quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Há caminhos e caminhos...

[esboço mensagem ministrada na IM em Ferraz de Vasconcelos, dia 27/12/12.]


Sermão IM Ferraz de Vasconcelos.
Soc. de Mulheres.
Final de ano, término das atividades, encerramento de um ciclo, são expressões que vêm com bastante força na mente nesta época do ano. Novas expectativas, novos sonhos. Entretanto, não se pode negar as falhas, os erros e os equívocos ficaram suspensos no ano que se findou.
Independente do gênero, as expectativas são imensas. Afinal de contas serão pelo menos 365 novas oportunidades no ano que se iniciará. Infelizmente, persistimos nos erros. Batemos na mesma tecla, ou, pior, repintamos os mesmo quadros, mesmo sabendo que a obra de arte será a mesma. Infelizmente, a memória RAM feminina tem a capacidade de reter muitos acontecimentos históricos, principalmente fatos que deram errado, relacionamentos machucados, situações dolorosas, enfim, momentos ruins. Talvez, pior ainda, é quando há uma repetição de atitudes que ao invés de gerar vida, gera morte!
Encontramos nas Escrituras várias atitudes de mulheres que provocaram tanto vida como morte, tanto restauração e esperança como destruição e desesperança. As mulheres são descritas na Bíblia ou como grande sinal de bênção para suas famílias e/ou meio em que vivem, e, ao mesmo tempo, como grande sinal de problema e/ou maldição. Provérbios, por exemplo, destaca o impacto negativo que uma mulher pode causar na vida do seu marido, dos filhos, do meio em que está inserida. Nota-se certo teor de humor da forma como o sábio relata a presença da mulher em sua convivência. É possível dar boas gargalhadas. Por mais que exista humor, há forte teor negativo, afinal e contas é melhor viver solitário e imerso em profunda miséria do que ao lado de uma mulher assim:

Ø  21.9 Melhor é morar no canto do eirado do que junto com a mulher rixosa na mesma casa. 
Ø  21.19 Melhor é morar numa terra deserta do que com a mulher rixosa e iracunda. 
Ø  27.15 O gotejar contínuo no dia de grande chuva e a mulher rixosa são semelhantes
Ø  31.10 Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas joias.

O sábio prefere morar numa terra onde não é própria para habitação do que com uma mulher que vive promovendo desavença. Outra citação é que o sábio prefere morar  numa terra deserta, solitário do que ao lado de uma mulher que vive com ira da vida! Outro exemplo interessante é que uma goteira em noite chuvosa e uma mulher que prova contendas são sinônimos. Soa engraçado, mas é algo tenebroso.
Dentro disto que foi citado, como será possível encontrar uma mulher virtuosa? Talvez encerrar com algumas situações, com algumas picuinhas que com o tempo ganha proporções que só geram destruição. Por isso, antes de iniciar uma nova trajetória de vida, torna-se fundamental olhar para si e fazer, pelo menos, três perguntas existenciais:

ü  I – Encarar as questões difíceis que nos deixam confusos;
ü  II – Analisar profundamente os erros de nossos principais relacionamentos a ponto de nos sentirmos frustrados;
ü  III – Fazer um sincero auto-exame da forma como nos conduzimos em nossos relacionamentos, com a finalidade de reconhecer nossos próprios erros.

Após pensar e repensar nessas três perguntas, põe-se diante de nós alguns versos de Provérbios que podem auxiliar numa vida de uma mulher virtuosa.

I – Se o caminho não é de vida é de morte.
Proverbs 14:12  12 Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte.

II – Sonhe, faça planos, tenha projetos, mas tudo sobre a vistoria do Senhor.
Proverbs 16.1 O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do SENHOR. 2 Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o SENHOR pesa o espírito 3 Confia ao SENHOR as tuas obras, e os teus desígnios serão estabelecidos.

III – Planeje aonde você quer chegar, mas peça que o Senhor conduza cada passo dado.
Proverbs 16:9 O coração do homem traça o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos.

IV – Peça a Deus para ser o condutor da vida, pois nem todo caminho agradável leva para bons lugares.
Proverbs 16:25  25 Há caminho que parece direito ao homem, mas afinal são caminhos de morte

sábado, 22 de dezembro de 2012

7 destaques para o Natal


Igreja Metodista em Guaianases
Sermão de Natal 23/12/12 – Lucas 12.1-20

1 Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se.  2 Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria.  3 Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.  4 José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi,  5 a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.  6 Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias,  7 e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.  8 Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite.  9 E um anjo do Senhor desceu aonde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor.  10 O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo:  11 é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.  12 E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura.  13 E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo:  14 Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem.  15 E, ausentando-se deles os anjos para o céu, diziam os pastores uns aos outros: Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer.  16 Foram apressadamente e acharam Maria e José e a criança deitada na manjedoura.  17 E, vendo-o, divulgaram o que lhes tinha sido dito a respeito deste menino.  18 Todos os que ouviram se admiraram das coisas referidas pelos pastores.  19 Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração.  20 Voltaram, então, os pastores glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, como lhes fora anunciado.

Qual foi a situação mais inusitada que já aconteceu em sua vida? Encontrar uma pessoa num lugar inimaginável? Receber a resposta de oração da forma como havia orado, detalhe por detalhe? Perder alguém? Algo cômico? A vinda de Jesus, na ótica do evangelista Lucas, é uma vinda e vida inusitada.
Parece que Jesus esta programado para vir em um período inoportuno, num período em que os governadores queriam fazer o senso da região. José e Maria precisam ir para uma cidade para alistar-se, tendo em vista que eles moravam em uma vila bem distante. Será que Deus não viu que Maria estava grávida? ou ele esqueceu que Maria estava grávida e que não teria condições de andar todo o percurso, tendo em vista que faltavam poucos dias para dar a luz? É nessa situação inoportuna que Deus cumpre a promessa que havia feito a muito tempo. Algo que parecia ser uma grande desgraça, um desconforto, Deus usa a situação para ser o cumprimento de uma profecia. I - Aprender a se sensibilizar para sentir e perceber que a profecia está se cumprindo.

Maria teve que enfaixar o filho com os panos que tinha e fazer da estrebaria o berço do menino. É interessante que não havia ninguém com o coração aberto, solidário para dar lugar para uma mulher grávida. Talvez por ser pobre, talvez por cheirar mal, quantas vezes as pessoas avaliam as outras pela aparência, pelo que aconteceu. Não há lugar para Jesus. A glória de Deus aparece na simplicidade da vida. A glória gera temor, e o temor dá lugar a adoração. Quando o anjo dá a palavra de esperança a situação é a mesma, mas o ânimo é outro. II - Diante dos maiores momentos de temores Deus se revela e traz palavra de alegria, esperança, ânimo.

O sinal dito pelo anjo é uma criança na manjedoura III - será que isso é relevante? O que uma criança pode fazer? Aonde ela pode interferir? Deus não precisa de grandes sinais para assegurar que as coisas vão mudar, os pequenos toques de Deus representam grandes transformações.

Ao invés de duvidar, os homens acreditam e vão atrás da palavra que havia sido proferida para as suas vidas IV - as vezes não levamos a sério as promessas de Deus, as profecias. Achamos que Deus não irá cumprir o que foi dito, ou que tudo não passou de um sonho, de uma visão. Entretanto ir atrás da palavra de vitória é essencial para se alcançar a promessa.

Os pastores quando chegam até onde o menino estava, a primeira coisa que fizeram foi testemunhar a experiência que tiveram com Deus. Falando cada detalhe, cada ação, cada palavra V - muitas vezes não testemunhamos nossas experiências com Deus porque não temos experiências com Deus; não existe uma receita, contudo, não há experiência com Deus que não passe pelo caminho da oração, do jejum e da experiência com o Espírito Santo, sem isso é impossível falar porque não se tem experiências com Ele.

Maria, ao ouvir o que as pessoas diziam, guarda todas as palavras em seu coração. Meditava em cada uma delas, talvez... correlacionando com seu encontro com o anjo VI - muitas coisas que Deus faz temos que guardar no coração e pensar sobre o que Deus fará. Ter o coração como baú precioso, e que se pensa em cada ação que Deus fez, como Deus muda situações inusitadas, que num primeiro momento parecia tragédia em Bênçãos, por isso que não dá para desistir, desanimar, fraquejar.

Os homens que foram atrás do cumprimento da promessa de Deus, voltaram glorificando ao Senhor pelo que Ele havia feito VII - uma das coisas mais difíceis que existe é glorificar a Deus em todas as situações. Sejam elas as mais brandas, alegres, festas, como, também, nos momentos de tristezas, dores, machucados; louvar a Deus pelos inumeráveis benefícios com que Ele nos agraciam é um grande gesto de profunda intimidade com Deus, pois recebe a ministração do Espírito Santo em todos os tempos.


Finalmente, percebemos que o natal não é restrito apenas a presentes, a um momento de confraternização e comunhão. Sem dúvidas são partes da festa natalina que fazem muito bem para o ser humano. O mais importante que o natal nos apresenta é o cumprimento da promessa de Deus com o propósito de salvar o mundo. De mudar a história das pessoas. O nascimento de Jesus é um sinal das grandes coisas que Deus tem para cumprir na vida da humanidade. Crer e não temer. Que neste natal as promessas de Deus ocupem novos lugares em nós.

domingo, 18 de novembro de 2012

dores crônicas

[sermão IM em Guaianases 18/11/12]


Igreja Metodista em Guaianases
Marcos 12.41-44 – Dores Crônicas

41 Assentado diante do gazofilácio, observava Jesus como o povo lançava ali o dinheiro. Ora, muitos ricos depositavam grandes quantias. 42 Vindo, porém, uma viúva pobre, depositou duas pequenas moedas correspondentes a um quadrante. 43 E, chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que o fizeram todos os ofertantes. 44 Porque todos eles ofertaram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento.

Segundo o Drauzio Varela “dor é uma sensação quando há alguma ameaça de dano, senti-lá é fundamental para manter a integridade do organismo. Existem doenças que alteram a sensibilidade deixando os traumas e ferimentos imperceptíveis. Dor crônica é uma doença debilitante com consequências nefastas a condição físico, psicológica e o comportamento. Seus portadores desenvolvem “N” doenças, entre elas depressão.
Numa breve definição, Dor crônica: “é uma experiência sensitiva e emocional bastante desagradável, associada a uma lesão ou descrita como a ela relacionada”. Nas dores crônicas não existe qualquer finalidade biológica, sendo a dor, o sofrimento e os comportamentos relacionados às mesmas, totalmente desnecessários e danosos para a sobrevivência. Vale saber que para tratar uma dor crônica é preciso tratar o físico e, ao mesmo tempo, o emocional/psicológico, é algo complexo.
Analgésicos é uma substância que ajuda a aliviar ou prevenir dores, tanto a morfina como o ópio são substâncias que ajudam a enganar as dores, mas não a curá-las. Quando Karl Marx disse que a religião é o ópio do povo, há a possibilidade de sua relação está ligada com a substancia que ameniza dores, mas quen ao resolve problema nenhum.
Mas por que falar sobre isso? E qual a relação disso com Marcos 12.41ss? O texto conhecido como a oferta da viúva pobre é muito conhecido não apenas no meio cristão, mas fora desse âmbito também. Essa perícope aparece logo após um dia de Jesus no templo. Para terminar o dia Jesus observou como as pessoas davam suas ofertas. Percebeu que todo mundo tinha alguma coisa para dar, os ricos tinham muito para dar, porém o que chama a atenção de Jesus é a oferta de uma mulher, pelo que o texto afirma pobre e viúva, que separa duas moedas que não dava para nada, a reação de Jesus diante dessa ação é valorizar o que ela tinha feito em contraponto ao que as outras pessoas fizeram, pois ninguém havia feito como ela fez, dar tudo o que tinha, haja vista que as pessoas davam do que sobravam.
Numa breve conjectura, essa mulher, sem nome ou mais referências da Bíblia, tinha muitas possibilidades de fazer o que estava fazendo. Em primeiro lugar era mulher, sofria todos os preconceitos de sua época, não devia ser fácil ser feminina num período em que o machismo era adorado; era viúva, então, sua família tinha problemas sérios e ela também, pois a mulher não tinha como trabalhar para se sustentar; a Bíblia não relata se ela tinha filhos, então seu futuro era pior do que se imaginava; era uma mulher, viúva, sem filhos e pobre, talvez não tinha aonde morar, o que comer, não tinha nada para oferecer, possivelmente vivia de esmolas e da pena das pessoas.
Nessa mulher encontramos muito do que caracteriza uma dor crônica, ao invés disso ela dá outro sentido para a vida. Ela pega tudo o que tinha ganhado, talvez num dia, o que garantiria uma refeição e entrega ao Senhor como oferta agradável. Essa mulher poderia ter dor crônica no mais intimo do seu ser, quem sabe pensar na plausibilidade da morte, no castigo divino, na rejeição, na pobreza, mas ainda assim ela tem o que dar.
Neste pequeno trecho aparece 7 vezes a palavra ‘ballou’, isto é, lançar, trazer para perto. É interessante que o texto descreve que a multidão tinha o que lançar, os ricos tinham muito pra lançar, todavia tudo o que eles lançavam, por mais valiosos fossem sob o critério humano, não tinha valor para Jesus. A mulher, por sua vez, sem sua pequenez e insignificância, segundo os critérios humanos, teve relevância diante de Jesus.
Traçando um paralelo com a doença crônica, muitas pessoas por mais que deem, por causa de dores no coração, isto é, um sentimento terrível de traição seja ela divina ou humana, de remorso por ter feito o que não poderia ter feito, por ações compulsivas, vale dizer que morrem pessoas diariamente por conta da impulsividade em várias instâncias.
Uma doença crônica espiritual pode torna as pessoas egoístas, pensando que seus problemas são os únicos, que tudo gira em torno de si, e que as pessoas não têm dimensão do que é o verdadeiro sofrimento, pois os/as verdadeiros/as sofredores somos nós. Em outros casos, quando as dores crônicas estão relacionadas com Deus, pensa-se que Deus esta antipático a toda a situação, que ao invés de cooperar para o nosso bem parece que Deus potencializa o mal. Talvez este texto tenha alguns caminhos para ajudar na caminhada de fé:

I – Analgésico não cura disfarça o problema.
Quantas pessoas que vivem dores crônicas em várias dimensões que ao invés de procurar a verdadeira cura passa analgésicos ara disfarçar o problema. Esse analgésico acontece na ação de dar muitas coisas, fazer muitas coisas, uma vida pautada do ativismo mas que não tem valor nenhum para o reino de Deus, ao invés disso, é uma forma de disfarçar suas dores existenciais, isso não resolve em nada.

II – Antibiótico age diretamente do problema
A palavra antibiótico, anti é contra biótico é conjunto de seres vivos em uma área específica. Muitas dores crônicas são compostas de vidas que invadiram lugares que não são naturais a elas, e causam problemas nefastos. Essa viúva pobre possivelmente tinha dores crônicas, mas ao invés de disfarçar e usar antibióticos para curar suas dores, ela lança, coloca, dá tudo o que tinha para a sua vida ao Senhor, entrega não o que sobra, ou faz uma barganha, ao invés disso, lança tudo o que tinha, pois o texto afirma que Jesus disse que ela lançou todo o ‘bion’ não como sutento, mas toda a vida dela. Só dá para curar dores crônicas lançado toda a vida ao Senhor.
Quando lançamos nossas vidas para o Senhor, tanto o nosso passado, presente e futuro, enfim a vida como um todo, tudo é colocado nas sob o cuidado de Deus é como se tomássemos antibióticos que age diretamente na doença, nos problemas, destrói aquilo que gera morte, mal estar.

III – A cura é resultado da vontade de ser curado.
Jesus descreve três tipos de pessoas que lançam suas ofertas, a multidão, os ricos e a viúva. Dos três  a única que lançou sua vida foi a viúva, decidiu, teve vontade de curar e depender do que Deus poderia fazer, os outros, por sua vez, não tiveram vontade de cura, ao invés disso, preferem continuar no controle da situação, por cima de tudo, lançando muito, não tudo. Continuam com suas dores crônicas, que são camufladas, mas persistem e quem as sofre sabe o quanto dói. Decidir curar o egocentrismo, enfermidades n’alma, no coração, na vida espiritual é um caminho doloroso, sobretudo um viés seguro pois Deus assume as diretrizes da vida e cuidadosamente cura dores crônicas aparentemente incuráveis. Caminhe em direção a cura.

Vo te fazer 3 perguntas e quero 3 respostas

[aula escola Dominical na IM em Guaianases, 18 de novembro de 2012].


Escola Dominical IM Guaianases - Marcos 12.13-34
13 E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra. 14 Chegando, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens; antes, segundo a verdade, ensinas o caminho de Deus; é lícito pagar tributo a César ou não? Devemos ou não devemos pagar? 15 Mas Jesus, percebendo-lhes a hipocrisia, respondeu: Por que me experimentais? Trazei-me um denário para que eu o veja. 16 E eles lho trouxeram. Perguntou-lhes: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César. 17 Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E muito se admiraram dele.
 18 Então, os saduceus, que dizem não haver ressurreição, aproximaram-se dele e lhe perguntaram, dizendo: 19 Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se morrer o irmão de alguém e deixar mulher sem filhos, seu irmão a tome como esposa e suscite descendência a seu irmão. 20 Ora, havia sete irmãos; o primeiro casou e morreu sem deixar descendência; 21 o segundo desposou a viúva e morreu, também sem deixar descendência; e o terceiro, da mesma forma. 22 E, assim, os sete não deixaram descendência. Por fim, depois de todos, morreu também a mulher. 23 Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de qual deles será ela a esposa? Porque os sete a desposaram. 24 Respondeu-lhes Jesus: Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? 25 Pois, quando ressuscitarem de entre os mortos, nem casarão, nem se darão em casamento; porém, são como os anjos nos céus. 26 Quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido no Livro de Moisés, no trecho referente à sarça, como Deus lhe falou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? 27 Ora, ele não é Deus de mortos, e sim de vivos. Laborais (trabalhar, cair, incidir, incorrer) em grande erro.
 28 Chegando um dos escribas, tendo ouvido a discussão entre eles, vendo como Jesus lhes houvera respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o principal de todos os mandamentos? 29 Respondeu Jesus: O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! 30 Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. 31 O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes. 32 Disse-lhe o escriba: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que ele é o único, e não há outro senão ele, 33 e que amar a Deus de todo o coração e de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo excede a todos os holocaustos e sacrifícios. 34 Vendo Jesus que ele havia respondido sabiamente, declarou-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém mais ousava interrogá-lo.

Quem eram os herodianos? Não era um grupo religioso, sua característica é de um grupo político, de formatação de opinião de modo que o império de Herodes tivesse maiores e melhores aceitações. Defendiam o império, afim de coibir e/ou identificar possíveis agitadores que poderiam influenciar uma revolta.
Quem eram os saduceus? Eram pessoas ligadas a uma espécie de facção religiosa, em que não acreditavam na ressurreição, em anjos e demônios e sua perspectiva messiânica era sacerdotal, isto é, uma justificação que vem por meio do templo e dos atos religiosos. É um grupo que aparece apenas no NT, nota-se como características um alto nível de rigor para cumprir a Lei, sendo que eles consideravam apenas as Leis (A Torah);
Quem eram os escribas? Escriba era uma função antiga, existente tanto no Egito como na Mesopotâmia. No mundo bíblico sua aparição mais expressiva é no NT. Havia alguns questionamentos a respeito da idoneidade desse grupo (Jeremias 8.8 Pois, com efeito, a falsa pena dos escribas a converteu em mentira). Sua autoridade se fundamentava em seu amplo conhecimento, dando respaldo para suas opiniões. Jesus, por sua vez, ensinava com autoridade, mas não como um escriba. Era um grupo culto, profundamente conhecer do primeiro Evangelho, todavia que por motivos pessoais e políticos conspiraram contra o ministério de Jesus. Há de se considerar a possibilidade de alguns escribas terem se convertido a comunidade cristã primitiva.
Esse trecho esta localizado em uma parte em que Jesus estava no templo e muitos queriam pegá-lo em alguma falta, de modo que as pessoas que estivessem ouvindo sua voz deixassem de dar crédito à sua mensagem. Três grupos diferentes, com doutrinas diferentes questionam Jesus, é como se:

Ø  Um presbiteriano perguntasse sobre predestinação;
Ø  Um assembleiano sobre batismo no Espírito Santo;
Ø  Um Batista sobre batismo infantil.

São três perguntas que já estão bem definidas para ambos, sendo que não precisa de perguntas para resolver esses problemas, pois já estão bem sistematizados e resolvidos. Suas intenções eram questionar o ministério de Jesus. Não havia a pretensa de aprender alguma coisa, ao invés disso, eles queriam dar xeque mate em Jesus, ou desmascará-lo diante de todos.
O que eles não esperavam era que Jesus estava preparado para, não apenas responder as perguntas deles, sobretudo perceber a intencionalidade de seus corações e, mais do que responder ao questionário, questionar o que passava em seus corações.

Algumas considerações a partir do texto.
I - Nem todas as perguntas que fazemos são para saciar dúvidas, são apenas desculpas para provarmos alguém.
Tanto os herodianos, saduceus e os escribas não tinham essas dúvidas, então, por que fizeram essas perguntas? Não havia virtude no que eles fizeram, havia maldade

II – É fundamental estar preparado o todo tempo.
Jesus surpreendeu seus questionadores porque ele estava preparado, não apenas com o discernimento espiritual da intenção das pessoas, mas, também, com conhecimento da Bíblia, das escrituras, por isso ele não foi iludido nem ‘tapeado’, muito erro vem do desconhecimento:
1 Cor 15.34 “porque alguns ainda não tem conhecimento de Deus.

III – Jesus com toda sabedoria consegue valorizar aqueles que queriam subjulga-lo.
Jesus ao invés de levantar um muro, uma barreira, afinal de contas ele precisava se defender dos seus acusadores, ao invés disso, Jesus consegue se conectar com algo positivo que um dos seus inquisidores. Ver virtude aonde ninguém veria.
Sem sombra de dúvidas o ministério de Jesus incomodava os demais grupos, principalmente porque a mensagem de Jesus era esclarecedora e não se escondia atrás de dogmatismo morto. Ter uma fé vive e relevante é um grande desafio hoje.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Abaixo a Monarquia: Exegese de 2 Reis 14.23-29

[parte de esforço exegético apresentado em Congresso Científico]


1 Texto
23 Em ano cinco dez ano de Amazias filho de Joás rei de Judá reinou Jeroboão Filho de Joás rei de Israel em Samaria quarenta e um anos. 24 E fez o mal aos olhos de YHWH não desviou de todos os pecados de Jeroboão filho de Nabat que fez pecar a Israel. 25 ele fez voltar a fronteira Israel de entrar (para/desde) Hamat até o mar de a Arabá como palavra de YHWH elohim de Israel que disse pela mão de seu servo Jonas filho de Amitai o profeta que de Gat hefer 26 Eis que viu YHWH pobreza de Israel amargura muita e ninguém escravo e ninguém livre e não havia socorro para israel. 27 E não falou YHWH limpar nome de Israel embaixo dos céus e salvou por mão de Jeroboão filho de Joás. 28 E restante de palavras/feitos de Jeroboão o todo que fez e seu poder que conduziu a batalha e que fez voltar Damasco e Hamat para Judá em Israel não (estão) eles escritos sobre livro dos feitos dos dias dos reis de Israel? 29 E deitou-se Jeroboão com os seus pais com reis de Israel e tornou-se rei Zacarias seu filho em seu lugar.

A perícope selecionada é 2 Reis 14.23-29, mesmo com poucos versículos é um texto com uma estrutura bem definida. Vale dizer que este texto está inserido num bloco maior que é o capítulo 14 de 2 Reis. Seguindo a lógica do livro, todo o capítulo 14 descreve a sucessão de reis tanto do sul como do norte. A diferença é que nesse trecho, existe um movimento de expansão e de conquistas do Reino do Norte. Aparentemente é uma descrição de evolução, todavia, ao analisar todo o bloco, percebe-se que esse desenvolvimento foi o início da destruição do Norte.
Voltando a delimitação do texto de 2 Reis 14, o verso 23 carrega elementos que indicam o início da perícope, como, por exemplo, a frase inicial que anuncia o início de um novo tempo, de um novo reinado. Os atuantes dessa perícope são outros (o pai de Jeroboão II, o profeta Jonas e Zacarias). Essa perícope tem seus argumentos peculiares, sendo eles: o mal caminho de Jeroboão II; a expansão de seu território; o estado de desgraça do povo; Deus e o profeta.
Nota-se os elementos que indicam o término da perícope no verso 29. Já no verso 28 aparece a resolução da ação dos personagens, neste caso Jeroboão II. A reafirmação da conquista e expansão de seu território (possivelmente um elemento muito importante para o autor). Há a descrição da morte de Jeroboão II e quem o sucedeu, numa clássica função terminal de uma perícope. Vale ressaltar que no capítulo 15, o tema desenvolvido não tem relação direta com Jeroboão, por mais que apareça o nome dele, é outro assunto, específico ao rei Azarias. Essa é uma perícope com começo, meio e fim e que trata de um tema específico que é o reinado de Jeroboão II e a forma como seu império, na perspectiva do autor, desenvolveu-se.

Nota-se que essa perícope é uma narrativa, ao passo em que se considera o contexto vivencial, percebe-se que a preocupação do narrador é descrever como foi o início, desenvolvimento e término do rei em questão. É notório a preocupação do autor em descrever o que ficou na consciência do povo, a saga que ficou conservada na memória do povo. Outro elemento presente em uma narrativa é o seu viés etiológico, isto é, a pretensão do autor em descrever um fato extraordinário ou um evento que acontecera. O reinado de Jeroboão II não foi irrelevante, afinal de contas, foi nesse reinado em que houve a maior expansão do território além da situação de extrema miséria em que o povo vivia.
As narrativas, principalmente as escritas nos livros ‘históricos’, possuem um caráter de anais ou historiográficos, esse texto possui essa variante, ao passo que relata com precisão dados de Jeroboão II e do seu reinado. Não pode desprezar o viés mítico que essa narrativa tem ao passo que a divindade é vista como aquela que pode ou não eliminar/limpar uma nação, aponta a relação com esta divindade, no caso, YHWH.

I – Início do reinado de Jeroboão II [v.23];
a) Data do Reinado;
b) Genealogia;
c) Tempo do Reinado.
II – Descrição do reinado de Jeroboão II [v.23-27];
a) Pecado de Jeroboão I;
b) Progresso do Reino;
c) Pobreza e restauração de Israel.
III – Fim do reinado de Jeroboão II [v.28-29].
a) Descrição de sua ‘principal’ conquista;
b) Morte e sucessão monarquica

Numa breve explicação da subdivisão do texto vale destacar que no primeiro verso o autor segue o modelo do livro de Reis, especialmente o padrão do reinado do norte, em que descreve a data do Reinado, a genealogia do monarca, isto é, qual a dinastia que terá sequência no império e quanto tempo ele permaneceu no poder.
Em seguida aparece a descrição do reinado de Jeroboão II. Tem-se a ideia de que o autor descreve os feitos que ficaram no imaginário do povo. O primeiro fato destacado é a continuação dos pecados de Jeroboão I, por mais que Jeroboão II tenha persistido nos mesmos erros de Jeroboão I, seu império foi marcado por um tempo de expressivo progresso e expansão de modo considerável, contudo, ao mesmo tempo em que havia progresso, houve grande tempo de pobreza sobre o povo, isto é, a camada mais pobre. O autor aponta que até por meio deste monarca YHWH salvou Israel, será que o autor tem a perspectiva de que Deus pode mudar a história do povo nas piores condições políticas? É apenas um viés teológico?
Por fim, seguindo o clássico modelo dos anais dos reis, o autor descreve o final do reinado de Jeroboão II. Há a descrição de, possivelmente, sua maior conquista, seus atos que ficaram nas crônicas dos reis, aonde foi sepultado e, por fim, quem foi o seu sucessor no reino. Esse molde padrão é percebido em todas as descrições para os reis do Norte. Uma estrutura concisa, sólida e bem organizada.

O texto bíblico demonstra a dificuldade em desvincular as diversas áreas que permeiam a vida. Esta perícope retrata um pouco sobre isso. O Contexto histórico dela é marcado por um grande índice de desenvolvimento do povo. O monarca deste período é Jeroboão II, entretanto este rei é vinculado com Jeroboão I, além do mesmo nome o autor bíblico afirma que eles tinham muitas semelhanças.
Jeroboão I assume o reinado após a morte de Salomão. Divide o povo, legitima seu poder em uma profecia. Jeroboão I altera o polo religioso para Siquém, Região montanhosa de Efraim, constrói dois bezerros de ouro e coloca um em Betel e outro em Dã, dando a estes bezerros os créditos da libertação do Egito, possivelmente o povo vivia um tempo de crise de identidade religiosa. Estabeleceu os seus próprios sacerdotes, inaugura um tempo de profundo sincretismo religioso.
Jeroboão I tornou-se paradigma para reis rejeitados pelo autor do livro de Reis. Toda vez que o nome de Jeroboão I é retomado é sempre num sentido de morte para os reis que estão em voga. É um nome que prediz a morte ou num sentido de que o rei esta afastado da vontade de Deus, dos caminhos de Deus (1 Rs 15.29-30; 15.34; 16.2-3; 16.7; 16.19; 16.26; 16.31; 21.22; 22.53; 2 Rs 3.3; 9.9; 10.29; 10.31; 13.2; 13.6; 13.11.). Jeroboão II é descrito como um rei que seguiu os passos de Jeroboão I.
Jeroboão II foi um monarca muito importante porque contribui significativamente para um tempo de prosperidade e abundância do povo. Foi um tempo em que Israel conseguiu se destacar significativamente, “podemos constatar que a maior desgraça do Reino de Israel – e a causa de sua destruição e do exílio de muitos do seu povo – foi que ele floresceu muito bem, como um reino independente à sombra de um grande império.[1]. Período de proeminência que possibilitou que o estado gozasse de muita riqueza, como segue:
É no auge da prosperidade do reino do norte, sob o governo de Jeroboão II, que nós podemos identificar, afinal, a totalidade dos critérios do Estado organizado: alfabetização, administração burocrática, produção econômica especializada e um exército profissional. É também o período do qual temos o primeiro registro de reclamação profética. Os oráculos de Amós e Oséias são os primeiros livros de profecias preservados, contendo material que reflete o apogeu de profecias preservados, contendo material que reflete o apogeu de Jeroboão II. [2].

Num primeiro momento, parece que o povo desfrutava de um tempo de prosperidade, porém, ao ler os indícios apontados por outros textos, enquanto uma parte de Israel desfrutava de luxo, poder e prosperidade, a maior parte do povo era oprimido e assolado para poder manter a vida dos ricos.
Jeroboão II foi rei do Norte por 41 anos. Pouco se fala desse monarca na Bíblia Hebraica. Parece que há certa resistência quanto ao seu governo. O que não se pode negar é seu papel de gestor ‘bem sucedido’ e general sanguinário, como segue:
Jeroboão II é da dinastia de Jeú, um general que – com algumas boas intenções e por meio de muitos massacres (cf. Os 1.4; 3 Rs 9-10) – galgou o poder em 842. Jeroboão II mostrou serviço. Atesta-o seu longo governo de quarenta e um anos, desde 787 até 746. Os anais, citados em 2 Rs 14.23-29, nos dão uma ideia de seus grandes ‘sucessos’. Ampliou as fronteiras de Israel. Impôs o interesse do Estado israelita em Damasco e em Emat, vizinhos ao norte. No sul, alargou as fronteriras até o Mar Morto. Não é possível que os Estados de Damasco e Emat tenham sido mantidos sob ocupação, durante todo o governo de Jeroboão. Afinal, de acordo com Am 1.3-13; 6.13 houve lutas fronteiriças em Galaade (na Transjordânia). Nesses combates muitos civis foram massacrados, “trilhados com trilhos de ferro” (Am 1.3).[3]
A ampliação das terras, do norte (Damasco e Emat) até o Sul (Mar Morto) feitas por Jeroboão tinham objetivos específicos. Jeroboão II poderia intervir nas rotas comerciais e garantir, assim, o pagamento dos altos tributos. O monarca possuía o monopólio das principais vias fazendo com que “comerciantes egípcios e mesopotâmicos necessariamente passavam pela Planície de Jezrael, um verdadeiro entroncamento comercial[4], sua estratégia fazia com que as rotas comerciais e a arrecadação de tributos não saíssem de seu controle.
O reinado de Jeroboão II teve grande progresso na área agrícola e pelo grande crescimento populacional. As áreas montonhosas ao redor de Samaria foram escolhidas para o cultivo de olivais, segundo Finkelstein “os famosos óstracos de Samaria – coleção 63 cacos de cerâmica inscritos com tinta em hebraico e datados, admite-se, da época de Jeroboão II – registram o carregamento e o embarque de azeite e de vinho pelas aldeias ao redor da cidade de Samaria, a capital.”[5]. Grande parte dessas negociações fincava-se nas trocas que geravam grande prejuízo para Israel, o qual, para compensar o prejuízo, tinha que oprimir, subjulgar a camada mais pobre a fim de que ela produzisse muito mais, além do trabalho forçado o povo tinha que pagar tributos que segundo Schwantes “tão somente serviam para satisfazer a ganância e a luxúria dos ricos [6]. Dentro da complexidade de administrar tanto cidade como campo, Jeroboão enfatizava a coleta dos tributos para conseguir manter sua capital, Samaria – este foi um dos grandes desafetos dos profetas. Além do que o movimento agrícola ajudava em sua expansão da negociação internacional.
Outro elemento interessante na economia desenvolvida por Jeroboão II são os indícios de ter sido um grande criador e adestrador de cavalos. O cavalo era um dos produtos mais apreciados e valorizados no reino do Norte. Essa teoria dava margem para que Jeroboão II tenha fornecido cavalos adestrados para os povos da Assíria.
Sem sombra de dúvidas é uma teoria muito interessante. Durante um tempo foi questionada, pois os objetos encontrados tinham quase nenhuma relação com bigas, porém, com descobertas arqueológicas essa refutação perdeu força, pois há possibilidade de Jeroboão II, sim, ter sido um adestrador de cavalos, como segue:
Graças ao processo de estabelecer outras datas para o estrato de Megiddo – e a reavaliação da história arqueológica do reino do norte – agora podemos rejeitar as teorias anteriores e afirmar com segurança que as estruturas que parecem estábulos em Megiddo pertencem à época de Jeroboão II. Muito embora ACab tenha mantido razoável força de bigas, ele construiu os grandes palácios em Megiddo que precedem o nível dos ‘estábulos’ (apesar de alguns estudiosos sugerirem que essa cidade, apenas escavada em parte, tivesse estábulos também). Mas relacionar os ‘estábulos’ da Jeroboão II não resolve o problema sobre a sua função. [7].
Há a possibilidade de Jeborão II ter desenvolvido projetos públicos, não apenas em Meguido, mas “também a construção de Hazor, como fortaleza, nos terrórios retomados dos arameus e a reconstrução da cidade de Gezer, posto avançado estratégico do reino do Norte, na froteira com Judá e a Filistéia” [8].
É importante o fato de Jeroboão II seja o mais antigo monarca de Israel que se encontrou um selo oficial [uma espécie de leão], esse dado revela indícios da memória do povo a respeito de Jeroboão II: monarca que por meio da usurpação aos pobres conseguiu expressivo crescimento para as camadas ricas utilizando de alianças e conexões internacionais, além de grandes construções e edificações.
Samaria foi um ponto estratégico para todo esse desenvolvimento do império de Jeronoão II. O território de Samaria não foi escolhida aleatoriamente, ao contrário disso, uma região situada na rota Sul/Norte, no acesso Leste/Oeste não dá bom acesso. Uma região melhor protegida do que Siquém e/ou Tirza, militarmente uma região mais fácil para ser protegida. Quando Omri passou a dar destaque para Samaria nota-se um possível interesse de ligações especiais de origem, além das relações comerciais. Todavia é certo que Samaria era um bom exemplo de capital na época do ferro II, isto é, um estado não depende só de uma cidade como acontecia na época do Bronze. Cada cidade dá sua contribuição, auxilia do desenvolvimento, contudo a capital precisava de segurança, como descreve o Professor Schwantes:
A capital obviamente deve ser segura, pouca exposta aos avanços de inimigos. Não necessita estar no melhor lugar comercial, pois este não se perde para o Estado. Quando Onri foi para o monte da Samaria, não desprestigiou Siquém como núcleo comercial. A Samaria segura, no alto, mais fácil de ser defendida que Siquém, um núcleo urbano concebido nos tempos do bronze, cumpria, pois, seu papel em colaboração com os demais centros de poder. Onri fez de Samaria a capital dentro dos moldes de um estado territorial.[9]
Jeroboão II se utiliza bem desses elementos estratégicos para fortalecer seu império. Por mais que Samaria fosse a capital e gozasse de boa segurança, a mesma rota que levava os cerais, óleo, cavalos e os demais produtos foram os mesmos caminhos que trouxeram os soldados assíricos, desencadeando na ruína de Samaria, tragédia tal que Israel do Norte nunca mais conseguiu se reestabelecer.
Para os olhos externos Israel vivia um tempo de grande progresso, mas para o povo, era um tempo de miséria, destruição e ausência de referência religiosa. Por mais que a religiosidade fosse um elemento importante dentro deste imaginário religioso, ela exercia poder apenas ao que se refere tributário. A religiosidade era violenta e recebe fortes críticas dos profetas, pois era inescrupulosa em seu processo de arrecadação, há, segundo Schwantes, 3 principais causas: causa interna (manter o sistema militar e os custos administrativos); causa externa (Jeroboão II pagava tributos para poder manter suas relações internacionais de negócios); e a elite de Israel (manter uma vida de luxo e de extravagância) [10].
Esse movimento religioso desperta nos profetas (Amós e Oséias) fortes críticas ao império de Jeroboão II. Um ponto de forte crítica é o sistema opressivo de arrecadação e opressão ao povo; outro elemento de forte crítica dos profetas é que havia grande incentivo dos ritos de fertilidade, tanto humano como de produção agrícola. Ambos eram muito valiosos e determinantes para o progresso de Jeroboão II.
Com o a morte de Jeroboão II todo o seu império, por mais expressivo e desenvolvido que tenha sido a sua época, apresentou-se frágil e sem condições de continuidade do reinado. “O progresso jeroboânico foi, sem sombra de dúvidas, o túmulo do povo e de Israel. A deterioração das condições de vida do povo era palpável em toda parte. Schwantes descreve que a “violência e maus-tratos, religiosidade formalista e templos interesseiros, enriquecimento fácil e suborno, enfim a justiça transformada em veneno e o caos social dominavam a cena. [11]. O povo transitou de um tempo de profundo desenvolvimento e prosperidade para um período de instabilidade e calamidade, sem condições para enfrentar algumas mazelas.

O autor bíblico destaca, mesmo que em poucas linhas, a grande expansão do território de Jeroboão II. Sem sombra de dúvidas um tempo de grande progresso e evolução. Na atualidade o reinado de Jeroboão II seria arquétipo de uma nação bem sucedida, de um ministério bem aventurado, afinal de contas conseguiu expandir não apenas o território, mas suas aquisições e o povo. Segundo o texto bíblico esse progresso e tempo de prosperidade foi a anti-sala da maior catástrofe do povo de Israel. Logo, nem todo progresso, crescimento, expansão é sinal de bênção.
Na contemporaneidade há uma grande ânsia em conquistar, expandir, crescer e ter. Isso tudo a qualquer preço, a qualquer custo. Não se ponderam os riscos, os valores. Jeroboão II retratada bem pessoas que não calculam o estrago que causam na vida de outras pessoas por serem insaciáveis em seus desejos egocêntricos. O povo vivia em miséria, numa pobreza intensa, não dava para distinguir quem era livre ou escravo, não havia salvação para o povo porque quem retinha o poder não se compadecia.
Não é diferente nos dias atuais. Existem muitos líderes que a qualquer preço tentam expandir suas negociatas, independente se religiosos, estatais ou empresariais. São dominadores que possuem legitimidade religiosa e que colocam deus em seus grandes empreendimentos, sempre com uma boa desculpa. Apertam o povo para tirar o máximo que puder. Ensinam o povo a fazer o que é mal e a ter uma má religiosidade, uma espiritualidade baseada na troca, nos bens, nas coisas. Ensinam que a divindade precisa se dobrar diante do novo senhor por meio de trocas justas.
Distinguir o falso profeta do verdadeiro não é fácil. Perceber quais são os motivos ou os resultados da predileção de um profeta, pode ajudar a discernir. Ponderar o que está em jogo, o que o profeta ganha com tudo isso auxilia numa percepção clara.
Em tempos contemporâneos o que não faltam são profetas que venderam as bênçãos em favor de trocas, poder, status, dinheiro, posses. “Nem todo o que diz Senhor, Senhor entrará no reino dos céus” (Mt 7.21ss). Há uma repulsa por parte do autor bíblico deste monarca. O que para uma sociedade pode representar normalidade, progresso e prosperidade, para o autor bíblico é o primeiro passo de uma desgraça irreparável. Ter sensibilidade para não confundir bênção com maldição passa não por trilhos de ferro (Am.13), sobretudo, por caminhos da coerência e da solidariedade.


[1] FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: Editora Girafas, 2, p. 270.
[2] FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: Editora Girafas, 2, p. 291.
[3]     SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p.15.
[4] SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p.15-16.
[5] FINKELSTEIN, p. 284.
[6] SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p. 21.
[7] FINKELSTEIN, p. 288-289.
[8] FINKELSTEIN, p. 286.
[9]     SCHWANTES, Milton. As monarquias no Antigo Israel: um roteiro de pesquisa histórica e arqueológica. São Leopoldo: Centro de Estudo Bíblicos, 2006, p. 54-56.
[10] Cf. SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p. 23-24.
[11] SCHWANTES, Milton. A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós. São Paulo: Editora Paulinas, 2004, p. 28.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Miqueias

[série profetas menores na IM em Guaianases - sintese]


O profeta Miquéias é interessante porque sua denuncia abrange tanto o reino do Norte como do Sul. É um profeta descrito num tempo específico, isto é, no reinado de Jotão, Acaz e Ezequias, reis do norte e do sul. Miqueias morava em uma região sudoeste de Judá, contudo o seu ministério abrangia os dois povos.
Como os demais livros, Miquéias não pode ser lido apenas em seus fragmentos. Por mais que seus fragmentos sejam bastante animadores, são partes que precisam dialogar com o todo do livro, por exemplo 6.8:
“8 Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.”
Um texto que anima a pessoa a praticar a justiça, amar a misericórdia e andar com humildade. Cada ação é movida por um verbo. Mas por que o profeta pede para praticar, amar e andar com essas virtudes? O que estava em jogo? Outro trecho bastante bonito é 7.18-20:
“18 Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniqüidade e te esqueces da transgressão do restante da tua herança? O SENHOR não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia.  19 Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniqüidades e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar. 20 Mostrarás a Jacó a fidelidade e a Abraão, a misericórdia, as quais juraste a nossos pais, desde os dias antigos.”
O profeta, no fim do livro, descreve um pouco sobre Deus: um caráter perdoador, que não tem prazer em ver o povo se perdendo, mas tem alegria em perdoar e agir de modo misericordioso, isto é, dar aquilo que as pessoas não mereciam, mas por amor Deus faz. É, sem sombra de dúvidas, um texto muito bonito, animador, porém, quais foram as circunstâncias que levaram o profeta a escrever?
Em primeiro lugar, Miquéias denuncia que não existe uma liderança ou um povo que se esforça em agradar a Deus, ao contrário disso, o povo esta perdido e pervertido.
Existem pessoas gananciosas e oprimem o povo. São pessoas que maquinam o mal no travesseiro e cumprem o que pensou quando o dia inicia (2.1-2). São pessoas que não tem controle para o que desejam! São descontrolados e não avaliam a destruição que causam na vida do povo.
Além de criticar as pessoas que tem poder e privilégios, o profeta denuncia com veemência os falsos profetas e os sacerdotes da mentira. Existem pessoas que aborrece o bem e aplaude o mal (3.2).
Muito parecido nos dias atuais, existiam profetas que conduziam o povo ao erro, ao pecado. Para pessoas que lhe dão o que comer, o profeta tem palavras doces e de paz, todavia, para pessoas que não o que dar para os profetas, são julgadas e condenadas, mesmo inocentes.
O profeta afirma que está cheio do poder de Deus para denunciar aquelas pessoas que, em nome de Deus fazem barbaridades (3.8). Não dá para fazer tal afirmação de qualquer forma, ao contrário, é preciso muito discernimento, temor e tremor diante de Deus, pois é em nome d’Ele que se fala.
O profeta, com a convicção do seu chamado levanta a sua voz contra todas as estruturas de destruição. Miquéias nos ensina a importância de saber da certeza da sua experiência com Deus, da certeza e convicção para o que foi chamado. Ele sabia que o impacto de sua voz não estava em suas palavras veementes, ao contrário disso, o poder de suas palavras estavam no Espírito de Deus que estava sobre ele.
Miqueias fala contra os cabeças, que abominam o juízo, o que é certo, o que é bom, em favor de si mesmos, além de perverter o correto. Suas edificações são a base do sangue e da perversidade, um progresso demoníaco e distante de ter relação com a expansão de Deus.
Isso é interessante pois, num tempo em que a prosperidade é destacada como bênção, o profeta refuta esse pensamento, haja vista que o crescimento não pode se dar a qualquer preço.
O suborno ainda era algo presente na vida do povo. Não havia o que era justo, o certo, toda decisão era corrompida às vontades pessoais e próprias – muito parecido ao dias atuais em que decisões são alteradas devido a suborno.
Há uma forte crítica aos sacerdotes, aquelas pessoas responsáveis em conduzir o povo à uma profunda espiritualidade com Deus, eles estavam fazendo tudo não por vocação ou chamado, ao invés disso, por interesses: o que ele estava ganhando, o que ele teria em troca, quais eram os benefícios disso tudo, enfim, sacerdotes do mal.
Não diferente disso, os profetas viviam a mesma dinâmica, adivinhavam por dinheiro. Sua resposta sairia na proporção do que se pudesse pagar. O pior de tudo era dizer que o que estava fazendo era sobre a orientação de Deus (3.11).
O profeta é categórico em afirmar que por causa dessas posturas o povo seria lavrado, tirado, limpado, extirpado, lembrando muito o reinado de Jeroboão I e II quando se relata que Deus poderia limpar o nome da terra, acabar com aquele povo, mas por misericórdia não o fez.
Existe um discurso de que o povo será chamado. Não qualquer povo, principalmente aqueles que sofreram, os que usurparam do seu poder e não fizerem o que deveriam fazer, cairão por terra e serão extirpados. Deus, por sua vez, chamara aqueles que nunca teriam lugar, os que mancam e os que foram exilados e sofreram grandes abusos (4.7).
Fica claro que os grandes governantes não sabem ou não conhecem quem de fato é Deus. Nos versos 4.12-13 o profeta deixa claro a soberania de Deus e esse pequeno trecho é o início de uma profecia messiânica, a qual descreve, com maestria, a vinda do messias que mudará as circuntâncias. Por mais que os tempos fossem outros, e o problema fosse emergencial, o profeta não despreza a importância de buscar em Deus e na espera do seu salvador! Ele crê, denunciando e anunciando.
O capítulo 5 detém tempo falando sobre o messias, nas suas características no que ele fará a favor do povo e que o povo não pode desistir, ao invés disso, persistir em seus sonhos e na ideia da liberdade para um dia viver em liberdade.
Agora os demais versos citados a cima fazem sentido, principalmente quando são vistos em diálogo com o julgamento  dos perversos e, ao mesmo tempo, esperança para aqueles que esperam em Deus. Deus é aquele que lança o pecado nas profundezas do mar e dá nossa chance de vida e esperança. Estudar os profetas menores nos faz entender que a vida por pior que esteja, com Deus ainda há alternativas.