho de São Marcos. São Paulo, Paulinas, 1992.
4Site www.wikiedia.com.br enciclopédia livre.

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